
As lendas de Oxum, chamadas de itans, contam como a senhora das águas doces conquistou o direito de ler os búzios, venceu uma guerra com comida, fez os Orixás reconhecerem o poder das mulheres e se tornou a protetora de uma cidade inteira na Nigéria. Reunimos as histórias mais conhecidas, com as fontes de cada uma, e o que elas ensinam a quem cultua Oxum na Umbanda.
As lendas de Oxum são os itans, as histórias sagradas da tradição iorubá que explicam quem é a senhora das águas doces. Elas chegaram ao Brasil pela boca dos africanos escravizados, foram guardadas nos terreiros e reunidas em livros como Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi. Neste artigo você conhece as histórias mais contadas sobre Oxum, entende o que cada uma ensina e vê como elas aparecem na Umbanda, lembrando que cada casa conta os itans do seu jeito.
Resposta rápida
As lendas de Oxum mais conhecidas são sete: Oxum e o conselho dos Orixás, em que ela torna as mulheres estéreis até ser chamada para as reuniões; Oxum e o jogo de búzios, em que ela recupera as roupas de Obatalá e ganha o segredo do oráculo; Oxum Ioni, a rainha que vence os invasores com abarás; Oxum entre Xangô e Ogum, os dois maridos que a disputam; Oxum e Obá, a rivalidade da orelha cortada; Oxum mãe de criação dos Ibejis; e Oxum de Osogbo, a Orixá que fez um pacto de proteção com o fundador da cidade, na Nigéria. Juntas, elas mostram que Oxum não é só doçura e vaidade: ela é estrategista, guerreira, dona da fertilidade e do oráculo. As versões mudam de casa para casa, e quem ensina o fundamento é o dirigente do seu terreiro.
O que são os itans e por que as lendas variam
Itan é o nome iorubá das narrativas sagradas dos Orixás. Elas não são contos para distrair: são histórias de ensinamento, passadas pela tradição oral de pais e mães de santo aos seus filhos. No Brasil, a maior coletânea publicada é Mitologia dos Orixás, do sociólogo Reginaldo Prandi (Companhia das Letras, 2001), que reúne 301 mitos de 32 Orixás, segundo a revista Religare, da UFPB.
Como nasceram na oralidade, os itans têm muitas versões. A mesma história pode trocar um personagem, um detalhe ou o final de uma casa para outra, e isso não é erro: é a marca de uma tradição viva. Por isso, neste artigo, cada lenda aparece com a fonte de onde foi tirada. A pesquisadora Luciana de Oliveira Dias, da Universidade Federal de Goiás, lembra que essas histórias são ensinadas com um objetivo nitidamente pedagógico, e é assim que vale lê-las.
1. Oxum e o conselho dos Orixás: a força da fertilidade
Esta é uma das lendas mais citadas de Oxum, registrada por Prandi em Mitologia dos Orixás (p. 345). Logo que o mundo foi criado, os Orixás vieram para a Terra e passaram a dividir os encargos em reuniões das quais só os homens participavam. Oxum não aceitou a exclusão. Em resposta, tornou todas as mulheres estéreis, e nenhuma iniciativa dos homens dava fruto.
Sem filhos, sem herdeiros e sem quem guardasse a sua memória, os Orixás foram consultar Olodumare, o ser supremo. Ele quis saber se Oxum participava das reuniões e, ao saber que não, aconselhou que ela e as outras mulheres fossem chamadas, porque sem Oxum e o seu poder sobre a fecundidade nada iria adiante. Os Orixás obedeceram, as mulheres voltaram a gerar filhos e a vida na Terra prosperou.
O que ensina: Oxum é a dona da fertilidade, e o seu poder não é enfeite. A lenda mostra que nenhuma decisão coletiva se sustenta quando exclui a força feminina.
2. Oxum e o jogo de búzios: o segredo do oráculo
Na versão narrada pela pesquisadora da UFG, a arte de ler o destino nos búzios era guardada como grande segredo por Obatalá, o senhor do pano branco, que se recusava a ensiná-la. Oxum pedia muitas vezes para aprender, e ele sempre dizia não.
