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Umbanda Esotérica: o que é, quem fundou e o que muda na prática

Sete linhas com Yori e Yorimá, três roupagens de guias, gira sem atabaque e iniciação pelas mãos de um mestre. Entenda a escola criada por W. W. da Matta e Silva, continuada por F. Rivas Neto, e o debate sobre a relação dela com a Nova Era.

Por Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan·21 de outubro de 2026·9 min de leitura
Umbanda Esotérica: o que é, quem fundou e o que muda na prática
Resposta rápida

Sete linhas com Yori e Yorimá, três roupagens de guias, gira sem atabaque e iniciação pelas mãos de um mestre. Entenda a escola criada por W. W. da Matta e Silva, continuada por F. Rivas Neto, e o debate sobre a relação dela com a Nova Era.

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A Umbanda Esotérica é uma escola da Umbanda sistematizada pelo médium e escritor Woodrow Wilson da Matta e Silva (1917 a 1988), a partir do livro Umbanda de Todos Nós (1956), e continuada pelo seu sucessor, Francisco Rivas Neto. Ela se apoia na iniciação, na magia, na pemba e no oráculo de Ifá, organiza a religião em sete linhas (Orixalá, Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi, Yori e Yorimá) e trabalha com três roupagens de guias: Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças. É uma das várias Umbandas, não uma religião à parte.

Resposta rápida

  • O que é: uma escola (vertente) da Umbanda com doutrina, linha de transmissão e estilo de vida próprios.
  • Quem fundou: W. W. da Matta e Silva, pernambucano radicado no Rio de Janeiro, conhecido como Mestre Yapacany.
  • Livro de base: Umbanda de Todos Nós, publicado em 1956.
  • Sucessor: F. Rivas Neto (Mestre Arapiaga), fundador da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, em São Paulo.
  • Sete linhas: Orixalá, Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi, Yori (Crianças) e Yorimá (Pretos-Velhos).
  • Na gira: só Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças; sem atabaque; mediunidade de incorporação ativa.
  • Entrada: pela iniciação, aceita e conduzida pelo mestre ou por quem ele autoriza.

Umbanda Esotérica não é o mesmo que misturar Umbanda com práticas esotéricas da Nova Era: esse é justamente o ponto de um debate acadêmico que você vê mais abaixo.

O que é a Umbanda Esotérica

Os pesquisadores João Luiz Carneiro e Érica Jorge Carneiro (Revista Brasileira de História das Religiões, 2017) definem a Umbanda Esotérica como uma escola afro-brasileira com três marcas: uma doutrina própria, uma linha de transmissão dessa doutrina e um estilo de vida. Ela não se coloca contra as outras Umbandas: divide com elas o núcleo comum do culto aos Orixás, dos guias espirituais e do transe mediúnico, mas pratica tudo isso de um jeito próprio.

O nome vem da ideia de esotérico como aquilo que é interno, reservado. Para Matta e Silva e Rivas Neto, a iniciação permite penetrar em aspectos ocultos da tradição umbandista. Segundo os Carneiro, a base da doutrina é Ifá e a pemba: os livros dos dois sacerdotes trazem só a parte introdutória, e o conhecimento mais profundo fica restrito aos iniciados.

A expressão "umbanda esotérica" já circulava antes: aparece em discussões do Primeiro Congresso de Umbanda, em 1941, num texto de Osório Cruz de 1954 e no livro de Oliveira Magno de 1962. Mas, segundo os mesmos autores, foi Matta e Silva quem transformou a ideia numa escola de fato.

Quem fundou: W. W. da Matta e Silva

Woodrow Wilson da Matta e Silva nasceu no agreste de Pernambuco em 1917, viveu em Garanhuns e se mudou com a família para o Rio de Janeiro no início dos anos 1920. O historiador José Henrique M. Oliveira (UFRJ), que escreveu a sua biografia, conta que ele afirmava nunca ter pensado em escrever sobre Umbanda, até ser incentivado por uma "voz" a combater práticas que, para ele, ridicularizavam a religião.

