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Lendas de Oxum: as histórias sagradas da senhora das águas doces e o que cada uma ensina

As lendas de Oxum, chamadas de itans, contam como a senhora das águas doces conquistou o direito de ler os búzios, venceu uma guerra com comida, fez os Orixás reconhecerem o poder das mulheres e se tornou a protetora de uma cidade inteira na Nigéria. Reunimos as histórias mais conhecidas, com as fontes de cada uma, e o que elas ensinam a quem cultua Oxum na Umbanda.

Por Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan·12 de outubro de 2026·9 min de leitura
Lendas de Oxum: as histórias sagradas da senhora das águas doces e o que cada uma ensina
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As lendas de Oxum, chamadas de itans, contam como a senhora das águas doces conquistou o direito de ler os búzios, venceu uma guerra com comida, fez os Orixás reconhecerem o poder das mulheres e se tornou a protetora de uma cidade inteira na Nigéria. Reunimos as histórias mais conhecidas, com as fontes de cada uma, e o que elas ensinam a quem cultua Oxum na Umbanda.

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As lendas de Oxum são os itans, as histórias sagradas da tradição iorubá que explicam quem é a senhora das águas doces. Elas chegaram ao Brasil pela boca dos africanos escravizados, foram guardadas nos terreiros e reunidas em livros como Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi. Neste artigo você conhece as histórias mais contadas sobre Oxum, entende o que cada uma ensina e vê como elas aparecem na Umbanda, lembrando que cada casa conta os itans do seu jeito.

Resposta rápida

As lendas de Oxum mais conhecidas são sete: Oxum e o conselho dos Orixás, em que ela torna as mulheres estéreis até ser chamada para as reuniões; Oxum e o jogo de búzios, em que ela recupera as roupas de Obatalá e ganha o segredo do oráculo; Oxum Ioni, a rainha que vence os invasores com abarás; Oxum entre Xangô e Ogum, os dois maridos que a disputam; Oxum e Obá, a rivalidade da orelha cortada; Oxum mãe de criação dos Ibejis; e Oxum de Osogbo, a Orixá que fez um pacto de proteção com o fundador da cidade, na Nigéria. Juntas, elas mostram que Oxum não é só doçura e vaidade: ela é estrategista, guerreira, dona da fertilidade e do oráculo. As versões mudam de casa para casa, e quem ensina o fundamento é o dirigente do seu terreiro.

O que são os itans e por que as lendas variam

Itan é o nome iorubá das narrativas sagradas dos Orixás. Elas não são contos para distrair: são histórias de ensinamento, passadas pela tradição oral de pais e mães de santo aos seus filhos. No Brasil, a maior coletânea publicada é Mitologia dos Orixás, do sociólogo Reginaldo Prandi (Companhia das Letras, 2001), que reúne 301 mitos de 32 Orixás, segundo a revista Religare, da UFPB.

Como nasceram na oralidade, os itans têm muitas versões. A mesma história pode trocar um personagem, um detalhe ou o final de uma casa para outra, e isso não é erro: é a marca de uma tradição viva. Por isso, neste artigo, cada lenda aparece com a fonte de onde foi tirada. A pesquisadora Luciana de Oliveira Dias, da Universidade Federal de Goiás, lembra que essas histórias são ensinadas com um objetivo nitidamente pedagógico, e é assim que vale lê-las.

1. Oxum e o conselho dos Orixás: a força da fertilidade

Esta é uma das lendas mais citadas de Oxum, registrada por Prandi em Mitologia dos Orixás (p. 345). Logo que o mundo foi criado, os Orixás vieram para a Terra e passaram a dividir os encargos em reuniões das quais só os homens participavam. Oxum não aceitou a exclusão. Em resposta, tornou todas as mulheres estéreis, e nenhuma iniciativa dos homens dava fruto.

Sem filhos, sem herdeiros e sem quem guardasse a sua memória, os Orixás foram consultar Olodumare, o ser supremo. Ele quis saber se Oxum participava das reuniões e, ao saber que não, aconselhou que ela e as outras mulheres fossem chamadas, porque sem Oxum e o seu poder sobre a fecundidade nada iria adiante. Os Orixás obedeceram, as mulheres voltaram a gerar filhos e a vida na Terra prosperou.

O que ensina: Oxum é a dona da fertilidade, e o seu poder não é enfeite. A lenda mostra que nenhuma decisão coletiva se sustenta quando exclui a força feminina.

2. Oxum e o jogo de búzios: o segredo do oráculo

Na versão narrada pela pesquisadora da UFG, a arte de ler o destino nos búzios era guardada como grande segredo por Obatalá, o senhor do pano branco, que se recusava a ensiná-la. Oxum pedia muitas vezes para aprender, e ele sempre dizia não.

Um dia, enquanto Obatalá se banhava no rio, Exu roubou as suas roupas brancas. Envergonhado, o velho sábio aceitou a ajuda de Oxum, que seduziu Exu, recuperou as vestes e as devolveu a Obatalá, cobrando a promessa: aprender a jogar os búzios. Desde então Oxum guarda também o segredo do oráculo. O mesmo artigo registra que, pela tradição, a consulta ao oráculo de Ifá foi atividade masculina por séculos, e que as mulheres passaram a consultá-lo graças a esse feito de Oxum, que lhe rendeu a permissão de jogar búzios e obis.

