O que significa o ponto de erê: ô erê, onde está o erê?
É um ponto de chamada, e a chave dele está na pergunta. Em vez de anunciar a entidade, a curimba procura: onde está o Erê? A tradição entende que criança não chega quando é intimada, chega quando é chamada com alegria, e por isso este ponto é cantado em andamento leve, com palma, com o atabaque mais solto e com a corrente sorrindo, sem a solenidade das giras de Orixá. A segunda parte do ponto anuncia o que vai acontecer: a brincadeira vai começar e é uma grande festa. Isso não é enfeite. Nas casas de fundamento, a gira de Erê é entendida como trabalho de verdade, e a alegria é a ferramenta dele. O Erê desmonta o que está travado justamente por não levar nada a sério do jeito que o adulto leva: ele ri do que a pessoa tem vergonha de dizer, faz pergunta direta que ninguém teve coragem de fazer e responde coisa séria no meio de uma bagunça. Por isso é comum que este ponto entre depois de um trabalho pesado, quando a corrente precisa desanuviar e a casa precisa voltar ao chão. O ponto também costuma seguir com a chamada nominativa, em que se pergunta por uma criança pelo nome, como Mariazinha, e essa parte varia de casa para casa conforme os Erês que trabalham ali. É um dos pontos mais fáceis de acompanhar para quem está chegando, porque a melodia é simples, os versos se repetem e ninguém precisa saber a letra inteira para cantar junto.
Quando se canta esse ponto?
na chamada da linha das Crianças, na gira de Cosme e Damião, nas casas que fazem gira de Erê ao longo do ano e sempre que a corrente precisa de leveza depois de um trabalho pesado
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
O que é um Erê na Umbanda?
Erê é a entidade que se apresenta em forma de criança, ligada à linha das Crianças, também chamada de linha de Ibeji ou de Cosme e Damião. A palavra vem do iorubá e carrega o sentido de brincadeira. Na gira, o Erê fala como criança, brinca, pede doce e faz pergunta direta, e é justamente por esse jeito que ele consegue chegar onde a solenidade não chega.
Quando se canta o ponto onde está o Erê?
Na chamada da linha das Crianças, no começo da gira de Erê, na gira de Cosme e Damião e em qualquer momento em que a casa quer chamar a leveza de volta. É muito comum que ele entre depois de um trabalho pesado, quando a corrente precisa desanuviar. O andamento é leve, com palma e com o atabaque solto, e a corrente canta sorrindo.
Por que o ponto pergunta onde está o Erê?
Porque é um ponto de procura, e não de ordem. A tradição entende que criança não chega quando é intimada, chega quando é chamada com alegria, e a pergunta cantada é exatamente esse convite. A parte seguinte anuncia a brincadeira e a festa, que é o modo como a linha das Crianças trabalha: desmontando pela leveza o que está travado.
A letra tem Mariazinha ou outro nome?
Tem, em muitas casas. Depois dos primeiros versos é comum a chamada nominativa, perguntando por uma criança pelo nome, e Mariazinha é o nome mais repetido nas versões que circulam. Essa parte varia bastante de casa para casa, conforme os Erês que trabalham naquela raiz, e não existe versão única nem versão errada.
Gira de Erê é coisa séria?
É trabalho de verdade, e as casas de fundamento fazem questão de dizer isso. A alegria é a ferramenta, e não a ausência de fundamento. O Erê pergunta o que ninguém teve coragem de perguntar, ri do que a pessoa tem vergonha de dizer e responde coisa séria no meio da bagunça. Confundir leveza com falta de respeito é o erro mais comum de quem chega.
Erê é a mesma coisa que Ibeji e que Cosme e Damião?
São coisas próximas e não idênticas. Ibeji é o Orixá dos gêmeos na tradição iorubana, Cosme e Damião são os santos gêmeos do catolicismo popular sincretizados com eles, e Erê é a entidade que se manifesta em forma de criança na gira. Na fala do dia a dia as três coisas se misturam, e cada casa organiza isso do seu jeito, conforme a raiz.
Precisa saber a letra inteira para cantar?
Não. Este é um dos pontos mais fáceis de acompanhar para quem está chegando, porque a melodia é simples e os versos se repetem duas vezes cada, como manda o costume da curimba. Quem não sabe a letra bate palma no tempo e entra no refrão, e isso basta. Ninguém é cobrado por não saber ponto em casa de fundamento.
Pode cantar ponto de Erê em casa?
Cantar por devoção, sim, do mesmo jeito que se reza em casa. O que não se faz sozinho é reproduzir a gira, chamar entidade e conduzir trabalho, porque isso é função da casa e de quem tem preparo. Muita gente canta ponto de Erê com os filhos, no dia de Cosme e Damião, e esse é um uso bonito e sem nenhum problema.
Que dia é a gira de Erê?
Varia muito conforme a casa. O dia mais associado à linha das Crianças é o vinte e sete de setembro, dia de Cosme e Damião, quando muitas casas fazem gira e distribuem doces. Fora dessa data, há casas que fazem gira de Erê mensalmente, outras algumas vezes por ano e outras apenas quando a espiritualidade pede. Pergunte na casa que você frequenta.
O que se oferece aos Erês?
Doce, e sem luxo. O mais citado é bala, cocada, pé de moleque, doce de leite, guaraná e frutas, servidos em vasilha limpa, além de brinquedo simples em algumas casas. A tradição repete que Erê não pede coisa cara, pede coisa dada com alegria. Onde houver criança de verdade por perto, o costume mais bonito é dividir os doces com elas.