O que significa o ponto de exu mirim: boa noite, gente, como vai, como passou?
O ponto começa com uma coisa rara na esquerda: uma saudação educada. Antes de qualquer firmeza, o Mirim cumprimenta e pergunta como a pessoa passou, e é assim que a maioria das casas descreve a chegada dessa falange, com conversa solta, riso e jeito de criança que entra numa sala cheia de adulto. Logo em seguida vem a chave do ponto, que é a frase mais repetida sobre essa linha: pequenininho, mas bom trabalhador. O tamanho é imagem, e não estatura. A tradição entende o Exu Mirim como guardião que se apresenta pequeno e é subestimado justamente por isso, e o fundamento repetido nas casas é que ele entra onde o trabalho grande não entra, porque ninguém desconfia de criança. Por isso essa falange é muito ligada à vigilância da casa, à porteira, ao que passa despercebido e ao desmanche do que foi feito no miúdo, na fofoca, no detalhe pequeno que envenena devagar. O pedido do terceiro verso, para que não riam dele, não é lamento. Nas casas de fundamento ele é lido como advertência bem humorada e com mão dupla: quem trata o Mirim como brincadeira costuma descobrir que ele trabalha a sério, e quem vira a gira de Mirim em bagunça descobre que a casa cobra. É comum que o ponto siga com a chamada nominativa do guardião que trabalha ali, e essa parte muda de terreiro para terreiro. Vale registrar uma confusão que a internet criou e que as casas sérias desfazem: Exu Mirim não é Erê, não é criança do céu e não é entidade infantil da linha de Cosme e Damião. Erê é a linha das Crianças, que trabalha na direita, com doce, brincadeira e leveza. Exu Mirim é guardião da esquerda com aparência e fala de criança, o que é outra coisa, e a maioria das casas nem trabalha essa falange com assistência presente. Como todo ponto de tradição oral, a letra varia bastante: há versões que acrescentam o pedido ao Senhor das Almas, há casas que cantam em andamento acelerado com palma e há casas que cantam devagar, quase falado.
Quando se canta esse ponto?
na gira de esquerda, na chegada da falange dos Mirins, e nas casas que abrem gira própria de Exu Mirim ao longo do ano. É ponto de chamada, cantado depois que a esquerda já foi firmada e a tronqueira saudada
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
Quem é Exu Mirim na Umbanda?
Exu Mirim é o nome de uma falange de guardiões da esquerda umbandista que se apresenta com jeito, voz e tamanho de criança. A tradição os descreve como guardiões vigilantes, ligados à porteira da casa, ao que passa despercebido e ao desmanche do que foi feito no miúdo. O fundamento mais repetido é o do ponto: pequeno na aparência e grande no trabalho, porque entra onde ninguém desconfia.
Exu Mirim é a mesma coisa que Erê?
Não, e essa é a confusão mais comum da internet. Erê é a linha das Crianças, que trabalha na direita, com doce, brincadeira, leveza e ligação com Cosme e Damião. Exu Mirim é guardião da esquerda, com aparência e fala de criança, o que é outra coisa completamente. Misturar os dois é erro de fundamento, e casa séria corrige isso logo na primeira aula de desenvolvimento.
O que significa pequenininho mas bom trabalhador?
É a frase central da falange e não fala de tamanho físico. A leitura da tradição é que o Mirim é subestimado justamente por se apresentar pequeno, e que essa aparência é a ferramenta dele: ele entra onde o trabalho grande não entra porque ninguém desconfia de criança. Por isso essa linha é associada à vigilância miúda, ao detalhe, à fofoca e ao que envenena devagar.
Quando se canta o ponto de Exu Mirim?
Na gira de esquerda, na chamada da falange dos Mirins, depois que a esquerda já foi firmada e a tronqueira saudada. Casas que abrem gira própria de Exu Mirim costumam fazer isso em data marcada no calendário do terreiro. Não é ponto de abertura de gira comum e não se canta em qualquer momento: o lugar dele na sequência é fundamento da casa.
Por que o ponto pede para não rirem dele?
Nas casas de fundamento esse verso é lido como advertência de mão dupla e bem humorada. De um lado, é o guardião dizendo que não é brincadeira, apesar da aparência. De outro, é lembrete para a corrente: gira de Mirim tem riso, tem graça e tem resposta atravessada, e é fácil a casa perder a linha. Quem trata a falange como diversão costuma descobrir que o trabalho é sério.
Posso cantar esse ponto em casa?
Cantar por devoção é uma coisa; chamar a falange por conta própria é outra. Ponto de esquerda é ponto de chamada, e a orientação da maioria das casas é que não se chama guardião sozinho em casa, sem corrente, sem firmeza e sem quem conduza. Se você tem terreiro, pergunte ao seu dirigente. Se não tem, o caminho é procurar uma casa séria e caminhar um pouco antes de firmar qualquer coisa.
A letra é sempre essa?
Não. É tradição oral, então varia bastante de casa para casa. Há versões que acrescentam o pedido ao Senhor das Almas para que não façam pouco dele, versões que seguem com a chamada nominativa do guardião que trabalha ali e versões com estribilho próprio. O andamento também muda: tem casa que canta acelerado, com palma, e tem casa que canta quase falado. A versão que vale é a da sua casa.
Exu Mirim é entidade ruim?
Não. Exu na Umbanda é guardião, e não demônio, e essa associação vem de leitura cristã antiga que a religião não aceita. A falange dos Mirins trabalha proteção, vigilância e desmanche, e em casa séria não se pede a nenhum guardião prejuízo a terceiros. A religião se organiza em torno da caridade e do princípio de que tudo o que se emite volta, e isso vale para a esquerda tanto quanto para a direita.
Criança pode assistir à gira de Exu Mirim?
A maioria das casas não trabalha essa falange com assistência aberta, e várias não recebem criança em gira de esquerda de jeito nenhum. Não é por perigo místico, é por fundamento e por bom senso: a gira de esquerda tem linguagem direta, assunto adulto e conversa que não é para ouvido de criança. Cada terreiro tem a sua regra, e ela se pergunta antes de levar alguém.
O que se oferece a Exu Mirim?
As casas variam bastante e é honesto dizer isso. Aparecem com frequência bala, pirulito, doce, refrigerante e guaraná, junto de itens da esquerda como farofa e marafo em pequena quantidade, e há casas que não usam bebida alcoólica nessa falange justamente pela apresentação de criança. Cor de vela também muda. Como toda firmeza de esquerda, oferenda a Exu Mirim pede orientação do dirigente e não se improvisa por receita de internet.