
Congá é o altar do terreiro de Umbanda, o ponto de encontro entre o alto e a terra, onde ficam as imagens dos Orixás, dos santos e das entidades, as quartinhas, as velas e as flores. Entenda a origem banta da palavra, a diferença entre congá e peji, o que se põe e o que não se põe, e como montar um congá pequeno em casa com respeito.
Congá é o altar da casa de Umbanda. É onde ficam as imagens dos Orixás e dos santos, os assentamentos e firmezas que a casa mantém à vista, as quartinhas de água, as velas, as flores e os elementos de cada linha de trabalho. A palavra aparece escrita de dois modos, congá e gongá, e as duas circulam nos terreiros. Este texto explica o que é, de onde vem o nome, o que a tradição põe e não põe no altar, o que muda de casa para casa e o que uma pessoa devota pode montar em casa sem invadir terreno de fundamento.
O que é o congá
Congá é o altar do terreiro, o ponto de referência espiritual do salão. Fisicamente costuma ser uma estrutura de alvenaria, de madeira ou uma prateleira em degraus, encostada numa parede do salão, quase sempre voltada para quem entra. É ali que a corrente se volta ao rezar, é ali que se acende vela, é dali que o dirigente conduz a abertura e é ali que as entidades saúdam ao chegar.
A leitura de fundamento mais repetida é a do congá como ponto de encontro entre o alto e a terra. De um lado, a irradiação dos Orixás, que são forças da natureza; de outro, o trabalho das entidades que se manifestam na casa, os Caboclos, os Pretos Velhos, as Crianças, os Baianos, os Boiadeiros, os Marinheiros, os Ciganos, os Exus e as Pombagiras. O congá é o lugar onde esses dois planos se encontram para o trabalho de caridade, e é por isso que ele não é enfeite: é ferramenta.
Há um detalhe que confunde muita gente e vale dizer logo. Congá não é o mesmo que peji. O congá fica no salão, à vista de todos, inclusive de quem visita a casa pela primeira vez. O peji é o quarto ou o compartimento reservado onde ficam os assentamentos, e ali só entra quem tem acesso, com autorização do dirigente. Muita casa tem os dois.
De onde vem a palavra congá
A origem mais aceita é banta. A palavra é associada ao termo kônga, das línguas do grupo banto trazidas ao Brasil pelos africanos escravizados de regiões que hoje correspondem a Angola, ao Congo e a Moçambique, com sentido de lugar sagrado, altar, ponto de culto. Há também a explicação que liga congá a congada, a reunião dos congos, como se chamavam antigamente os africanos de origem banto no Brasil.
Sobre a grafia, a dúvida entre congá e gongá é das mais comuns na Umbanda, e a resposta honesta é que as duas formas são usadas e nenhuma está errada. Congá é a grafia mais difundida e a que aparece com mais frequência em textos de casa e em dicionários de Umbanda; gongá é igualmente corrente na fala e em muitos terreiros. Quem corrige o outro por causa disso está discutindo ortografia, não fundamento.
Vale registrar o que a palavra carrega de história. O congá é um dos elementos que mostram a raiz banta da Umbanda, ao lado de palavras como macumba, mironga, quizila e cambono. A Umbanda nasceu no Brasil no início do século XX reunindo essa raiz africana, o culto aos Orixás de matriz iorubá, a devoção católica popular e elementos do espiritismo, e o altar do terreiro é o lugar onde essa mistura fica mais visível: santo católico, Orixá africano e entidade brasileira lado a lado.
O que fica no congá
Cada casa monta o seu, e a variação é enorme. Ainda assim, alguns elementos aparecem em praticamente todo congá de Umbanda.
- Imagens dos Orixás e dos santos. Aqui aparece o sincretismo: Oxalá com Jesus Cristo, Ogum com São Jorge, Oxóssi com São Sebastião, Iemanjá com Nossa Senhora dos Navegantes, Xangô com São Jerônimo em muitas casas, os Ibejis com Cosme e Damião. A correspondência varia por região.
- Imagens das entidades. Preto Velho, Caboclo, Baiano, Boiadeiro, Marinheiro, Cigano, Zé Pilintra, Erês. Em muitas casas há um degrau próprio para elas.
- Quartinhas e copos de água. Água é presença e é dos elementos mais constantes. Troca-se com frequência, e água parada e suja em congá é sinal de casa desleixada.
- Velas. Brancas na maior parte do tempo, e coloridas conforme a linha da gira ou a data.
- Flores. Naturais, trocadas antes de murchar. Flor seca e podre no altar é o mesmo caso da água velha.
- Elementos de firmeza da casa. Pemba, guias e fios de contas, cruz, imagens de anjo, pedras, quartzos, terra, folhas, conforme o fundamento do terreiro.
- Cachimbo, charuto, guias e apetrechos das entidades, em muitas casas guardados junto ou logo abaixo.
