
Na Umbanda, Nossa Senhora Aparecida é ligada a Oxum, a senhora das águas doces, e em algumas casas a Iemanjá. Entenda a pesca de 1717, por que o sincretismo nasceu como resistência e não como fusão, e o que se faz no terreiro em 12 de outubro.
Nossa Senhora Aparecida na Umbanda é uma das devoções mais queridas do povo de terreiro, e também uma das mais mal explicadas. Em 12 de outubro, enquanto o Brasil celebra a padroeira, muitas casas saúdam Oxum, a senhora das águas doces. Algumas ligam a Santa a Iemanjá. Este texto mostra de onde vem essa ligação, o que a história de 1717 tem a ver com rio e com água doce, e por que dizer que a Santa é a Orixá apaga as duas tradições ao mesmo tempo.
Resposta rápida
Na Umbanda, Nossa Senhora Aparecida é sincretizada com Oxum, a Orixá das águas doces, do amor, da maternidade e da prosperidade. A ligação vem de três afinidades: a imagem da Santa foi encontrada dentro de um rio, que é o domínio de Oxum; as duas são figuras maternas de acolhimento; e as duas são imagens negras, o que fez o povo afro brasileiro se reconhecer nelas. Em algumas casas, sobretudo as de linha de água, Aparecida é ligada a Iemanjá, pela mesma razão do elemento. A data é 12 de outubro, feriado nacional desde 1980. A saudação de Oxum é Aieiê Ô, Mamãe Oxum!, e a data festiva dela também aparece em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. Sincretismo não é fusão: Aparecida continua sendo a Virgem Maria para o católico, e Oxum continua sendo Orixá para o umbandista. Quem confirma o calendário e a forma de celebrar é sempre o dirigente da sua casa.
Quem é Nossa Senhora Aparecida e a pesca de 1717
A devoção começa na água. Em outubro de 1717, três pescadores do Vale do Paraíba, Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, lançavam a rede no rio Paraíba do Sul, perto de Guaratinguetá, no interior de São Paulo. A pesca vinha vazia. Numa das tentativas recolheram o corpo de uma pequena imagem da Virgem, sem a cabeça. Na tentativa seguinte veio a cabeça, que encaixou perfeitamente no corpo. Depois disso, conta a tradição, as redes voltaram cheias de peixe.
A imagem é de terracota escura, com cerca de 36 centímetros, e representa Nossa Senhora da Conceição. Por ter aparecido nas águas, ficou conhecida como a que apareceu, a Aparecida. Ficou guardada por cerca de quinze anos na casa de Felipe Pedroso, o mais velho dos três, sobre um altar simples, e ali começou a devoção dos vizinhos.
Em 1930 o Papa Pio XI a proclamou padroeira do Brasil, com proclamação solene em 1931, no Rio de Janeiro. Em 1980, a Lei 6.802 instituiu o 12 de outubro como feriado nacional dedicado a ela, no mesmo ano em que João Paulo II consagrou a Basílica de Aparecida.
Por que Aparecida foi ligada a Oxum
A aproximação não foi sorteio. Ela nasce de três afinidades que a devoção popular percebeu e cultivou por séculos.
- A água doce. A imagem surgiu de dentro de um rio, e o rio é exatamente o território de Oxum, senhora dos rios, das cachoeiras e das nascentes. Uma mãe que emerge da água doce fala direto ao imaginário de quem cultua a dona daquelas águas.
- A maternidade. Nossa Senhora é a mãe que acolhe e intercede. Oxum é a mãe que cuida do ventre, da criança que se forma e do recém nascido. Cada uma na sua tradição, as duas são figuras de amparo, especialmente das mulheres.
- A cor e a doçura. A imagem escura da Santa e o ouro de Oxum se encontraram numa mesma chave de afeto: a mãe que recebe sem cobrar e que adoça onde dói. Aparecida é a única das grandes imagens marianas brasileiras com rosto negro, e isso pesou muito na fé de um povo majoritariamente negro.
A nossa ficha de Oxum já registra esse sincretismo: dia da semana sábado, elemento água doce, cores amarelo e dourado, e as datas de 8 de dezembro e 12 de outubro.
Quando a casa liga Aparecida a Iemanjá
Há casas, sobretudo de linha de água, que ligam Nossa Senhora Aparecida a Iemanjá, a rainha do mar. A razão é a mesma que sustenta a leitura de Oxum: o elemento água e a maternidade. Iemanjá é a mãe por excelência do panteão, aquela que criou como seu o filho rejeitado por Nanã, o Orixá Obaluaê, e a que não abandona os filhos, nem os que não gerou.
As duas leituras existem e nenhuma anula a outra. Isso mostra algo importante: o sincretismo é construção cultural, não regra fixa baixada de cima. Ele varia por casa, por nação e por região.
Vale registrar ainda a variação do Candomblé baiano de nação ketu, onde Oxum costuma se ligar mais a Nossa Senhora das Candeias e a Nossa Senhora da Conceição, de 8 de dezembro, e não necessariamente a Aparecida. A associação Aparecida e Oxum é sobretudo do Sudeste e da Umbanda.
Sincretismo não é fusão, é resistência
Este é o ponto mais delicado do assunto, e o que mais se erra na internet. Oxum não é Nossa Senhora Aparecida, e Aparecida não é Oxum. São duas tradições religiosas distintas, com teologias próprias, que a história brasileira aproximou à força.
