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Dia de Cosme e Damião na Umbanda: 27 de setembro, os Erês e a mesa de doces

Na Umbanda, o dia de Cosme e Damião é 27 de setembro, a grande data da linha das Crianças, a Ibejada. Entenda por que a data dos terreiros não é a mesma do calendário católico, quem são os Erês, o que muda entre Erê, Ibeji e Vunji, como se monta a mesa de doces e o que é o caruru dos sete meninos.

Por Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan·18 de setembro de 2026·12 min de leitura
Dia de Cosme e Damião na Umbanda: 27 de setembro, os Erês e a mesa de doces
Resposta rápida

Na Umbanda, o dia de Cosme e Damião é 27 de setembro, a grande data da linha das Crianças, a Ibejada. Entenda por que a data dos terreiros não é a mesma do calendário católico, quem são os Erês, o que muda entre Erê, Ibeji e Vunji, como se monta a mesa de doces e o que é o caruru dos sete meninos.

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O dia de Cosme e Damião na Umbanda é 27 de setembro, e é a data mais doce do ano nos terreiros: o dia da linha das Crianças, a Ibejada, celebrada com mesa farta de doces, velas rosa e azul, guaraná, brinquedos e uma alegria que, ao contrário do que parece, limpa e renova. É também uma das datas mais mal explicadas na internet, porque três tradições diferentes se encontram nela sem se fundir, e porque o calendário católico marca 26 enquanto os terreiros marcam 27. Este texto explica o fundamento de cada parte, mostra como se monta a oferenda e separa o que é tradição de raiz do que virou receita de site.

Resposta rápida

Na Umbanda, o dia de Cosme e Damião é 27 de setembro. É a grande data da linha das Crianças, também chamada de Erês ou Ibejada, e em muitas casas de raiz banto é conhecida como Festa dos Meninos de Angola. A saudação é Salve as Crianças!, e também se ouve Salve a Ibejada! e Oni Beijada!. As cores são o rosa e o azul, com a vela branca completando a mesa. A oferenda é doce e sem álcool: balas, pirulitos, cocada, brigadeiro, bolo, guaraná, pipoca, frutas e brinquedos. Em casas de raiz baiana e de Candomblé entra o caruru de Cosme e Damião, servido primeiro a sete crianças. A Igreja Católica celebra os santos em 26 de setembro desde a reforma do calendário litúrgico de 1969, mas a devoção afro brasileira manteve o 27, e é esse o dia que vale nos terreiros. Quem confirma o calendário e o fundamento da oferenda é sempre o dirigente da sua casa.

Que dia é o dia de Cosme e Damião: 27 ou 26 de setembro

Quem procura a data encontra duas, e as duas estão certas, cada uma no seu calendário. Essa é a confusão que mais aparece em setembro, e ela tem explicação simples.

Por muitos séculos, a Igreja Católica celebrou Cosme e Damião em 27 de setembro. Em 1969, na reforma do calendário litúrgico romano, a memória oficial dos dois santos foi transferida para 26 de setembro. A devoção afro brasileira, que já tinha o 27 firmado havia gerações, não acompanhou a mudança: os terreiros mantiveram a data antiga, e é por isso que hoje o 26 aparece como data católica e o 27 segue firme como a data popular e dos terreiros.

Na prática, para quem celebra na Umbanda a resposta é direta: o dia é 27 de setembro. É nele que as casas montam a mesa, abrem a gira das Crianças e distribuem doces. Vale uma observação de bom senso: muitos terreiros deslocam a festa pública para o fim de semana mais próximo, por causa do trabalho das pessoas e do espaço, e isso não descaracteriza nada. A data de fundamento continua sendo o 27.

Nos terreiros também se ouve falar do dia dos Erês no sentido semanal. A maioria das casas firma a linha das Crianças no domingo, que é o dia da semana em que as giras de criança costumam acontecer. Uma coisa não substitui a outra: o domingo é o dia da semana, o 27 de setembro é a grande data do ano.

Quem foram Cosme e Damião

Antes do sincretismo, existiram duas pessoas, e conhecer a história delas ajuda a entender por que o encontro com a Ibejada fez tanto sentido.

