
O abebé é a ferramenta mais conhecida de Oxum e também de Iemanjá: um espelho de mão em forma de leque, dourado para a senhora das águas doces e prateado para a rainha do mar. Entenda a origem da palavra, o que o espelho representa, por que ele não é símbolo de vaidade vazia e como ele aparece nos terreiros de Umbanda.
O abebé é o espelho de mão em forma de leque que Oxum e Iemanjá carregam: o de Oxum é dourado e o de Iemanjá é prateado. A palavra vem do iorubá e nomeia a ferramenta mais característica do culto a Oxum, assim como o ofá é a de Oxóssi e o oxé é a de Xangô. Neste artigo você entende o que o abebé representa (a água, o olhar para dentro de si, a maternidade e a defesa), a diferença entre o abebé de Oxum e o de Iemanjá e como ele aparece na Umbanda, lembrando que cada casa tem o seu costume.
Resposta rápida
Abebé (ou abebê) é o espelho sagrado de Oxum e de Iemanjá, um leque redondo de metal que traz um espelho ou uma superfície que reflete. O abebé de Oxum é dourado, ligado ao ouro, ao mel e às águas doces. O abebé de Iemanjá é prateado, ligado à prata, à lua, às estrelas e ao mar. Ele não é um enfeite de vaidade: o espelho fala da água que reflete, do autoconhecimento, da maternidade e também da defesa, porque com ele a Iabá enxerga o que vem por trás. Na Umbanda o abebé aparece nas imagens do congá, nas giras de Oxum e de Iemanjá e em fios e pingentes de devoção. O uso ritual segue sempre a orientação do dirigente da casa.
O que é o abebé
Abebé é palavra de origem iorubá. No artigo de Leandro Tiago Ferreira e Mário de Faria Carvalho publicado na revista Cadernos de Campo (Unesp, 2024), ela aparece definida como o nome do artefato mais característico do culto a Oxum, o espelho de mão. No glossário do artigo de Mauricio dos Santos e Anaxsuell Fernando da Silva (Revista Calundu, UnB, 2020), a definição é ainda mais direta: abebé é o espelho de mão de Oxum e de Iemanjá.
O objeto tem formato de leque, quase sempre redondo, e por isso também é chamado de leque ritual. A dissertação de Maria de Lurdes Barros da Paixão (Unicamp, 2002), que estudou as danças dos Orixás das águas, resume assim: Oxum e Iemanjá representam o elemento água e possuem em comum o símbolo abebé. Ele pertence ao conjunto das ferramentas dos Orixás, ao lado do ofá de Oxóssi, do oxé de Xangô, do eruexim de Iansã e do xaxará de Obaluaiê. Ver o abebé numa imagem, numa dança ou num fio de contas é saber, na hora, que ali está uma das grandes mães das águas.
Abebé de Oxum: o espelho dourado
O abebé de Oxum é dourado. O estudo da Unesp descreve um abebé de Oxum feito em latão e revestido de tecidos, com elementos que lembram pedras e metais preciosos, como o ouro, e com um cristal dourado no centro. Segundo os autores, esse brilho dourado conversa com o ouro da mitologia de Oxum e com o mel, a gota dourada que adoça as relações e acalma as brigas.
O mesmo estudo mostra outros sentidos do espelho: ele se liga à água, porque a água também reflete, e representa um retorno a si mesmo, um olhar que vai além da superfície. O formato redondo lembra o ventre, a casa da vida, e por isso o abebé também fala da maternidade e da fertilidade, dois grandes domínios de Oxum. Quem quiser saudar a dona do abebé dourado pode conhecer a saudação a Oxum, a oração a Oxum e a comida de Oxum na Umbanda.
Abebé de Iemanjá: o espelho prateado
O abebé de Iemanjá é prateado. A coleção de diapositivos sobre o Candomblé do Instituto Latino-Americano e Ibérico da Universidade do Novo México registra, na legenda de uma foto do abebé de Iemanjá, que o metal de Iemanjá é a prata e seus símbolos são também a lua e as estrelas. Por isso o abebé dela costuma ser branco ou prateado, muitas vezes enfeitado com estrelas, conchas ou motivos do mar.
Se o dourado de Oxum fala do rio, do ouro e do mel, o prateado de Iemanjá fala do mar, da lua que governa as marés e da grande mãe que acolhe todos os filhos. Para conhecer melhor a rainha do mar, veja a página de Iemanjá, a oração a Iemanjá e a oferenda de Iemanjá.
Diferença entre o abebé de Oxum e o de Iemanjá
- Cor e metal: Oxum, dourado (ouro, latão, metal amarelo). Iemanjá, prateado (prata, metal branco).
- Águas: Oxum, águas doces (rios, cachoeiras, lagos). Iemanjá, águas salgadas (o mar).
- Símbolos que acompanham: Oxum, o ouro e o mel. Iemanjá, a lua, as estrelas e o mar.
- O que têm em comum: as duas são Iabás, mães das águas, e o espelho fala de reflexo, acolhimento e proteção.
Na prática, a cor é o que identifica a dona do abebé. Um leque-espelho dourado aponta para Oxum; um prateado, para Iemanjá. Algumas qualidades e algumas casas têm detalhes próprios, como você verá abaixo, então vale perguntar ao dirigente qual é o costume da sua casa.