Ele manteve um terreiro no bairro da Pavuna, no Rio, e depois se fixou em Itacuruçá, distrito de Mangaratiba (RJ), onde ficou até morrer, em 1988. Ali funcionava a Tenda Umbandista Oriental, e ali ele iniciou filhos e filhas vindos de vários estados. Os discípulos o chamavam de Mestre Yapacany.

A sua doutrina ficou registrada em nove livros, que muitos adeptos tratam como cânone:

  • Umbanda de Todos Nós (1956)
  • Umbanda: sua Eterna Doutrina (1957)
  • Lições de Umbanda e Quimbanda na Palavra de um Preto-Velho (1961)
  • Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda (1962)
  • Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda (1964)
  • Umbanda e o Poder da Mediunidade (1964)
  • Doutrina Secreta da Umbanda (1967)
  • Umbanda do Brasil (1969)
  • Macumbas e Candomblés na Umbanda (1970)

Umbanda de Todos Nós é o livro que melhor define a escola e, segundo Carneiro, o mais encontrado nos terreiros do Rio e de São Paulo.

Rivas Neto e a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino

Francisco Rivas Neto conviveu com Matta e Silva a partir de 1971. Antes, segundo Carneiro, ele foi iniciado no culto de nação, passou pelo candomblé de caboclo e pela Umbanda popular. No fim dos anos 1980 recebeu do mestre a chamada raiz, isto é, o comando da forma de praticar a Umbanda Esotérica, e passou a ser conhecido como Mestre Arapiaga. Formado em medicina, escreveu livros como Umbanda, a Proto-Síntese Cósmica, Umbanda, o Elo Perdido, Exu, o Grande Arcano e Fundamentos Herméticos de Umbanda.

Rivas Neto fundou em São Paulo a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino (1969, segundo Carneiro), terreiro com giras de atendimento público que, em 2003, passou a manter a Faculdade de Teologia Umbandista. Em 2014 inaugurou um templo da escola em Itanhaém (SP). Ele chamou a sua leitura de Umbanda Iniciática, dando mais peso às raízes africanas. Rivas Neto morreu em maio de 2018, segundo Oliveira.

Matta e Silva teve outros discípulos que também formaram linhagens. O mais antigo, Ivan Horácio Costa, chegou a Itacuruçá em 1963 e foi o primeiro a receber o grau de Mestre de Iniciação. Por isso há hoje mais de uma casa que se diz herdeira da Umbanda Esotérica.

As sete linhas da Umbanda Esotérica: Yori e Yorimá

Em Umbanda de Todos Nós, Matta e Silva propõe sete linhas, que ele chama de vibrações: Orixalá (Oxalá), Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi, Yori e Yorimá.

  • Yori é a linha em que se manifestam os espíritos de Crianças. Nas outras Umbandas, ela corresponde a Ibeji.
  • Yorimá é a linha dos Pretos-Velhos. Nas Umbandas populares, corresponde ao campo de Obaluaê e das Almas.

Segundo Oliveira, Matta e Silva dizia que esses dois nomes foram revelados pelo "Astral Superior", porque teriam se perdido quando uma tradição muito antiga, que ele chamava de Aumbandan, passou pela África. Para explicar a palavra Umbanda e os nomes dos Orixás, ele usou o "alfabeto adâmico" do Arqueômetro, obra do ocultista francês Saint-Yves d'Alveydre. É uma leitura própria dessa escola, que não é aceita pelas outras vertentes nem pelos historiadores.

Cada linha tem sete legiões. Cada legião teria 49 Orixás chefes de falange, que coordenam 343 chefes de subfalange, depois os guias, os chefes de agrupamento e, na base, os protetores. Compare com as outras versões em as sete linhas da Umbanda.

Astros, dias e cores de cada linha

Matta e Silva ligou cada linha a um astro, a um dia da semana e a uma cor, que ele relacionava aos chakras. Oliveira (2019) organizou essas correspondências assim:

  • Orixalá: Sol, domingo, branco.
  • Iemanjá: Lua, segunda-feira, amarelo.
  • Yori: Mercúrio, quarta-feira, vermelho.
  • Ogum: Marte, terça-feira, alaranjado.
  • Oxóssi: Vênus, sexta-feira, azul.
  • Xangô: Júpiter, quinta-feira, verde.
  • Yorimá: Saturno, sábado, violeta.