Cosme e Damião eram irmãos gêmeos e médicos, nascidos na Arábia segundo a tradição hagiográfica, que viveram no início da era cristã, no tempo das perseguições aos cristãos. O que os tornou lembrados foi um detalhe de conduta: atendiam os doentes sem cobrar nada. Por isso ficaram conhecidos como anárgiros, palavra grega que quer dizer sem prata, ou seja, sem dinheiro. Foram martirizados na perseguição do imperador Diocleciano, por volta do ano 300, e ficaram na memória cristã como padroeiros dos médicos, dos farmacêuticos e dos cirurgiões.

Repare no que interessa aqui: eram dois, eram gêmeos e curavam de graça. Esses três traços são exatamente os que aproximam a dupla dos gêmeos divinos das tradições africanas. E vale registrar uma honestidade que quase nenhum texto faz: no catolicismo original não existe ligação entre Cosme e Damião e a distribuição de doces. Esse costume, tão brasileiro que virou paisagem de setembro nas ruas, nasceu do encontro com o culto infantil afro brasileiro, e não da hagiografia dos santos.

Erê, Ibeji, Vunji e Cosme e Damião: quatro coisas diferentes

Esta é a pergunta que mais confunde quem chega à data, e misturar tudo como se fosse a mesma coisa apaga a história de cada tradição. São planos religiosos distintos que o sincretismo aproximou sem fundir.

  • Ibeji é Orixá, de matriz iorubá, cultuado no Candomblé de nação Ketu. É o Orixá dos gêmeos, ligado à infância, à fraternidade e à alegria. O nome vem do iorubá e carrega o sentido de nascimento duplo, nascidos dois. Nas itãs, os Ibejis aparecem como filhos de Xangô com Iansã, ou com Oxum, ou ainda de Iemanjá, conforme a casa, e a narrativa mais repetida no Brasil conta que foram acolhidos e criados por Oxum, senhora das águas doces. Daí vem a proximidade tão grande entre a Ibejada e Oxum.
  • Vunji, também grafado Wunji ou Vunge, é o correspondente nas nações de raiz banto, Angola e Congo, do que a nação Ketu chama de Ibeji. É o inquice da infância, do brincar e da alegria. Nessas casas também se ouve Dois-Dois para nomear os gêmeos.
  • Erê é entidade, e é o que trabalha na Umbanda: a linha das Crianças, a Ibejada. São espíritos de características infantis que chegam à gira para brincar, consolar e curar. Junto com os Caboclos e os Pretos Velhos, formam o tripé de espíritos trabalhadores da Umbanda. No Candomblé, a palavra erê nomeia outra coisa: o estado infantil que se manifesta no filho de santo e transmite mensagens do Orixá.
  • Cosme e Damião são santos católicos, os gêmeos médicos da seção anterior. Entraram nessa história pelo sincretismo, e não pela tradição africana.

Há uma nuance de fundamento que muitos sacerdotes fazem questão de marcar e que quase nunca aparece nos textos de internet: Ibeji não é criança. É o Orixá que simboliza a cura pela magia, e essa magia é o que se manifesta no trabalho das Crianças. Criança de Umbanda é espírito trabalhador; Ibeji é Orixá. Confundir os dois é achatar dois planos diferentes.

E vale lembrar por que o sincretismo aconteceu. Não foi coincidência nem confusão: foi estratégia de sobrevivência. Diante da perseguição aos cultos africanos, pessoas escravizadas associaram seus Orixás e inquices a santos católicos para continuar cultuando sob outro nome. Aproximar os gêmeos divinos dos gêmeos Cosme e Damião foi resistência, e não uma declaração de que eles seriam idênticos.

Meninos de Angola, Ibejada, Dois-Dois: os nomes da festa

A mesma festa aparece com nomes diferentes conforme a raiz da casa, e conhecer os nomes evita a impressão de que se trata de celebrações distintas.

  • Festa das Crianças e Festa da Ibejada são os nomes mais gerais na Umbanda.
  • Festa dos Meninos de Angola é como muitas casas de raiz banto chamam a celebração do dia 27.
  • Dois-Dois e Cosmes aparecem na fala do dia a dia de várias casas para nomear as Crianças.
  • Festa de Ibeji é o nome mais ouvido nas casas de Candomblé, e Caruru de Cosme e Damião ou Caruru de Sete Meninos nomeia a celebração de mesa, sobretudo na Bahia.