O espelho é vaidade? O que os estudos dizem
É comum ler que Oxum carrega o espelho porque é vaidosa. Os pesquisadores pedem cuidado com essa leitura. O artigo da Revista Calundu lembra que Oxum não pode ser confundida com Narciso, o personagem grego que se perdeu na própria imagem, e mostra Oxum e o seu abebé como belicosos, isto é, ligados também à luta e à defesa. Os autores citam a pesquisadora Carla Akotirene, para quem Oxum usa o abebé para enxergar o mundo às suas costas, e comparam o espelho à Sankofa, o símbolo africano do pássaro que olha para trás para construir o futuro.
O mesmo artigo resume dois itans (histórias sagradas) recolhidos por Reginaldo Prandi em Mitologia dos Orixás. Num deles, Oxum guardava espelhos de conchas polidas, e foi neles que Iansã (Oyá) descobriu a própria beleza. O artigo acrescenta que, nas religiões afro-brasileiras, Oxum Apará (Opará) se apresenta com dois espelhos, um que mostra só as coisas boas e outro que mostra só as ruins. A lição é clara: o abebé não serve só para se admirar, ele serve para ver a verdade, a de dentro e a de fora.
Como o abebé aparece na Umbanda
Na Umbanda, onde Oxum e Iemanjá estão entre os Orixás mais amados, o abebé aparece de várias formas:
- No congá: as imagens de Oxum e de Iemanjá costumam trazer o espelho na mão, dourado ou prateado.
- Nas giras: nas giras de Oxum e de Iemanjá, os pontos cantados e a dança lembram o gesto de olhar no espelho e de abanar as águas. Algumas casas entregam um abebé ao médium quando a Iabá está em terra; outras não usam ferramentas na gira. É costume de cada terreiro.
- Nos fios e pingentes: muitos filhos usam um pequeno abebé no fio de contas ou como pingente de devoção. Veja o que é o fio de contas e consulte o dirigente antes de consagrar qualquer peça.
- Nas festas: no 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, e nas festas de Iemanjá, o abebé é um dos símbolos mais vistos.
Para cantar para as donas do abebé, conheça os pontos Eu vi Mamãe Oxum na cachoeira e Iemanjá, rainha das ondas, sereia do mar.
Cuidados com o abebé
- Ferramenta consagrada é do Orixá: o abebé usado em assentamento ou entregue ao médium em terra não é brinquedo nem adorno comum. Não pegue nem use o abebé de outra pessoa sem permissão.
- Quem consagra é a casa: lavagem, firmeza e consagração seguem o fundamento do seu terreiro. Não existe uma regra única para todas as casas.
- Pingente comum também merece respeito: mesmo sem consagração, trate a peça com carinho, como um símbolo de devoção.
- Espelho quebrado: se um abebé ou espelho de devoção se quebrar, converse com o dirigente. Veja também o que diz a página sobre quebrar espelho.
Resumo
O abebé é o espelho em forma de leque das Iabás das águas. Dourado, é de Oxum, e fala do rio, do ouro, do mel e do amor. Prateado, é de Iemanjá, e fala do mar, da lua e da grande mãe. Mais do que vaidade, ele ensina a olhar para dentro, a enxergar o que vem por trás e a cuidar de quem a gente ama. Para continuar, leia sobre os Orixás da Umbanda, a oferenda de Oxum e o significado de sonhar com espelho.
Fontes e referências
- Leandro Tiago Ferreira e Mário de Faria Carvalho, Abebé de Oxum: exemplificações simbólicas do imaginário e saberes afrorreligiosos do Candomblé desde a estética, Revista Cadernos de Campo (Unesp), v. 24, n. esp. 1, 2024
- Mauricio dos Santos e Anaxsuell Fernando da Silva, Iyás e Abebés: existências, resistências e lutas matriarcais afrodiaspóricas, Revista Calundu (UnB), v. 4, n. 2, 2020
- Maria de Lurdes Barros da Paixão, O gestual cotidiano das lavadeiras e sua relação com os Orixás: uma concepção coreográfica, dissertação de mestrado, Unicamp, 2002
- Latin American and Iberian Institute, University of New Mexico, Brazil Slide Series: Collection Candomblé, slide 0056 (abebé de Iemanjá)
Perguntas frequentes
O que é o abebé?
Qual a diferença entre o abebé de Oxum e o de Iemanjá?
O que significa o espelho de Oxum?
Iemanjá também tem abebé?
Como se escreve, abebé ou abebê?
Posso usar um pingente de abebé?
Na Umbanda o médium usa abebé na gira?
Do que é feito o abebé?
O que fazer se o abebé quebrar?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
Leia também

Saudação a Oxum: o que significa Ora yê yê ô e como saudar Mamãe Oxum
Ler artigo →
Comida de Oxum na Umbanda: as frutas, as flores e os pratos que Mamãe Oxum gosta
Ler artigo →
Nossa Senhora Aparecida na Umbanda: o sincretismo com Oxum e o 12 de outubro
Ler artigo →
O que é fio de contas (guia) na Umbanda? Significado e cores
Ler artigo →
Os Orixás da Umbanda: quem são e o que cada um rege
Ler artigo →
Sincretismo: os Orixás e os santos católicos (Ogum é São Jorge?)
Ler artigo →Comentários
Deixe seu comentário
Comentários com links, ofensas ou spam não são publicados. O seu aparece após a moderação. Axé! 🙏
