
Gira é a reunião de trabalho espiritual da Umbanda, em que os médiuns incorporam os guias para atender, aconselhar e dar passes, ao som dos pontos cantados e dos atabaques (curimba). É, em geral, aberta ao público e voltada à caridade.
A gira é a reunião ritual em que a corrente do terreiro trabalha: os médiuns incorporam os guias, que vêm dar consulta, passe e orientação, embalados pelos pontos cantados e pela curimba, o grupo dos atabaques. Quem nunca foi imagina algo hermético e assustador. Quem vai descobre uma reunião organizada, com sequência clara, gente cuidando de gente e uma etiqueta simples de aprender.
O que é gira
Gira é a sessão de trabalho da Umbanda. Numa gira, a corrente de médiuns da casa se reúne, o terreiro é aberto com preces e defumação, a curimba puxa os pontos e as entidades da linha daquele dia se manifestam nos médiuns para atender a assistência.
O que define uma gira não é a festa nem o número de pessoas presentes: é o trabalho espiritual com finalidade. Numa gira de atendimento, a finalidade é a caridade, expressa em passe, consulta e encaminhamento. Numa gira de desenvolvimento, é a formação dos médiuns da casa. Numa gira festiva, é a louvação de uma linha ou de um Orixá em data marcada.
Nas casas se ouve com naturalidade tanto gira quanto jira, e as duas grafias circulam sem que uma seja mais correta que a outra.
De onde vem a palavra gira
A etimologia mais citada nas fontes vem do quimbundo njila, que significa caminho. O quimbundo é língua do tronco banto, falada em Angola, e é uma das principais fontes do vocabulário afro-brasileiro. A gira, nesse sentido, é o caminho aberto por onde a espiritualidade transita.
Existe também a leitura popular que aproxima gira do verbo girar, pela roda que a corrente faz no barracão. Não é a etimologia atestada, mas é uma imagem verdadeira do que se vê, e ninguém erra por usá-la.
Vale um cuidado que evita confusão frequente. As palavras nganga e mbanda, também do tronco quimbundo, aparecem na origem discutida da palavra Umbanda, ligada às ideias de arte de curar e de morada dos espíritos. Elas não são a origem da palavra gira: são coisas diferentes, do mesmo tronco linguístico.
Tipos de gira
As casas classificam as giras de três maneiras que se cruzam.
Pela finalidade. Gira de trabalho ou de atendimento, voltada à caridade e ao público. Gira festiva, que louva uma linha ou um Orixá em data do calendário, com oferendas e comida ritual. Gira de desenvolvimento, dedicada à formação dos médiuns da corrente.
Pelo público. Gira aberta, que recebe a assistência e qualquer pessoa que chegue. Gira fechada, só para a corrente da casa, usada para estudo, desenvolvimento e trabalhos internos.
Pela linha. Gira de Caboclos, na vibração de Oxóssi. Gira de Pretos-Velhos, na linha das Almas. Giras de Ogum, de Xangô, de Baianos, de Boiadeiros, de Marinheiros, de Erês, de Ciganos. E a gira de esquerda, dos Exus e das Pombagiras.
Nomes como gira de cura e gira de Exu aparecem muito, mas não são categorias universais: são nomes locais de giras de trabalho com finalidade específica. Cada casa organiza o próprio calendário e usa o vocabulário que herdou.
Como funciona uma gira, do começo ao fim
A sequência varia de casa para casa, mas o esqueleto é bastante estável.
Abertura. Preces iniciais e saudação a Olorum, a Oxalá e aos Orixás. Em casas de raiz mais próxima do espiritismo entram também o Pai Nosso e a Prece de Cáritas.
Defumação. O espaço, a corrente e a assistência são defumados. A defumação de abertura limpa o ambiente e prepara o campo.
Firmeza. Velas e pontos riscados são firmados no congá e nos pontos vibratórios da casa.
Curimba e pontos cantados. Os atabaques entram e a curimba puxa os pontos da linha do dia. O canto é o que chama e o que sustenta o trabalho.
Incorporação. As entidades chegam nos médiuns da corrente. O cambono serve a entidade: acende vela e charuto, organiza a fila e traduz a fala quando necessário.
Atendimento. A assistência é chamada. Há passe, conversa, orientação e encaminhamento, que pode incluir um banho, uma reza ou uma providência prática.
Encerramento. Cantam-se os pontos de subida, as entidades se despedem, a corrente desincorpora e a casa é fechada com prece de agradecimento.
O que acontece no atendimento
Durante o atendimento, o consulente conversa com o guia, que pode dar conselhos, fazer um passe, indicar um banho ou uma oferenda e confortar quem chega aflito. É um momento de fé, escuta e acolhimento, não de adivinhação nem de espetáculo.
