
Parece só um bater de palmas, mas é um rito. Entenda o que é o paó, de onde vem a palavra, por que o iniciado em recolhimento falava com as mãos, como é o ritmo mais conhecido, quando ele aparece na gira e por que cada casa bate de um jeito.
Paó é uma sequência ritmada de palmas usada nas religiões de matriz africana para saudar os Orixás, pedir licença, agradecer e se comunicar sem palavras. Também escrito paô e, na forma iorubá, pawo, ele nasceu no Candomblé e aparece em muitas casas de Umbanda, sobretudo nas de raiz africana. Neste artigo você entende o que o paó significa, como se bate, quando ele é usado e por que o ritmo muda de uma casa para outra.
Resposta rápida
Paó é o bater de palmas sagrado do terreiro. Na forma mais conhecida, são três palmas seguidas de sete, e esse conjunto é repetido três vezes.
Ele expressa respeito e reverência ao Orixá, pede bênção, abre ou encerra uma reza e, no passado, era a forma de o iniciado em recolhimento chamar alguém sem falar. O ritmo e o momento de bater variam conforme a nação e a casa.
O que é o paó, em poucas palavras
Para quem chega de fora, o paó parece um aplauso. Para o povo de santo, é outra coisa: um gesto compassado, feito com intenção, que coloca a pessoa em atitude de respeito diante do sagrado.
As palmas não são batidas de qualquer jeito. Há um ritmo, há pausas e há o momento certo de começar e de parar. Por isso muitos zeladores chamam o paó de sagrado bater de palmas.
Ele é democrático: o visitante, o filho recém iniciado e o mais velho da casa podem bater paó. O que muda é o momento e a forma que cada terreiro ensina.
De onde vem a palavra paó
O termo vem do iorubá. Uma explicação difundida entre zeladores diz que pawo é forma abreviada de ìpatéwo, que quer dizer aplauso, bater palmas com as mãos.
Outros estudiosos da língua leem a palavra como a junção de pa, juntar uma coisa com outra, e ó, cumprimentar. Nessa leitura, o paó é uma saudação que junta as mãos para despertar na Terra a energia do Orixá.
Há ainda uma imagem poética muito repetida nos terreiros: o som do paó lembra a chuva caindo e batendo no barro, fazendo a natureza germinar e criar vida. Essas leituras convivem, e nenhuma delas é a única certa.
O paó e o silêncio do iniciado
Um dos usos mais antigos do paó vem da iniciação no Candomblé. Durante o recolhimento na camarinha, o iaô, como é chamado o recém iniciado, muitas vezes não tinha permissão para falar.
Quando precisava de algo, ele batia paó. As palmas faziam o papel da voz, chamando a atenção de quem cuidava dele no terreiro.
Hoje essa regra é menos rígida em muitas casas, e o iniciado pode conversar com quem acompanha a sua preparação. Mesmo assim, o costume ensina algo bonito: o paó nasce do respeito e da humildade de quem está aprendendo.
Como se bate o paó
A forma mais citada é esta:
- Três palmas marcadas, com um pequeno intervalo.
- Sete palmas em seguida, num ritmo um pouco mais corrido.
- O conjunto se repete três vezes, com pausa entre uma rodada e outra.
Esse é apenas o padrão mais conhecido. O ritmo muda bastante de nação para nação. Há casas que batem três e depois seis palmas, outras que batem três e sete, e linhagens que batem só três palmas, diminuindo a força até o som sumir.
Nas casas de raiz Angola, onde se cultuam os Nkisis, o paó também está presente, com o sentido de louvor, agradecimento e pedido de bênção. Se você frequenta um terreiro, o jeito certo de bater é o jeito que a sua casa ensina. Observe os mais velhos e repita com calma.
Quando o paó é usado
O paó aparece em vários momentos da vida do terreiro. Os mais comuns são:
- Para saudar o Orixá, diante do congá, do assentamento ou da presença do Orixá incorporado.
- Para pedir bênção ao próprio Orixá e aos mais velhos da casa.
- Antes e depois de rezas, oferendas e obrigações, abrindo e fechando o momento sagrado.
- Para agradecer, quando um rito termina bem ou uma resposta do obi confirma que a oferenda foi aceita.
- Para chamar alguém sem falar, sobretudo durante o recolhimento.
Os zeladores lembram que o paó tem um sentido quando antecede um ritual e outro quando o encerra, assim como acontece com o gesto de bater cabeça.
O que o paó comunica
Quando o filho bate paó diante do Orixá, ele está dizendo sem palavras: aqui estou para reverenciar você, olhe por mim. É uma forma de se colocar pequeno diante do mistério e, ao mesmo tempo, de despertar e chamar a força do Orixá.
Por isso o paó não combina com pressa nem com distração. Uma palma batida com respeito vale mais que muitas batidas no automático.
Também é por isso que ele é diferente do aplauso comum. No terreiro não se aplaude uma entidade como quem aplaude um show; quando a casa bate palmas fora do ritmo do paó, é para acompanhar os pontos, e não para festejar alguém.
O paó na Umbanda
A Umbanda é plural, e o paó segue essa pluralidade:
- Casas de raiz africana, como as de Omolocô e as que fazem bori e obrigações aos Orixás, costumam bater paó para saudar o Orixá, agradecer e encerrar rezas.
- Muitas casas de Umbanda não usam o paó como rito. Nelas, as palmas aparecem acompanhando os pontos cantados e a curimba, marcando o ritmo da gira.
- Algumas casas usam o paó só em momentos especiais, como a saudação ao Orixá do dia ou o fim de uma obrigação.
Nenhum desses caminhos é mais verdadeiro que o outro. Se a sua casa bate paó, aprenda o ritmo dela; se não bate, a sua saudação continua valendo. Para conhecer outras formas de reverência, leia sobre as saudações da Umbanda.
Cuidados e boas maneiras
- Observe antes de bater. Na primeira visita, espere os mais velhos começarem e acompanhe. Ninguém espera que o visitante saiba o ritmo.
- Não interrompa o silêncio. Há momentos em que a casa pede quietude total, e o paó tem a hora certa.
- Não transforme em aplauso. Palmas soltas e barulhentas no meio de um rito podem atrapalhar a concentração da corrente.
- Pergunte quando tiver dúvida. O dirigente, o ogã ou a equede podem ensinar o modo da casa. Perguntar é sinal de respeito.
Em resumo
Paó é o sagrado bater de palmas das religiões de matriz africana, usado para saudar e reverenciar o Orixá, pedir bênção, abrir e encerrar rezas e agradecer. Na forma mais conhecida são três palmas seguidas de sete, repetidas três vezes.
Nasceu no Candomblé, onde também servia de voz ao iniciado em recolhimento, e aparece em muitas casas de Umbanda de raiz africana. O ritmo varia entre nações e terreiros, e o jeito certo é sempre o que a sua casa ensina. Axé!
Fontes e referências
Perguntas frequentes
O que é paó?
Como se bate o paó?
O que significa a palavra paó?
Para que serve o paó?
Por que o iaô bate paó?
Paó é usado na Umbanda?
Paó é a mesma coisa que aplaudir?
Visitante pode bater paó?
Qual a diferença entre paó e bater cabeça?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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