Sobre quem são as Crianças, existe mais de uma leitura dentro da própria Umbanda, e as duas convivem nas casas. Uma delas entende os Erês como espíritos de crianças que desencarnaram precocemente, em muitas casas descritos como filhos e filhas de pessoas escravizadas e de povos indígenas, que depois da passagem escolheram trabalhar no plano espiritual. A outra os entende como espíritos evoluídos que se apresentam em forma de criança, muito próximos dos Orixás, sem terem necessariamente vivido aquela infância. Nenhuma das duas é heresia, e casas de fundamento sustentam ambas. O que as duas afirmam junto é o essencial: o Erê não é uma criancinha boba. A forma infantil é escolha de trabalho, porque na Umbanda a doçura também é força.

A saudação da linha é Salve as Crianças!. Conforme o costume da casa, se ouve também Salve a Ibejada!, Oni Beijada! e Salve Cosme e Damião!. A saudação é a mesma para meninos e meninas, porque o que se saúda é a linha inteira.

Como é a gira das Crianças no dia 27

Quem nunca foi a uma gira de Criança costuma se surpreender, porque a cena parece festa infantil e é trabalho espiritual sério acontecendo ao mesmo tempo.

A gira abre com os pontos cantados das Crianças, melodias alegres e de vibração alta, e com o pedido de licença aos Orixás e aos guias da casa. Quando as Crianças chegam, os médiuns se transformam: correm, riem, pedem colo, pedem doce, brincam, falam com voz aguda e usam uma franqueza desarmante. Muitas casas deixam brinquedos, bolas e balas ao alcance, e é comum que a entidade queira brincar com quem está na assistência, em especial com as crianças presentes.

No meio da brincadeira acontece o trabalho. A linha das Crianças é uma das mais fortes em descarrego, limpeza e quebra de demanda pesada, e o motivo tem lógica de fundamento: a leveza desarma o que está travado. Onde um guia mais grave precisa de firmeza e de tempo, a Criança entra rindo e desfaz o nó. As Crianças também atuam muito em questões de saúde, de família, de gravidez e de proteção dos pequenos.

A parte mais bonita da data, e a que define o espírito dela, é a distribuição dos doces às crianças de verdade. Nos terreiros, os saquinhos vão para as crianças da casa, da vizinhança e da comunidade, e muitas casas transformam o dia em ação social aberta, com bolo, brinquedos e recreação. Distribuir a alegria é a oferenda que mais agrada à Ibejada, e esse é o fundamento por trás do costume de rua que todo brasileiro conhece.

Se é a sua primeira vez em um terreiro, vale ler antes o guia da primeira vez no terreiro. Na gira de Criança, além do de sempre, cabe um cuidado extra: brincar de volta quando a entidade chama é natural e é bem visto, mas tratar o Erê como piada ou como fofura de vídeo não é. Por trás da brincadeira existe axé.

Como montar a mesa de doces de Cosme e Damião

A mesa das Crianças é alegre, colorida e simples, e não pede luxo nenhum: pede carinho e capricho. O que vem abaixo é referência devocional, do tipo que se monta em casa, e não substitui a orientação do dirigente da sua casa, que é quem define o fundamento da oferenda feita em nome do terreiro.

O que se reúne.

  • Doces variados: balas, pirulitos, chocolates, cocada, bala de coco, brigadeiro.
  • Bolo, muitas vezes cortado em pedaços, e em várias casas em sete pedaços.
  • Guaraná, a bebida mais associada às Crianças, servido em copinhos individuais.
  • Pipoca e frutas miúdas e doces, como banana, maçã e uva.
  • Brinquedos coloridos, novos ou em bom estado.
  • Velas rosa e azul, as cores da linha, e a branca para completar.
  • Flores miúdas e fitas rosa e azul sobre uma toalha limpa e colorida.

Como se monta.