O que ensina: inteligência e estratégia valem tanto quanto a força. É por causa desta lenda que Oxum é lembrada como dona do jogo. Saiba mais em o que é o jogo de búzios.

3. Oxum Ioni: a rainha que venceu a guerra com comida

Prandi conta (p. 343) que Oxum era rainha de um grande e rico território quando o seu reino foi invadido por um povo chamado ioni. Derrotada, ela fugiu na escuridão da noite e, do esconderijo, mandou um recado aos súditos fiéis: cozinhar um ebó de milhares de abarás e deixá-lo na beira do rio por onde passariam os invasores.

Cansados e famintos, os soldados devoraram as guloseimas. Os abarás eram veneno, e os guerreiros ionis morreram ali mesmo. Oxum voltou a reinar e, pela vitória, tomou para si o nome do inimigo derrotado: passou a ser chamada de Oxum Ioni.

O que ensina: a cozinha de Oxum alimenta, mas também é arma. A doçura dela nunca foi fraqueza. É uma boa chave para entender por que a comida de Oxum é tão importante no culto.

4. Oxum entre Xangô e Ogum: o amor disputado

Nos itans, Oxum aparece casada com mais de um Orixá. O artigo da UFG resume: ela teve três maridos, Ogum, Xangô e Oxóssi. Apaixonada por Xangô, aceitou ser uma das suas três esposas, mas foi alvo de disputas sem fim entre ele e Ogum. Prandi registra (p. 97) que, quando Oxum vivia com Xangô, Ogum a reconquistou e a levou de volta, e ela passou a acompanhá-lo por toda parte, morando nas estradas e fazendo a guerra.

Com Oxóssi, segundo a mesma fonte, Oxum teve Logunedé, que vivia seis meses com o pai, nas matas, e seis meses com a mãe, nas águas doces.

O que ensina: Oxum é a dona do amor, mas não é posse de ninguém. Ela escolhe, troca de caminho e vai à guerra quando quer.

5. Oxum e Obá: a lenda da orelha cortada

É a lenda mais polêmica de Oxum, e ela é contada sobretudo do ponto de vista de Obá, a primeira esposa de Xangô. Na versão citada pela filósofa Djamila Ribeiro, a partir do livro da iyalorixá Cléo Martins sobre Obá (Coleção Orixás, Pallas), Obá se sentia desprezada pelo marido. Oxum lhe sugeriu preparar um prato para o rei usando a própria orelha. Obá cortou a orelha e serviu o prato; Xangô, ao encontrar a orelha na comida, sentiu nojo e a afastou.

Há versões em que Oxum esconde as orelhas sob um lenço para enganar a rival, e há quem conte que Obá cortou a orelha por vontade própria, sem nenhum engano. Djamila Ribeiro lembra que muitos leem o itan de forma simbólica: a orelha é a escuta, e entregar a escuta a quem não nos valoriza é a maior derrota.

O que ensina: o amor que exige que a gente se mutile não é amor. Para a filha de Oxum, a lição é o amor próprio; para quem se identifica com Obá, é confiar na própria força.

6. Oxum mãe de criação dos Ibejis

Oxum é a mãe que cuida da barriga, do parto e da criança pequena. Por isso, nas religiões afro-brasileiras, os Ibejis, os gêmeos sagrados, são vistos como filhos de criação de Oxum, como registra o portal Alma Preta. Por esse laço, nos rituais dedicados a Oxum costuma-se oferecer algo também aos gêmeos.

A genealogia dos Ibejis muda conforme a tradição: há versões em que eles são filhos de Xangô e Oxum, e outras em que nasceram de outra Iabá e foram acolhidos por ela. Em todas, Oxum aparece como a mãe que cria. Na Umbanda, esse laço explica por que muitas crianças da Ibejada vêm na vibração das águas doces.

O que ensina: ser mãe é cuidar, e não apenas gerar.

7. Oxum de Osogbo: o rio e o pacto com a cidade

Esta lenda tem endereço. Oxum é um rio de verdade, o rio Osun, no sudoeste da Nigéria, e é cultuada até hoje na cidade de Osogbo. A UNESCO registra que, segundo a tradição, a deusa do rio prometeu proteção a Laro, o fundador da cidade, desde que o povo não fizesse mal às criaturas do seu bosque sagrado. O mesmo documento conta que, na cosmologia iorubá, Oxum se transformou em rio depois de um desentendimento com outra esposa de Xangô.

O Bosque Sagrado de Osun-Osogbo foi declarado Patrimônio Mundial da UNESCO em 2005 e continua sendo um lugar de culto ativo. Todo ano, o festival Osun-Osogbo reúne devotos de várias partes do mundo; a abertura é marcada pelo acendimento de uma lâmpada de dezesseis pontas, segundo o jornal nigeriano The Guardian.