Um dia, enquanto Obatalá se banhava no rio, Exu roubou as suas roupas brancas. Envergonhado, o velho sábio aceitou a ajuda de Oxum, que seduziu Exu, recuperou as vestes e as devolveu a Obatalá, cobrando a promessa: aprender a jogar os búzios. Desde então Oxum guarda também o segredo do oráculo. O mesmo artigo registra que, pela tradição, a consulta ao oráculo de Ifá foi atividade masculina por séculos, e que as mulheres passaram a consultá-lo graças a esse feito de Oxum, que lhe rendeu a permissão de jogar búzios e obis.
O que ensina: inteligência e estratégia valem tanto quanto a força. É por causa desta lenda que Oxum é lembrada como dona do jogo. Saiba mais em o que é o jogo de búzios.
3. Oxum Ioni: a rainha que venceu a guerra com comida
Prandi conta (p. 343) que Oxum era rainha de um grande e rico território quando o seu reino foi invadido por um povo chamado ioni. Derrotada, ela fugiu na escuridão da noite e, do esconderijo, mandou um recado aos súditos fiéis: cozinhar um ebó de milhares de abarás e deixá-lo na beira do rio por onde passariam os invasores.
Cansados e famintos, os soldados devoraram as guloseimas. Os abarás eram veneno, e os guerreiros ionis morreram ali mesmo. Oxum voltou a reinar e, pela vitória, tomou para si o nome do inimigo derrotado: passou a ser chamada de Oxum Ioni.
O que ensina: a cozinha de Oxum alimenta, mas também é arma. A doçura dela nunca foi fraqueza. É uma boa chave para entender por que a comida de Oxum é tão importante no culto.
4. Oxum entre Xangô e Ogum: o amor disputado
Nos itans, Oxum aparece casada com mais de um Orixá. O artigo da UFG resume: ela teve três maridos, Ogum, Xangô e Oxóssi. Apaixonada por Xangô, aceitou ser uma das suas três esposas, mas foi alvo de disputas sem fim entre ele e Ogum. Prandi registra (p. 97) que, quando Oxum vivia com Xangô, Ogum a reconquistou e a levou de volta, e ela passou a acompanhá-lo por toda parte, morando nas estradas e fazendo a guerra.
Com Oxóssi, segundo a mesma fonte, Oxum teve Logunedé, que vivia seis meses com o pai, nas matas, e seis meses com a mãe, nas águas doces.
O que ensina: Oxum é a dona do amor, mas não é posse de ninguém. Ela escolhe, troca de caminho e vai à guerra quando quer.
5. Oxum e Obá: a lenda da orelha cortada
É a lenda mais polêmica de Oxum, e ela é contada sobretudo do ponto de vista de Obá, a primeira esposa de Xangô. Na versão citada pela filósofa Djamila Ribeiro, a partir do livro da iyalorixá Cléo Martins sobre Obá (Coleção Orixás, Pallas), Obá se sentia desprezada pelo marido. Oxum lhe sugeriu preparar um prato para o rei usando a própria orelha. Obá cortou a orelha e serviu o prato; Xangô, ao encontrar a orelha na comida, sentiu nojo e a afastou.
Há versões em que Oxum esconde as orelhas sob um lenço para enganar a rival, e há quem conte que Obá cortou a orelha por vontade própria, sem nenhum engano. Djamila Ribeiro lembra que muitos leem o itan de forma simbólica: a orelha é a escuta, e entregar a escuta a quem não nos valoriza é a maior derrota.
O que ensina: o amor que exige que a gente se mutile não é amor. Para a filha de Oxum, a lição é o amor próprio; para quem se identifica com Obá, é confiar na própria força.
6. Oxum mãe de criação dos Ibejis
Oxum é a mãe que cuida da barriga, do parto e da criança pequena. Por isso, nas religiões afro-brasileiras, os Ibejis, os gêmeos sagrados, são vistos como filhos de criação de Oxum, como registra o portal Alma Preta. Por esse laço, nos rituais dedicados a Oxum costuma-se oferecer algo também aos gêmeos.
A genealogia dos Ibejis muda conforme a tradição: há versões em que eles são filhos de Xangô e Oxum, e outras em que nasceram de outra Iabá e foram acolhidos por ela. Em todas, Oxum aparece como a mãe que cria. Na Umbanda, esse laço explica por que muitas crianças da Ibejada vêm na vibração das águas doces.
O que ensina: ser mãe é cuidar, e não apenas gerar.