Uma observação que evita frustração de quem visita: o congá dos Exus e das Pombagiras geralmente não fica no mesmo altar. A maior parte das casas mantém a tronqueira na entrada, fora do salão ou em um espaço próprio, por fundamento de função, e não por hierarquia de valor: guardião fica na porta porque a função dele é guardar a porta.
O que não se faz com o congá
Estas são as recomendações que se repetem em casas de tradições bem diferentes.
- Não se fotografa sem autorização. Essa é das regras mais firmes de qualquer terreiro, e vale para o congá, para a gira e para as entidades.
- Não se mexe por curiosidade. Congá não é estante de enfeite. Quem arruma, limpa e troca a água é quem tem função para isso na casa.
- Não se deixa água suja, flor podre e vela derretida acumulada. Descuido no altar é o retrato do descuido na casa.
- Não se põe dinheiro, pedido escrito de terceiros nem foto de pessoa sem que ela saiba. Interferir na vida de quem não pediu não pertence a esta tradição.
- Não se acende vela e se vai embora. Vela em altar de madeira, perto de flor seca e de pano, é começo de incêndio, e casa organizada tem lugar seguro para isso.
- Não se transforma em vitrine. A quantidade de imagem não mede fundamento, e altar cheio de peça comprada por impulso costuma dizer mais de ansiedade do que de devoção.
Pode ter congá em casa?
Aqui é preciso separar duas coisas que costumam ser confundidas, e a distinção resolve a maior parte das dúvidas.
O que qualquer pessoa devota pode ter é um pequeno altar doméstico, um cantinho de fé. Uma prateleira ou uma mesa limpa, uma toalha branca, uma imagem do santo ou do Orixá de devoção, um copo de água, uma vela em pires seguro e uma flor. Isso é gesto de devoção, existe na casa de milhões de brasileiros de várias religiões e não exige iniciação nem autorização de ninguém.
O que não se monta em casa por conta própria é congá de terreiro com fundamento: assentamento, firmeza permanente, tronqueira, otá consagrado e qualquer elemento que peça rito, jogo e responsabilidade. Isso é fundamento de casa, se faz com dirigente, e não se resolve com vídeo de internet nem com kit comprado pronto.
Se você tem um cantinho em casa, o cuidado prático é simples: mantenha limpo, troque a água com frequência, troque a flor antes de murchar, acenda vela só em local seguro e com alguém em casa, e não acumule imagem por impulso. E se o seu desejo é ir além disso, o caminho é o mesmo de sempre: procurar uma casa séria e conversar.
O que muda de casa para casa
Quase tudo, e isso não é falta de fundamento: é a natureza da Umbanda, que é uma religião de casas, cada uma com a sua raiz.
- Quantidade de degraus. Há congás de um só nível e há os de três, cinco ou sete degraus, com Orixás acima, entidades no meio e elementos de trabalho abaixo. Onde há sete, muitas casas leem os degraus em relação às sete linhas.
- Presença de imagem católica. Casas de linha mais tradicional mantêm muitas imagens de santo; casas de linha mais africanizada reduzem ou dispensam, trabalhando com ferramentas e elementos da natureza.
- Cruz no alto. Comum em muitas casas, ausente em outras.
- Posição na parede e orientação. Há casas que orientam o congá para o nascente, e há as que se guiam apenas pela arquitetura do salão.
- Nome. Congá, gongá, altar, peji e, em algumas casas, mesa. As palavras se sobrepõem na fala do dia a dia.
A regra prática para quem visita é uma só: observe e pergunte antes de agir. Cada casa tem o seu costume, e o costume da casa vem sempre na frente de qualquer texto, inclusive deste.
Como se comportar diante do congá
Se é a sua primeira vez em um terreiro, o congá é a primeira coisa que chama a atenção, e a etiqueta é simples.
- Cumprimente na entrada do jeito que a casa fizer. Muita gente bate cabeça, outras fazem apenas um sinal de respeito. Se você não sabe, observe e acompanhe.
- Não fotografe. Nem o altar, nem a gira, nem as entidades.
- Não toque em imagem, quartinha, guia ou ferramenta.
- Não passe na frente do congá durante a reza sem necessidade.
- Pergunte à recepção se pode acender vela e onde. Muitas casas têm um local próprio para isso.
- Se quiser levar flor, pergunte antes. É gesto bem recebido em quase todo lugar, mas cada casa tem o seu costume.
Fontes e referências
Perguntas frequentes
O que é congá na Umbanda?
Congá ou gongá, qual é o certo?
Qual a diferença entre congá e peji?
O que se coloca no congá?
Exu fica no congá?
Pode ter congá em casa?
Pode fotografar o congá?
Como se limpa e se cuida do congá?
Preciso bater cabeça diante do congá?
Quantos degraus tem um congá?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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