  1. Escolha o lugar. Forre uma mesa baixa, um banquinho ou o chão com toalha limpa. A oferenda das Crianças é entregue no congá, no terreiro ou no local que a casa indicar, e não em encruzilhada.
  2. Arrume os doces e o bolo no centro, com capricho. A apresentação faz parte da homenagem, porque se está montando uma festa.
  3. Distribua o guaraná, a pipoca, as frutas e os brinquedos em volta.
  4. Acenda as velas. Um arranjo bastante citado reúne três rosa, três azuis e uma branca, mas a quantidade varia de casa para casa e não é dogma.
  5. Salve as Crianças e faça o pedido ou a oração de gratidão com o coração leve. Há casas que saúdam sete vezes. Se quiser um texto de oração, temos a oração a Cosme e Damião.
  6. Distribua os doces às crianças depois. Este passo não é enfeite: é o coração da data.

Dois cuidados práticos que valem a pena. Nada de bebida alcoólica: a mesa das Crianças é doce, e essa é uma das poucas regras que atravessam praticamente todas as casas. E nada de deixar plástico, vidro ou isopor na natureza se a sua casa entregar a oferenda em área externa. Respeito à tradição e respeito ao lugar caminham juntos.

O caruru dos sete meninos

Em muitas famílias, sobretudo na Bahia e nas casas de raiz de Candomblé, a celebração do dia ganha o caruru de Cosme e Damião, prato votivo de quiabo, azeite de dendê e camarão seco, servido com feijão fradinho, pipoca, farofa, acaçá e outras comidas de santo.

Vale registrar a origem com precisão, porque isso costuma ser atropelado: o caruru é tradição de raiz baiana e do Candomblé, mantida por famílias e por comunidades religiosas e culturais de toda a Bahia, e não uma prática exclusiva da Umbanda. Em 2024, ele foi reconhecido como patrimônio imaterial do estado da Bahia pelo Conselho Estadual de Cultura, com publicação no Diário Oficial em 27 de setembro. Casas de Umbanda com raiz de nação fazem caruru; casas de Umbanda sem essa raiz podem simplesmente não fazer, e isso não significa ter menos fundamento.

O ritual tem uma regra bonita e rigorosa. A primeira porção é servida diante da imagem de Cosme e Damião, e depois o caruru é servido primeiro a sete crianças, tradicionalmente sete meninos de até sete anos, e só então os adultos comem. É daí que vem o nome Caruru de Sete Meninos. A criança, aqui, vem sempre em primeiro lugar, e essa inversão de hierarquia é o próprio recado da data.

Os sete meninos representam os sete irmãos da tradição brasileira dos gêmeos. Além de Cosme e Damião, a lista mais repetida inclui Doum, também chamado Idowú, entendido como o irmão que nasce depois dos gêmeos e protege as crianças pequenas, e ainda Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi. Essa relação varia conforme a região e a casa, e não existe uma lista oficial única. Curiosidade que fecha o círculo: dois desses nomes, Crispim e Damiana, aparecem também entre os nomes de Erês mais difundidos nos terreiros brasileiros, ao lado de Cosminho.

Velas, cores, ervas e pontos das Crianças

Os elementos da linha são simples e bem estabelecidos, com variações de casa que valem sempre confirmar antes.

Cores e velas. As cores da Ibejada são o rosa e o azul claro, com o branco completando. Na prática de muitas casas, a vela do Erê menino é a azul clara, a da Erê menina é a rosa, e a bicolor azul e rosa representa a linha inteira, meninos e meninas. A branca serve para toda a linha e para a oração comum.

Ervas. As ervas mais citadas para a linha das Crianças são as doces e suaves: camomila, alecrim e poejo aparecem com muita frequência nas festividades em homenagem às Crianças, junto de flores e frutas. Para banho de criança, temos o banho de ervas para crianças, e para o ambiente existe a defumação de Cosme e Damião e a defumação do quarto das crianças.

Pontos cantados. Os pontos das Crianças são melodias alegres, de letra curta e fácil, feitas para todo mundo cantar junto. Dois dos mais conhecidos no Brasil estão aqui: Cosme e Damião, lá no céu tem três estrelas e Cosme e Damião, papai me mande um balão. Cada casa cultiva os seus, e o repertório da sua casa é o que vale na gira dela.

Se a sua devoção for na direção da proteção dos pequenos, há ainda a simpatia de Cosme e Damião para proteger as crianças, no mesmo registro simples e doce da linha.