O que se ouve numa consulta séria costuma ser mais duro e mais concreto do que as pessoas esperam: procurar médico, conversar com quem se afastou, parar de alimentar uma situação, arrumar a casa. Guia que só elogia e promete milagre é sinal de casa que precisa ser olhada com cuidado.
A roda e o sentido anti horário
Em muitas casas a corrente forma uma roda no barracão e gira no sentido anti horário, contra o movimento dos ponteiros do relógio. Não é enfeite nem coreografia solta.
A leitura mais repetida nas fontes é a de retorno aos princípios: enquanto o tempo comum avança, a roda recua, e esse recuo é entendido como aproximação da origem e reverência à ancestralidade que fundou a tradição. Some-se a isso a leitura da sinergia: girar junto com os outros forma um campo em que as energias se somam e se sustentam, e ninguém trabalha sozinho.
O paralelo mais próximo está no xirê do Candomblé, a sequência ordenada de cantos e danças em que a comunidade saúda cada Orixá da casa, também formada no sentido anti horário e também lida como caminho de volta aos ancestrais. Umbanda e Candomblé são religiões diferentes, com histórias e liturgias próprias, mas nesse ponto a gramática do corpo se parece, e não por coincidência: as duas bebem da mesma matriz.
Vale uma ressalva honesta: não toda casa gira em roda. Há terreiros em que a corrente trabalha em fileiras voltadas para o congá, há casas em que a roda se forma apenas na abertura ou em momentos específicos do trabalho, e há casas em que o sentido muda conforme a linha ou o ponto que está sendo cantado. Formato e sentido variam de terreiro para terreiro, e nenhuma das formas é mais correta que a outra.
Quem é quem durante a gira
A gira funciona porque cada pessoa presente tem uma função. Os nomes mudam de casa para casa, mas o desenho geral se repete.
- O dirigente, o pai de santo ou a mãe de santo da casa. Abre e fecha o trabalho, conduz o rito, dita as regras e responde espiritualmente pelo que acontece antes, durante e depois da gira, tanto pela corrente quanto pela assistência. É por isso que a última palavra sobre o que se pode e o que não se pode é sempre dele.
- O pai pequeno ou a mãe pequena, descrito nas fontes como a segunda voz do terreiro. Zela pela ordem do rito, orienta os médiuns mais novos, cuida do que a gira precisa para andar e substitui o dirigente quando ele não pode estar presente. Veja o que faz a mãe pequena.
- O cambono, quem serve a entidade incorporada: acende vela e charuto, providencia água, organiza a fila e ajuda na comunicação quando a fala está difícil de entender. Entenda melhor a função do cambono.
- A curimba, o grupo dos atabaques e das vozes que puxam os pontos cantados. É o canto que chama, sustenta e encerra cada etapa do trabalho. Veja o que é a curimba.
- A assistência, quem chega de fora para tomar passe, consultar um guia ou simplesmente acompanhar. Não incorpora, não precisa saber os pontos e não tem obrigação nenhuma com a casa além do respeito ao trabalho.
Algumas casas têm cargos adicionais, com nomes herdados da própria tradição local, e outras trabalham com uma estrutura bem mais enxuta, em que a mesma pessoa acumula funções. A hierarquia e a nomenclatura variam de terreiro para terreiro, e conhecer a da casa que você frequenta é mais útil do que decorar um organograma geral.
Diferença entre gira, sessão e festa
Na prática os três termos se sobrepõem, e discutir nomenclatura raramente ajuda alguém.
Gira é o termo mais corrente na Umbanda em geral, e é o que este artigo descreve.
Sessão é o termo preferido por casas de linha mais próxima do espiritismo kardecista e por muitas casas de Umbanda Branca, para o mesmo evento. Onde se diz sessão, costuma haver mais prece falada e menos atabaque, mas isso não é regra.
Festa designa a gira festiva, marcada no calendário, com louvação de uma linha ou de um Orixá, oferendas, comida ritual e mais gente do que o normal. Festa é gira, com roupa de festa.
Se você ouvir os três nomes na mesma casa referindo-se a coisas parecidas, não é contradição. É o vocabulário vivo de uma religião de tradição oral.
Como se comportar numa gira
Nada do que segue é difícil, e nenhuma casa espera que o visitante saiba tudo. O que se espera é respeito.
Roupa. Clara, de preferência branca, simples, sem decote, sem transparência e sem roupa muito curta. Calça e camisa resolvem. Em gira de esquerda muitas casas admitem ou pedem preto e vermelho, então vale perguntar antes de escolher.
Chegada. Chegue no horário, celular desligado, e não fotografe nem filme sem autorização expressa.
