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O que é uma gira de Umbanda e como funciona

Gira é o nome do trabalho espiritual da Umbanda, em que os guias se manifestam pela incorporação para atender e dar caridade, ao som dos pontos cantados e dos atabaques. A palavra vem do quimbundo njila, caminho. Veja os tipos de gira, como funciona do começo ao fim, a diferença entre gira aberta e fechada e como se comportar na primeira visita.

Por Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan·26 de junho de 2026·9 min de leitura
O que é uma gira de Umbanda e como funciona
Resposta rápida

Gira é a reunião de trabalho espiritual da Umbanda, em que os médiuns incorporam os guias para atender, aconselhar e dar passes, ao som dos pontos cantados e dos atabaques (curimba). É, em geral, aberta ao público e voltada à caridade.

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A gira é a reunião ritual em que a corrente do terreiro trabalha: os médiuns incorporam os guias, que vêm dar consulta, passe e orientação, embalados pelos pontos cantados e pela curimba, o grupo dos atabaques. Quem nunca foi imagina algo hermético e assustador. Quem vai descobre uma reunião organizada, com sequência clara, gente cuidando de gente e uma etiqueta simples de aprender.

O que é gira

Gira é a sessão de trabalho da Umbanda. Numa gira, a corrente de médiuns da casa se reúne, o terreiro é aberto com preces e defumação, a curimba puxa os pontos e as entidades da linha daquele dia se manifestam nos médiuns para atender a assistência.

O que define uma gira não é a festa nem o número de pessoas presentes: é o trabalho espiritual com finalidade. Numa gira de atendimento, a finalidade é a caridade, expressa em passe, consulta e encaminhamento. Numa gira de desenvolvimento, é a formação dos médiuns da casa. Numa gira festiva, é a louvação de uma linha ou de um Orixá em data marcada.

Nas casas se ouve com naturalidade tanto gira quanto jira, e as duas grafias circulam sem que uma seja mais correta que a outra.

De onde vem a palavra gira

A etimologia mais citada nas fontes vem do quimbundo njila, que significa caminho. O quimbundo é língua do tronco banto, falada em Angola, e é uma das principais fontes do vocabulário afro-brasileiro. A gira, nesse sentido, é o caminho aberto por onde a espiritualidade transita.

Existe também a leitura popular que aproxima gira do verbo girar, pela roda que a corrente faz no barracão. Não é a etimologia atestada, mas é uma imagem verdadeira do que se vê, e ninguém erra por usá-la.

Vale um cuidado que evita confusão frequente. As palavras nganga e mbanda, também do tronco quimbundo, aparecem na origem discutida da palavra Umbanda, ligada às ideias de arte de curar e de morada dos espíritos. Elas não são a origem da palavra gira: são coisas diferentes, do mesmo tronco linguístico.

Tipos de gira

As casas classificam as giras de três maneiras que se cruzam.

Pela finalidade. Gira de trabalho ou de atendimento, voltada à caridade e ao público. Gira festiva, que louva uma linha ou um Orixá em data do calendário, com oferendas e comida ritual. Gira de desenvolvimento, dedicada à formação dos médiuns da corrente.

Pelo público. Gira aberta, que recebe a assistência e qualquer pessoa que chegue. Gira fechada, só para a corrente da casa, usada para estudo, desenvolvimento e trabalhos internos.

Pela linha. Gira de Caboclos, na vibração de Oxóssi. Gira de Pretos-Velhos, na linha das Almas. Giras de Ogum, de Xangô, de Baianos, de Boiadeiros, de Marinheiros, de Erês, de Ciganos. E a gira de esquerda, dos Exus e das Pombagiras.

Nomes como gira de cura e gira de Exu aparecem muito, mas não são categorias universais: são nomes locais de giras de trabalho com finalidade específica. Cada casa organiza o próprio calendário e usa o vocabulário que herdou.

Como funciona uma gira, do começo ao fim

A sequência varia de casa para casa, mas o esqueleto é bastante estável.

