Ponto de Omulu: O Velho Omulu Vem Caminhando Devagar
O velho Omulu vem caminhando devagar
Ouça o ponto
Letra do ponto
Letra de tradição oral; pode variar de casa para casa.
Significado
O velho Omulu vem caminhando devagar é um ponto de Omulu de tradição oral, sem autor conhecido, cantado há décadas nos terreiros e registrado em várias coletâneas de pontos de raiz. Como todo ponto antigo, muda um pouco de palavra e de melodia de uma casa para outra.
A primeira imagem é a de um velho que chega sem pressa. Muitas casas de Umbanda leem Omulu como a face mais antiga e recolhida do Orixá da Terra, e Obaluaê como a face mais jovem. Outras tratam os dois nomes como um só. O ponto chama o velho, e por isso tem um peso de respeito e de silêncio.
Caminhar devagar não é fraqueza. É o passo de quem conhece o caminho inteiro, do nascimento à passagem, e não precisa correr. Na leitura das casas, esse andar lento ensina paciência a quem sofre: a cura do corpo e da alma tem o seu tempo, e Omulu acompanha cada passo.
Apoiado em seu cajado, ele vem nos ajudar. O cajado é o apoio do ancião, mas também é sinal de autoridade e de quem guia. O verso é uma promessa simples: o velho chega cansado da estrada, e mesmo assim chega para ajudar. É por isso que tanta gente canta este ponto nos dias de doença e de luto.
Omulu é dono da terra, diz a última parte. Ele rege o chão que sustenta a vida e que recebe o corpo no fim dela. Muitos autores umbandistas explicam que Omulu não traz a morte: ele ampara o desencarne, encaminha quem parte e corta o que atenta contra a vida. Não é para ser temido, e sim respeitado.
Atotô é a saudação dele, que as casas traduzem como silêncio ou silêncio para o grande Rei da Terra. Por isso o ponto não é cantado como grito de festa. A palha da costa que cobre o Orixá, a pipoca chamada de deburu e o cruzeiro das almas são símbolos que costumam aparecer junto deste canto na gira.
No sincretismo, Omulu foi aproximado de São Lázaro e Obaluaê de São Roque, e a segunda-feira é o dia mais lembrado, o mesmo que muitas casas dedicam às almas. As cores variam bastante: preto, branco e vermelho em muitas casas, preto e branco em outras. Vale sempre o fundamento da sua casa.
A letra ganha variações. Há quem cante Atotô Abaluaê no lugar de Obaluaê, há casas que repetem a primeira parte mais vezes enquanto o Orixá dança e há quem emende o ponto com outros cantos de Omulu. Cantar com fé é pedir saúde e amparo, mas isso não substitui orientação médica: Omulu ampara, e o tratamento continua com quem cuida do corpo.
Quando se canta
Na gira de Omulu e Obaluaê, quando a corrente já saudou o Orixá e a curimba precisa de um ponto de sustentação, de andamento lento e firme, para segurar a vibração enquanto o trabalho acontece. Muitas casas o cantam em voz baixa, com a assistência recolhida.
Também é muito ouvido nas giras das Almas, nos trabalhos de cura e de saúde e nas sessões em que a casa reza por quem já partiu. Por isso aparece tanto na semana de Finados, em 2 de novembro, quando muitos terreiros dedicam a gira a Omulu, a Nanã e ao povo das Almas.
O toque mais citado é o nagô, cadenciado e pesado, mas há casas que o levam em outro ritmo, conforme a raiz. A ordem dos pontos, o número de repetições e o momento exato de cantar são sempre decisão do dirigente e do ogã.