Postura. Não cruze braços nem pernas durante o trabalho, não toque nos atabaques nem nos objetos do congá e evite conversa paralela.
Preparo. O costume mais repetido é evitar carne vermelha e bebida alcoólica no dia.
Calçado. Muitas casas pedem para retirar os sapatos ao entrar no barracão, pelo fundamento do contato com o chão. Leve isso em conta na escolha da meia.
Atendimento. Aguarde ser chamado e siga a orientação do cambono na fila. Pergunte quando não entender: perguntar é bem-visto, adivinhar não.
Se for a sua primeira vez, veja também o guia primeira vez num terreiro.
Gira é gratuita
A doutrina da caridade sustenta a Umbanda, e o atendimento em gira é gratuito. Cobrança por consulta durante a gira é apontada como desvio pelas casas sérias, e é um dos sinais mais confiáveis para quem está avaliando onde frequentar.
Isso não significa que a casa não tenha custo. Vela, erva, carvão, aluguel, água e luz custam dinheiro, e é normal que a casa mantenha uma mensalidade para a corrente, uma caixinha voluntária ou um bazar. A diferença está no lugar da cobrança: contribuir para a manutenção da casa é uma coisa, pagar para ser atendido por uma entidade é outra.
Desconfie de promessa de resultado garantido, de urgência fabricada e de valores altos apresentados como obrigação espiritual. Fundamento não se compra.
Onde a cobrança se disfarça
Gira de casa séria é caridade, e não se cobra por consulta na gira. O que costuma escapar de quem está chegando é que a cobrança quase nunca aparece de forma direta. Raramente alguém põe uma tabela de preços na porta do barracão.
O padrão mais criticado pelas federações e pelas casas de fundamento é este: a entidade atende, mas não orienta ali. Em vez de explicar o que a pessoa está vivendo e o que ela pode fazer a respeito, encaminha para uma consulta particular com o dirigente, fora do horário da gira. Quando a pessoa procura marcar, descobre que essa consulta é paga. A gira continua formalmente gratuita, e a orientação, que era justamente o ponto, foi transferida para o atendimento cobrado.
Outros sinais de alerta costumam aparecer junto com esse, e vale reconhecer todos:
- Urgência criada. O agora ou nunca, o tem que ser hoje, o amanhã já é tarde. A pressa serve para você decidir sem pensar e sem consultar ninguém.
- Valor alto sem explicação. Quantia elevada pedida antes de qualquer conversa, ou em parcelas que vão aumentando, sem que se explique para que serve cada coisa.
- Promessa de resultado garantido. Nenhum trabalho espiritual sério promete cem por cento. Quem garante desfecho está vendendo, não atendendo.
- Diagnóstico assustador seguido de serviço caro. A pessoa ouve que está com uma coisa gravíssima, que a família toda está atingida, e logo em seguida vem o orçamento do que resolve. O medo é a ferramenta de venda.
- Recusa em explicar. O não posso revelar, é segredo das entidades usado para não dizer o que está sendo feito com o seu dinheiro. Segredo de fundamento existe, mas casa séria explica o que você tem direito de saber.
Isso não quer dizer que casa que pede contribuição seja casa ruim. Mensalidade da corrente, caixinha voluntária, rateio de material e bazar são coisas normais e transparentes, e sustentam vela, erva, carvão e as contas do mês. A diferença está em uma pergunta simples: o atendimento está condicionado ao pagamento?
Uma última coisa que casa séria diz sem rodeios: gira não substitui tratamento de saúde. Orientação espiritual caminha ao lado do médico, do psicólogo e do remédio, nunca no lugar deles. Guia que manda interromper tratamento, ou que oferece cura em troca de dinheiro, é sinal claro de que aquele não é o lugar.
Fontes e referências
- Umbanda, Wikipédia
- Gira, Wikipédia
- Giras de Umbanda, as giras de Umbanda
- Colégio Espiritualista Caboclo Pery, primeira vez no terreiro
- Perguntas frequentes, Nós na Umbanda
- A roda de Candomblé, uma aproximação com a ancestralidade, Farol da Bahia
- A dança na Umbanda, Wikidança
- Hierarquia, Terreiro de Umbanda Pai Maneco
- Se há cobrança não é Umbanda, De Pés Descalços
Perguntas frequentes
Qualquer pessoa pode assistir a uma gira?
Toda gira é aberta ao público?
Preciso incorporar para participar?
Posso ir de preto na gira?
De onde vem a palavra gira?
O que o cambono faz na gira?
Preciso pagar para ser atendido na gira?
O que levar para uma gira?
Menstruada pode entrar na gira?
Por que a gira gira em roda?
Quem manda na gira?
Pode cobrar por consulta na gira?
O que é a assistência na gira?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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