Abertura. Preces iniciais e saudação a Olorum, a Oxalá e aos Orixás. Em casas de raiz mais próxima do espiritismo entram também o Pai Nosso e a Prece de Cáritas.

Defumação. O espaço, a corrente e a assistência são defumados. A defumação de abertura limpa o ambiente e prepara o campo.

Firmeza. Velas e pontos riscados são firmados no congá e nos pontos vibratórios da casa.

Curimba e pontos cantados. Os atabaques entram e a curimba puxa os pontos da linha do dia. O canto é o que chama e o que sustenta o trabalho.

Incorporação. As entidades chegam nos médiuns da corrente. O cambono serve a entidade: acende vela e charuto, organiza a fila e traduz a fala quando necessário.

Atendimento. A assistência é chamada. Há passe, conversa, orientação e encaminhamento, que pode incluir um banho, uma reza ou uma providência prática.

Encerramento. Cantam-se os pontos de subida, as entidades se despedem, a corrente desincorpora e a casa é fechada com prece de agradecimento.

O que acontece no atendimento

Durante o atendimento, o consulente conversa com o guia, que pode dar conselhos, fazer um passe, indicar um banho ou uma oferenda e confortar quem chega aflito. É um momento de fé, escuta e acolhimento, não de adivinhação nem de espetáculo.

O que se ouve numa consulta séria costuma ser mais duro e mais concreto do que as pessoas esperam: procurar médico, conversar com quem se afastou, parar de alimentar uma situação, arrumar a casa. Guia que só elogia e promete milagre é sinal de casa que precisa ser olhada com cuidado.

Diferença entre gira, sessão e festa

Na prática os três termos se sobrepõem, e discutir nomenclatura raramente ajuda alguém.

Gira é o termo mais corrente na Umbanda em geral, e é o que este artigo descreve.

Sessão é o termo preferido por casas de linha mais próxima do espiritismo kardecista e por muitas casas de Umbanda Branca, para o mesmo evento. Onde se diz sessão, costuma haver mais prece falada e menos atabaque, mas isso não é regra.

Festa designa a gira festiva, marcada no calendário, com louvação de uma linha ou de um Orixá, oferendas, comida ritual e mais gente do que o normal. Festa é gira, com roupa de festa.

Se você ouvir os três nomes na mesma casa referindo-se a coisas parecidas, não é contradição. É o vocabulário vivo de uma religião de tradição oral.

Como se comportar numa gira

Nada do que segue é difícil, e nenhuma casa espera que o visitante saiba tudo. O que se espera é respeito.

Roupa. Clara, de preferência branca, simples, sem decote, sem transparência e sem roupa muito curta. Calça e camisa resolvem. Em gira de esquerda muitas casas admitem ou pedem preto e vermelho, então vale perguntar antes de escolher.

Chegada. Chegue no horário, celular desligado, e não fotografe nem filme sem autorização expressa.

Postura. Não cruze braços nem pernas durante o trabalho, não toque nos atabaques nem nos objetos do congá e evite conversa paralela.

Preparo. O costume mais repetido é evitar carne vermelha e bebida alcoólica no dia.

Calçado. Muitas casas pedem para retirar os sapatos ao entrar no barracão, pelo fundamento do contato com o chão. Leve isso em conta na escolha da meia.

Atendimento. Aguarde ser chamado e siga a orientação do cambono na fila. Pergunte quando não entender: perguntar é bem-visto, adivinhar não.

Se for a sua primeira vez, veja também o guia primeira vez num terreiro.

Gira é gratuita

A doutrina da caridade sustenta a Umbanda, e o atendimento em gira é gratuito. Cobrança por consulta durante a gira é apontada como desvio pelas casas sérias, e é um dos sinais mais confiáveis para quem está avaliando onde frequentar.

Isso não significa que a casa não tenha custo. Vela, erva, carvão, aluguel, água e luz custam dinheiro, e é normal que a casa mantenha uma mensalidade para a corrente, uma caixinha voluntária ou um bazar. A diferença está no lugar da cobrança: contribuir para a manutenção da casa é uma coisa, pagar para ser atendido por uma entidade é outra.