Cuidados: o que não fazer nessa data

A oferenda das Crianças é uma das mais acessíveis da Umbanda, e justamente por isso é uma das mais deformadas na internet. Alguns cuidados preservam o respeito à tradição.

  • Não é fórmula mágica. A mesa de Cosme e Damião é devoção e celebração, e não um procedimento que resolve problema em prazo marcado. Quem promete resultado garantido em troca de doce não está falando de fundamento.
  • Não se paga por fundamento. Trabalho espiritual em casa de fundamento não é cobrado, e a data das Crianças, que nasceu da caridade de dois médicos que atendiam de graça, é o pior lugar possível para se aceitar cobrança.
  • Caridade não é opcional na festa. Distribuir os doces a crianças de verdade, na vizinhança ou em instituições, é o coração do dia, e não um extra bonito.
  • Sem álcool e sem fumo na mesa das Crianças. Esse é ponto de consenso entre praticamente todas as casas.
  • Erê não é Exu Mirim. A confusão é constante porque os dois chegam com jeito de criança. O Erê é criança de luz da direita, ligada a Cosme e Damião; o Exu Mirim trabalha na esquerda, com outro fundamento e outra função.
  • Cada casa tem o seu jeito. Quantidade de velas, comidas, orações e até a data da festa pública variam entre terreiros e nações. Se você é de uma casa, a orientação do seu dirigente prevalece sobre qualquer texto da internet, inclusive sobre este.
  • Atenção com a criança presente. Um cuidado de bom senso que se tornou comum e é justo: em festa com muita criança, vale conferir alergia alimentar antes de sair distribuindo doce, e pedir licença aos responsáveis antes de fotografar.