Essas cores rompem com a Umbanda popular, como observa o próprio Oliveira: nos terreiros em geral Iemanjá é azul ou prata, Ogum é vermelho, Oxóssi é verde e Xangô é marrom. Por isso, se você frequenta uma casa que não é de Umbanda Esotérica, siga as cores da sua casa. Veja as cores e os fundamentos de cada Orixá.

Como é uma gira de Umbanda Esotérica

  • Três roupagens de guias. Segundo Carneiro, só se apresentam Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças. Não há culto a Baianos, Boiadeiros ou Marinheiros.
  • Sem atabaque. Os instrumentos de percussão não são usados no ritual.
  • Mediunidade ativa. O transe é o principal contato entre o consulente e os guias, como em outras casas. Saiba mais sobre mediunidade na Umbanda.
  • Iniciação no centro. Todos entram como neófitos. Só é aceito quem o mestre-raiz permite, e só é iniciado quem passa pelos ritos feitos pelo mestre ou por um iniciado autorizado por ele.
  • Pemba e Ifá. Matta e Silva foi, segundo Carneiro, o primeiro a trazer o oráculo de Ifá como método umbandista próprio. A pemba, nessa escola, é também uma escrita sagrada de sinais. Veja o que é pemba e o ponto riscado.
  • Magia prática. Os consulentes procuram a casa para resolver problemas espirituais e materiais, como em qualquer terreiro.

Exu e Quimbanda na Umbanda Esotérica

Ao contrário da chamada Umbanda branca, que no começo do século XX deixou Exu à margem, Matta e Silva deu a ele grande importância. Para essa escola, a questão não é quem faz o bem ou o mal, mas como a justiça divina, que vem dos Orixás, é executada pelos Exus. Por isso, segundo Carneiro, se nas Umbandas mais cristãs a Umbanda fica com o "bem" e a Quimbanda com o "mal", na Umbanda Esotérica as duas aparecem em equilíbrio. Rivas Neto dedicou um livro inteiro ao tema, Exu, o Grande Arcano.

Diferenças para a Umbanda popular

  • Linhas: a esotérica tem Yori e Yorimá; muitas casas populares falam em linhas de Oxum, Iansã, Obaluaê, Almas ou Ibeji, e cada uma organiza do seu jeito.
  • Guias: três roupagens na esotérica; nas populares também giram Exus, Pombagiras, Baianos, Boiadeiros, Marinheiros, Ciganos e Malandros.
  • Música: sem atabaque na esotérica; com atabaques e curimba em grande parte das outras casas.
  • Cores: sistema próprio (Iemanjá amarelo, Oxóssi azul, Xangô verde).
  • Transmissão: muito ligada a livros e à iniciação por um mestre; nas populares pesa mais a tradição oral de cada terreiro.

Nenhuma é melhor que a outra. Para comparar com outras religiões, veja Umbanda e Candomblé e Umbanda e Espiritismo.

Umbanda Esotérica é Nova Era? O debate

Esse é o ponto mais discutido pelos pesquisadores.

  • Leitura da Nova Era. O antropólogo Silas Guerriero (2009) vê a Umbanda Esotérica como uma nova configuração influenciada pelo ocultismo, pela Rosa-Cruz e pela teosofia, e Amurabi Oliveira (2014) segue em parte essa linha. Bianca Zacarias França (UFMG), em etnografia de um terreiro de Belo Horizonte publicada na revista Calundu (UnB, 2019), também analisa a Umbanda Esotérica no contexto da Nova Era.
  • Resposta dos Carneiro. Para eles, a escola de Matta e Silva existe em livro desde os anos 1950, antes da Nova Era, e não usa conceitos desse movimento. Lembram que o próprio Rivas Neto negou ligação com a teosofia e que a magia praticada é umbandista, voltada para problemas concretos.
  • Nome x escola. Os Carneiro também alertam: muitas casas se chamam "esotéricas" sem ter ligação com a linhagem de Matta e Silva. O nome sozinho não diz a qual escola a casa pertence.