Desconfie de promessa de resultado garantido, de urgência fabricada e de valores altos apresentados como obrigação espiritual. Fundamento não se compra.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Qualquer pessoa pode assistir a uma gira?
Na maioria das casas, sim: as giras de atendimento costumam ser abertas ao público. Você não precisa ser umbandista, não precisa se converter e não precisa saber os pontos. O ideal é chegar no horário, com roupa discreta, celular desligado, e seguir as orientações da casa. Existem giras fechadas, só para a corrente, então confirme antes qual é o dia e o horário da gira aberta.
Toda gira é aberta ao público?
Não. Existe gira aberta, que recebe a assistência, e gira fechada, só para a corrente da casa, usada para desenvolvimento de médiuns, estudo e trabalhos internos. Procure o contato da casa e pergunte antes de aparecer. Chegar em gira fechada sem avisar não é falta grave, é apenas desinformação evitável, e ninguém vai brigar com você por isso.
Preciso incorporar para participar?
Não. A maioria das pessoas que frequenta a gira é assistência: vai para tomar passe, consultar um guia ou simplesmente acompanhar. O desenvolvimento mediúnico é opcional, acontece com o tempo e sempre sob orientação do dirigente. Muita gente frequenta a assistência por anos sem entrar na corrente, e isso é absolutamente normal.
Posso ir de preto na gira?
Depende da gira. Em gira de direita, de Caboclos, Pretos-Velhos e Orixás, o costume é roupa clara, de preferência branca, e o preto é evitado. Em gira de esquerda, de Exus e Pombagiras, muitas casas admitem ou até pedem preto e vermelho. Como isso varia bastante, o melhor é perguntar à casa antes de ir. Na dúvida absoluta, branco é sempre aceito.
De onde vem a palavra gira?
A etimologia mais citada nas fontes é o quimbundo njila, que significa caminho, língua do tronco banto falada em Angola. A associação com o verbo girar, pela roda que a corrente faz no barracão, é leitura popular posterior e não a origem atestada, mas é uma imagem fiel do que se vê. Não confunda com a origem da palavra Umbanda, que envolve outros termos do mesmo tronco linguístico.
O que o cambono faz na gira?
O cambono é quem serve a entidade incorporada. Acende a vela e o charuto, providencia água, organiza a fila da assistência, ajuda a entidade a se comunicar quando a fala está difícil de entender e cuida para que o atendimento flua. É função de confiança e de humildade, e em muitas casas é por ali que começa a formação de quem entra na corrente.
Preciso pagar para ser atendido na gira?
Não. O atendimento em gira é gratuito, pela doutrina da caridade, e cobrança por consulta é apontada como desvio pelas casas sérias. A casa pode ter mensalidade para a corrente, caixinha voluntária ou bazar para custear vela, erva, carvão e contas, e isso é legítimo. O que não é legítimo é condicionar o atendimento ao pagamento ou vender trabalho caro com promessa de resultado garantido.
O que levar para uma gira?
Geralmente nada além de respeito e fé. Roupa clara e limpa é bem-vinda. Evite roupa muito curta, bebida antes e barulho. Algumas casas pedem que se leve uma garrafa de água ou uma vela, e outras pedem nada. Cada casa tem seus costumes, e quando houver dúvida basta perguntar com educação: é pergunta comum e o pessoal está acostumado a responder.
Menstruada pode entrar na gira?
Varia muito de casa para casa, e essa é uma das regras que mais mudam entre terreiros. Há casas que pedem resguardo, há casas que não fazem restrição nenhuma e há casas que restringem só a corrente, não a assistência. Não existe resposta única e não vale generalizar a partir do que se lê na internet. Pergunte diretamente na casa que você pretende frequentar, sem constrangimento.
Axé Umbanda
Escrito porWeverton Pansan e Maria Amélia Pansan

Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.

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Conteúdo informativo e de fé, escrito com respeito à tradição e baseado nas fontes citadas. A Umbanda varia de casa para casa; em caso de dúvida, procure sempre o dirigente do seu terreiro. Este texto não substitui orientação médica, jurídica ou psicológica.
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