E fica o resumo que atravessa tudo: por trás da brincadeira existe trabalho espiritual sério de limpeza e de cura. Tratar a Ibejada como anedota fofa é não enxergar o axé que ela carrega.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Que dia é o dia de Cosme e Damião na Umbanda?
É 27 de setembro. Essa é a grande data da linha das Crianças, a Ibejada, nos terreiros de Umbanda e de Candomblé. Muitas casas deslocam a festa pública para o fim de semana mais próximo por causa do trabalho das pessoas e do espaço, e isso não muda a data de fundamento, que continua sendo o 27.
Por que o dia de Cosme e Damião é 27 e não 26 de setembro?
Porque as duas datas pertencem a calendários diferentes. A Igreja Católica celebrou os santos em 27 de setembro por séculos, e em 1969, na reforma do calendário litúrgico romano, transferiu a memória oficial para 26 de setembro. A devoção afro brasileira, que já tinha o 27 firmado, manteve a data antiga. Por isso o 26 é a data católica atual e o 27 é a data dos terreiros.
Quem são Cosme e Damião na Umbanda?
Na Umbanda, Cosme e Damião são a face sincretizada da linha das Crianças, os Erês, também chamada de Ibejada. Os santos católicos eram irmãos gêmeos e médicos que atendiam sem cobrar nada, martirizados na perseguição de Diocleciano. O sincretismo os aproximou dos gêmeos divinos africanos porque os três traços coincidiam: eram dois, eram gêmeos e curavam de graça.
O que é a Ibejada?
Ibejada é o nome coletivo da linha das Crianças na Umbanda, os Erês. O termo vem da ligação com Ibeji, o Orixá dos gêmeos de matriz iorubá. É uma falange coletiva: não há biografia individual documentada de cada criança, e o nome pelo qual o Erê se apresenta na sua casa é a forma como ele chega, sem criar uma linha nova.
O que significa Salve a Ibejada?
É a saudação da linha das Crianças, usada ao lado de Salve as Crianças!, de Oni Beijada! e de Salve Cosme e Damião!, conforme o costume da casa. Saúda a linha inteira, meninos e meninas, e não uma entidade individual. Nas giras de criança é dita com alegria, e é comum que a assistência responda junto.
Qual a diferença entre Erê, Ibeji, Vunji e Cosme e Damião?
São quatro coisas de planos diferentes. Ibeji é Orixá dos gêmeos, de matriz iorubá, cultuado no Candomblé de nação Ketu. Vunji, ou Wunji, é o correspondente nas nações de raiz banto, Angola e Congo, onde também se diz Dois-Dois. Erê é entidade, a linha das Crianças que trabalha na Umbanda. Cosme e Damião são santos católicos. O sincretismo os aproximou pela força gêmea e infantil, mas eles não são a mesma coisa.
O que se oferece para Cosme e Damião?
Doces variados, como balas, pirulitos, cocada, bala de coco e brigadeiro, bolo, guaraná em copinhos, pipoca, frutas miúdas e brinquedos coloridos, com velas rosa e azul, flores e fitas sobre toalha limpa. Em casas de raiz baiana entra o caruru de quiabo e dendê. Não se usa bebida alcoólica: a mesa das Crianças é doce. Confirme o fundamento com o dirigente da sua casa.
Quantas velas e de que cor se acende para Cosme e Damião?
As cores da linha são o rosa e o azul claro, com o branco completando. Um arranjo bastante citado reúne três velas rosa, três azuis e uma branca, mas a quantidade varia de casa para casa e não é dogma. Em muitas casas, o Erê menino usa a vela azul clara, a Erê menina usa a rosa, e a bicolor azul e rosa representa a linha inteira.
Posso montar a mesa de Cosme e Damião em casa?
Pode, e é devoção comum e ao alcance de qualquer pessoa. Forre uma mesa baixa ou um banquinho com toalha limpa, arrume os doces e o bolo no centro, distribua guaraná, pipoca, frutas e brinquedos em volta, acenda as velas rosa, azul e branca e salve as Crianças com o coração leve. Depois, distribua os doces a crianças de verdade. Se você é de uma casa, siga a orientação do seu dirigente.
O que é o caruru de Cosme e Damião?
É um prato votivo de quiabo, azeite de dendê e camarão seco, servido com feijão fradinho, pipoca, farofa e outras comidas de santo. É tradição de raiz baiana e do Candomblé, reconhecida em 2024 como patrimônio imaterial do estado da Bahia. A primeira porção é servida diante da imagem dos santos, e depois o caruru é servido primeiro a sete crianças, de onde vem o nome Caruru de Sete Meninos.
Quem são os sete meninos de Cosme e Damião?
São os sete irmãos da tradição brasileira dos gêmeos. Além de Cosme e Damião, a lista mais repetida inclui Doum, também chamado Idowú, entendido como o irmão que nasce depois dos gêmeos e protege as crianças pequenas, e ainda Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi. A relação varia conforme a região e a casa, e não existe uma lista oficial única.
Como é a festa de Cosme e Damião na Umbanda?
Abre com os pontos cantados das Crianças e o pedido de licença aos Orixás e guias da casa. Quando as Crianças chegam, os médiuns correm, riem, pedem colo e doce e brincam com quem está na assistência. No meio da brincadeira acontece trabalho de descarrego, limpeza e cura. A parte que define o dia é a distribuição dos doces às crianças da casa, da vizinhança e da comunidade.
Erê é a mesma coisa que Exu Mirim?
Não. O Erê é a criança de luz da linha da direita, a Ibejada, ligada a Cosme e Damião, que trabalha na alegria, na cura e no descarrego. O Exu Mirim atua na esquerda, no campo das intenções e dos nós entre as pessoas. São linhas diferentes, com fundamentos e funções diferentes. A confusão é constante porque as duas chegam com jeito de criança.
Por que a linha das Crianças é chamada de Meninos de Angola?
Porque em muitas casas de raiz banto a celebração do dia 27 é conhecida como Festa dos Meninos de Angola, nome que vem da vertente angola e congo da tradição afro brasileira, onde o correspondente de Ibeji é o Vunji e os gêmeos são chamados de Dois-Dois. Nessas casas também se ouve Cosmes e Erê para nomear as Crianças. É a mesma linha, com outro vocabulário de raiz.
Qual é o dia da semana dos Erês na Umbanda?
O domingo é o dia da linha das Crianças na maioria das casas, e é nele que as giras de criança costumam acontecer e que se firma a vela. Isso não substitui a grande data do ano, que é o 27 de setembro. O domingo é o dia da semana; o 27 é a festa anual da Ibejada. Quem confirma o calendário é sempre o dirigente da sua casa.
Axé Umbanda
Escrito porWeverton Pansan e Maria Amélia Pansan

Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.

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