7. Oxum de Osogbo: o rio e o pacto com a cidade
Esta lenda tem endereço. Oxum é um rio de verdade, o rio Osun, no sudoeste da Nigéria, e é cultuada até hoje na cidade de Osogbo. A UNESCO registra que, segundo a tradição, a deusa do rio prometeu proteção a Laro, o fundador da cidade, desde que o povo não fizesse mal às criaturas do seu bosque sagrado. O mesmo documento conta que, na cosmologia iorubá, Oxum se transformou em rio depois de um desentendimento com outra esposa de Xangô.
O Bosque Sagrado de Osun-Osogbo foi declarado Patrimônio Mundial da UNESCO em 2005 e continua sendo um lugar de culto ativo. Todo ano, o festival Osun-Osogbo reúne devotos de várias partes do mundo; a abertura é marcada pelo acendimento de uma lâmpada de dezesseis pontas, segundo o jornal nigeriano The Guardian.
O que ensina: cuidar da água e da mata é cuidar de Oxum. Quem entrega oferenda no rio precisa lembrar disso e levar só o que a natureza absorve.
O abebé nas lendas: espelho e defesa
O abebé, o espelho dourado em forma de leque, atravessa as lendas de Oxum. A leitura da UFG é que ele não serve só para a Orixá admirar a própria beleza: o espelho também reflete o que está atrás dela, permitindo antecipar perigos e derrotar inimigos. É a mesma Oxum estrategista das lendas dos búzios e de Oxum Ioni, agora num objeto que cabe na mão.
Como as lendas de Oxum aparecem na Umbanda
Os itans vêm da tradição iorubá e são muito mais estudados no Candomblé. Na Umbanda, onde Oxum é a senhora da linha das águas doces, eles aparecem de outro jeito:
- No ensinamento da casa: muitos dirigentes contam as lendas para explicar o temperamento da Orixá e o dos seus filhos, sem transformar cada detalhe em regra.
- Nos pontos cantados: o rio, a cachoeira, o ouro e o espelho dos pontos de Oxum ecoam essas histórias. Conheça Eu vi Mamãe Oxum na cachoeira.
- Nas oferendas: o mel, as frutas e o omolocum de Oxum lembram a cozinha da Orixá, a mesma que, na lenda de Oxum Ioni, decidiu uma guerra.
- No sincretismo: em 12 de outubro muitas casas saúdam Oxum no dia de Nossa Senhora Aparecida, a imagem que também saiu de um rio.
Uma lenda não substitui o fundamento. Se uma versão daqui for diferente da que você aprendeu no seu terreiro, vale a da sua casa.
Resumo
As lendas de Oxum mostram uma Orixá muito maior do que a imagem de moça vaidosa: ela é dona da fertilidade, do oráculo, do amor e da estratégia. Fez os Orixás reconhecerem a força das mulheres, conquistou o segredo dos búzios, venceu uma guerra com a cozinha, criou os Ibejis e protege uma cidade inteira às margens do seu rio. Para continuar, leia a página de Oxum, a saudação a Oxum, a oração a Oxum e a oferenda de Oxum. Aieiê Ô, Mamãe Oxum!
Fontes e referências
- Luciana de Oliveira Dias, Reflexos no Abebé de Oxum: por uma narrativa mítica insubmissa e uma pedagogia transgressora, Revista Articulando e Construindo Saberes (UFG), v. 5, 2020
- Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás, Companhia das Letras, 2001
- Mitologia dos Orixás e o acervo de 301 mitos de 32 Orixás, Revista Religare (UFPB), 2022
- UNESCO, Osun-Osogbo Sacred Grove, Patrimônio Mundial (2005)
- The Guardian Nigeria, Osun-Osogbo festival: celebrating Yoruba culture and spirituality
- Djamila Ribeiro, Série Orixás: Obá, a amazona destemida (a partir de Cléo Martins, Coleção Orixás, Pallas), 2025
- Mariane Barbosa, Dia dos Ibejis: conheça o orixá das crianças, Alma Preta, 2023
Perguntas frequentes
Qual é a lenda de Oxum mais conhecida?
O que é itan?
Por que Oxum é dona do jogo de búzios?
Quem foram os maridos de Oxum nas lendas?
Oxum enganou Obá na lenda da orelha?
O que é Oxum Ioni?
Onde fica o rio de Oxum?
As lendas de Oxum valem para a Umbanda?
Qual a saudação de Oxum?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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