O sincretismo nasceu como estratégia de sobrevivência. Durante a escravidão, os povos africanos foram proibidos de cultuar seus Orixás. Para manter a fé viva, associaram cada Orixá a um santo católico de domínio parecido e seguiram reverenciando o axé sob a aparência da religião imposta. Quem se ajoelhava diante da Santa muitas vezes saudava, por dentro, a mãe das águas.
Reconhecer essa origem é uma forma de respeito. De um lado está a devoção católica: Maria, mãe de Jesus, venerada sob o título brasileiro de Aparecida. Do outro está a leitura afro brasileira: Oxum, Orixá iorubana das águas doces. Tratar as duas como a mesma coisa apaga tanto a fé de milhões de romeiros quanto a inteligência de quem usou o sincretismo para resistir.
O que se faz em 12 de outubro na Umbanda
Não existe uma obrigação única para a data: cada casa segue o seu fundamento e o seu calendário. Ainda assim, o que se vê com mais frequência nas casas de Umbanda é o seguinte.
- Gira de Oxum ou gira das águas, com os pontos cantados da Orixá, como Eu vi Mamãe Oxum na cachoeira.
- Congá arrumado em amarelo e dourado, com flores amarelas, mel e a imagem da Santa ao lado da representação da Orixá, quando a casa trabalha assim.
- Vela amarela ou branca acesa em nome da Santa e da Orixá, com agradecimento pelas graças do ano.
- Entrega na água doce, em rio ou cachoeira, seguindo a oferenda de Oxum.
- Defumação da casa antes dos trabalhos, no padrão da defumação de Oxum.
- Em muitas famílias, também a oração a Nossa Senhora Aparecida e a Ave Maria, sem nenhuma contradição com a gira.
Vale lembrar que 12 de outubro é também o Dia das Crianças no Brasil. Em algumas casas as duas coisas se encontram na prática, porque Oxum é protetora das crianças pequenas, mas a grande data da linha das Crianças na Umbanda continua sendo 27 de setembro, como explicamos em Dia de Cosme e Damião na Umbanda.
Como saudar Oxum e a Santa no dia, em casa
Para quem não tem casa de santo e quer honrar a data com respeito, o caminho é simples e público. Nada aqui substitui fundamento de terreiro.
- Acenda uma vela amarela (ou branca, se preferir) num lugar limpo e firme, longe de cortina e de material inflamável.
- Ofereça flores amarelas, mel puro num pratinho de louça e água limpa numa quartinha ou copo de vidro.
- Saúde com Aieiê Ô, Mamãe Oxum! e fale o seu pedido com as suas palavras, sem fórmula decorada.
- Se levar flores a um rio ou cachoeira, entregue só o que a natureza absorve: flores soltas, frutas e mel. Nunca plástico, vidro, isopor ou fita sintética.
- Ervas de Oxum que aparecem nas casas incluem a colônia, a camomila e a erva doce, usadas em banho de descanso e adoçamento, nunca em banho de cabeça sem orientação.
Oferenda de fundamento, banho de obrigação e confirmação de Orixá regente são assunto de terreiro. Procure um pai ou mãe de santo de casa séria: o site ensina o caminho público, o fundamento se vive na roça.
Erros comuns sobre Aparecida e Oxum
- Dizer que a Santa é a Orixá. São tradições diferentes que a história aproximou. Ponte não é igualdade.
- Achar que a correspondência vale em todo lugar. No Candomblé ketu da Bahia, Oxum costuma responder por Nossa Senhora da Conceição e das Candeias. Aparecida e Oxum é leitura forte do Sudeste e da Umbanda.
- Trocar a data. O dia da padroeira é 12 de outubro. A data mais tradicional de Oxum no sincretismo é 8 de dezembro. As duas convivem.
- Jogar oferenda com material que polui. Vidro, plástico e isopor em rio e cachoeira não são oferenda, são lixo, e nenhuma Orixá é honrada com sujeira.
- Confundir com o Dia das Crianças. A linha das Crianças na Umbanda tem a sua data própria em 27 de setembro.
- Comprar milagre. Caridade na Umbanda não se vende. Desconfie de quem cobra por graça garantida na data.
Fontes e referências
- História de Nossa Senhora Aparecida, 1717, Santuário Nacional (A12)
- Os pescadores da imagem de Aparecida, Santuário Nacional (A12)
- 1930: Pio XI declara Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil, A12 Academia
- Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Wikipédia
- Nossa Senhora Aparecida na Umbanda, Raízes Espirituais
- Nossa Senhora Aparecida e Oxum: o sincretismo, Joia Mística Laroyê
- Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás, USP
- Nossa Senhora Aparecida, culto e devoção, Vatican News
Perguntas frequentes
Qual Orixá é Nossa Senhora Aparecida na Umbanda?
Nossa Senhora Aparecida é Oxum ou Iemanjá?
Que dia se celebra Nossa Senhora Aparecida na Umbanda?
Posso ser devoto de Nossa Senhora Aparecida e de Oxum ao mesmo tempo?
O que oferecer a Oxum em 12 de outubro?
Por que a imagem de Nossa Senhora Aparecida é negra?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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