Oliveira (2019), por sua vez, mostra que Matta e Silva usou referências como os chakras da tradição hindu e o Arqueômetro de Saint-Yves para montar o seu sistema. Ou seja: há elementos esotéricos europeus e orientais nos livros, e há também uma prática de terreiro afro-brasileira. Os dois lados do debate concordam que é Umbanda.

Como saber se uma casa é de Umbanda Esotérica

Pergunte ao dirigente de quem a casa recebeu a raiz: se a linhagem vem de Matta e Silva, por Rivas Neto ou por outro discípulo dele. Observe também a gira: só Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças, ausência de atabaque e um caminho de iniciação conduzido por um mestre são sinais típicos. Se a casa só usa o nome, ela pode seguir outra vertente, o que não a torna menos legítima. Na dúvida, leia o que é a Umbanda e os Orixás da Umbanda.

Resumo

Umbanda Esotérica é a escola de Umbanda criada por W. W. da Matta e Silva, registrada em Umbanda de Todos Nós (1956) e continuada por F. Rivas Neto. Ela tem sete linhas com Yori e Yorimá, três roupagens de guias, gira sem atabaque, base em Ifá e na pemba e acesso pela iniciação. Se a sua relação com a Nova Era é tema de debate entre pesquisadores, o seu lugar dentro da Umbanda não é.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

O que é Umbanda Esotérica?
É uma escola da Umbanda sistematizada por W. W. da Matta e Silva a partir do livro Umbanda de Todos Nós (1956) e continuada por F. Rivas Neto. Tem doutrina própria baseada em Ifá e na pemba, sete linhas com Yori e Yorimá, três roupagens de guias e acesso pela iniciação.
Quem fundou a Umbanda Esotérica?
Woodrow Wilson da Matta e Silva (1917 a 1988), médium pernambucano radicado no Rio de Janeiro, conhecido como Mestre Yapacany. Ele trabalhou em Itacuruçá, distrito de Mangaratiba (RJ), e escreveu nove livros sobre a sua doutrina.
Quem foi Rivas Neto?
Francisco Rivas Neto foi o sucessor de Matta e Silva, que lhe transmitiu a raiz no fim dos anos 1980. Fundou a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, em São Paulo, e a Faculdade de Teologia Umbandista. Chamou a sua leitura de Umbanda Iniciática e morreu em 2018.
Quais são as sete linhas da Umbanda Esotérica?
Orixalá (Oxalá), Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi, Yori e Yorimá. Yori é a linha das Crianças e Yorimá a dos Pretos-Velhos. Cada linha se divide em sete legiões.
O que é Yorimá na Umbanda?
Yorimá é, na Umbanda Esotérica, a linha em que trabalham os Pretos-Velhos. Nas Umbandas populares, esse campo costuma ser ligado a Obaluaê e às Almas.
Na Umbanda Esotérica tem Exu?
Sim. Matta e Silva deu a Exu grande importância, como executor da justiça divina que vem dos Orixás. Mas, na gira, os guias que se apresentam são só Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças.
Na Umbanda Esotérica tem atabaque?
Não. Segundo os pesquisadores João Luiz e Érica Carneiro, os instrumentos de percussão como o atabaque não são usados no ritual da Umbanda Esotérica.
Umbanda Esotérica é Nova Era?
Há debate. Pesquisadores como Silas Guerriero a ligam à Nova Era, enquanto João Luiz e Érica Carneiro mostram que ela existe desde os anos 1950 e não usa conceitos desse movimento. Os dois lados concordam que é uma forma de Umbanda.
Qual a diferença entre Umbanda Esotérica e Umbanda Sagrada?
A Umbanda Esotérica vem de W. W. da Matta e Silva e Rivas Neto, com Yori e Yorimá e base em Ifá e na pemba. A Umbanda Sagrada foi sistematizada por Rubens Saraceni, a partir dos anos 1990, com uma teologia própria dos Orixás e dos tronos. São escolas diferentes.
Axé Umbanda
Escrito porWeverton Pansan e Maria Amélia Pansan

Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.

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Conteúdo informativo e de fé, escrito com respeito à tradição e baseado nas fontes citadas. A Umbanda varia de casa para casa; em caso de dúvida, procure sempre o dirigente do seu terreiro. Este texto não substitui orientação médica, jurídica ou psicológica.
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