O que ensina: cuidar da água e da mata é cuidar de Oxum. Quem entrega oferenda no rio precisa lembrar disso e levar só o que a natureza absorve.

O abebé nas lendas: espelho e defesa

O abebé, o espelho dourado em forma de leque, atravessa as lendas de Oxum. A leitura da UFG é que ele não serve só para a Orixá admirar a própria beleza: o espelho também reflete o que está atrás dela, permitindo antecipar perigos e derrotar inimigos. É a mesma Oxum estrategista das lendas dos búzios e de Oxum Ioni, agora num objeto que cabe na mão.

Como as lendas de Oxum aparecem na Umbanda

Os itans vêm da tradição iorubá e são muito mais estudados no Candomblé. Na Umbanda, onde Oxum é a senhora da linha das águas doces, eles aparecem de outro jeito:

  • No ensinamento da casa: muitos dirigentes contam as lendas para explicar o temperamento da Orixá e o dos seus filhos, sem transformar cada detalhe em regra.
  • Nos pontos cantados: o rio, a cachoeira, o ouro e o espelho dos pontos de Oxum ecoam essas histórias. Conheça Eu vi Mamãe Oxum na cachoeira.
  • Nas oferendas: o mel, as frutas e o omolocum de Oxum lembram a cozinha da Orixá, a mesma que, na lenda de Oxum Ioni, decidiu uma guerra.
  • No sincretismo: em 12 de outubro muitas casas saúdam Oxum no dia de Nossa Senhora Aparecida, a imagem que também saiu de um rio.

Uma lenda não substitui o fundamento. Se uma versão daqui for diferente da que você aprendeu no seu terreiro, vale a da sua casa.

Resumo

As lendas de Oxum mostram uma Orixá muito maior do que a imagem de moça vaidosa: ela é dona da fertilidade, do oráculo, do amor e da estratégia. Fez os Orixás reconhecerem a força das mulheres, conquistou o segredo dos búzios, venceu uma guerra com a cozinha, criou os Ibejis e protege uma cidade inteira às margens do seu rio. Para continuar, leia a página de Oxum, a saudação a Oxum, a oração a Oxum e a oferenda de Oxum. Aieiê Ô, Mamãe Oxum!

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Qual é a lenda de Oxum mais conhecida?
Duas são as mais contadas: a de Oxum e o conselho dos Orixás, em que ela torna as mulheres estéreis até ser chamada para as reuniões, e a de Oxum e o jogo de búzios, em que ela recupera as roupas de Obatalá e ganha o segredo do oráculo.
O que é itan?
Itan é o nome iorubá das narrativas sagradas dos Orixás. São histórias de ensinamento passadas pela tradição oral nos terreiros. A maior coletânea publicada no Brasil é Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi, com 301 mitos de 32 Orixás.
Por que Oxum é dona do jogo de búzios?
Pela lenda em que Exu rouba as roupas brancas de Obatalá enquanto ele se banha no rio. Oxum recupera as vestes e, em troca, Obatalá lhe ensina a ler os búzios. Desde então ela guarda também o segredo do oráculo.
Quem foram os maridos de Oxum nas lendas?
Os itans citam três: Ogum, Xangô e Oxóssi. Ela foi uma das três esposas de Xangô, foi disputada por Xangô e Ogum e, com Oxóssi, teve Logunedé.
Oxum enganou Obá na lenda da orelha?
Na versão mais conhecida, sim: Oxum sugere que Obá cozinhe a própria orelha para agradar Xangô, e ele a rejeita. Há versões em que Obá corta a orelha por vontade própria. Muitos leem a história de forma simbólica, como uma lição sobre amor próprio.
O que é Oxum Ioni?
É o nome que Oxum ganhou na lenda em que vence os invasores ionis com milhares de abarás envenenados deixados na beira do rio. Depois da vitória, ela tomou para si o nome do povo derrotado.
Onde fica o rio de Oxum?
O rio Osun fica no sudoeste da Nigéria. Às margens dele está o Bosque Sagrado de Osun-Osogbo, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2005, onde Oxum segue sendo cultuada e onde acontece todo ano o festival Osun-Osogbo.
As lendas de Oxum valem para a Umbanda?
Elas vêm da tradição iorubá e são mais estudadas no Candomblé, mas muitas casas de Umbanda as usam para ensinar o temperamento de Oxum e dos seus filhos. Cada terreiro conta as lendas do seu jeito, e o fundamento da casa sempre vem primeiro.
Qual a saudação de Oxum?
Na Umbanda, a saudação mais usada é Aieiê Ô, Mamãe Oxum! No Candomblé também se ouve Ora iê iê ô. As duas saúdam a senhora das águas doces.
Axé Umbanda
Escrito porWeverton Pansan e Maria Amélia Pansan

Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.

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Conteúdo informativo e de fé, escrito com respeito à tradição e baseado nas fontes citadas. A Umbanda varia de casa para casa; em caso de dúvida, procure sempre o dirigente do seu terreiro. Este texto não substitui orientação médica, jurídica ou psicológica.
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