
Uma semente africana de sabor amargo, que não se abre em gomos e que o rei de Oyó prefere ao obi. Entenda o que é o orobô, de onde ele vem, por que é ligado a Xangô, como as casas o usam no bori, nas oferendas e na consulta, e quais cuidados ele pede.
Orobô é a semente da cola amarga africana, fruto sagrado das religiões de matriz africana e o preferido de Xangô, que o recebe no lugar do obi. Também chamado orobó e, em iorubá, orógbó, ele veio da África Ocidental com os povos iorubás e firmou lugar no Candomblé, aparecendo também em casas de Umbanda de raiz africana. Neste artigo você entende o que é o orobô, por que ele pertence a Xangô, como entra no bori, nas oferendas e na consulta, e em que ele difere do obi.
Resposta rápida
Orobô é a semente da Garcinia kola, a cola amarga, fruto sagrado de origem africana. É o fruto de Xangô por excelência: nas casas de tradição iorubá se ensina que Xangô não come obi, e por isso recebe orobô no lugar dele.
O orobô também é oferecido a outros Orixás, entra no bori pedindo saúde e vida longa e pode ser usado em consultas de sim e não. Na Umbanda o uso varia muito: aparece sobretudo nas casas de raiz africana, e muitas outras nunca o utilizam.
O que é o orobô, em poucas palavras
Botanicamente, o orobô é a semente da Garcinia kola, uma árvore da família das clusiáceas, nativa das florestas úmidas da África Ocidental e Central, de países como Nigéria, Benim, Gana, Camarões e Serra Leoa. Em português ela é conhecida como cola amarga ou falsa noz de cola, e em inglês como bitter kola.
O fruto lembra um pêssego, e dentro dele ficam as sementes, que são a parte usada no rito. Elas têm casca escura, polpa clara e sabor bem amargo, bem diferente do obi.
Há séculos o orobô é mascado na África e usado na medicina popular. Para o povo de santo, porém, ele não é só um fruto: é alimento de axé e ponte com o sagrado. Chegou ao Brasil com os africanos escravizados e ainda hoje vem, em boa parte, importado.
Por que o orobô é o fruto de Xangô
A ligação entre o orobô e Xangô é uma das mais firmes do culto aos Orixás. Um dito iorubá registrado nos dicionários resume isso: Xangô não come obi, ele tem olhos para o orógbó.
Por isso, nas casas de tradição iorubá, tudo o que para outros Orixás se faz com obi, para Xangô se faz com orobô: a oferenda, a confirmação e o agrado. Os mais velhos explicam também que o orobô é uma semente quente, de natureza próxima ao fogo e ao trovão do rei de Oyó.
Em algumas casas se ensina ainda que, no culto a Xangô, os orobôs representam as pedras de raio, o símbolo mais forte do Orixá. Esse sentido, porém, é transmitido dentro do fundamento de cada casa, e não há uma leitura única.
A quem mais o orobô é oferecido
Xangô é o dono principal, mas o orobô não é exclusivo dele. Conforme a raiz da casa, ele é oferecido também a:
- Iansã, companheira de Xangô e senhora dos ventos.
- Obaluaê e Ogum, em muitas casas de Candomblé.
- Ancestrais, em tradições que cultuam os eguns, onde o orobô costuma representar a descendência da família.
Isso varia bastante. Há casas que separam com rigor o que é de Xangô e o que é dos mortos, e outras que trabalham de forma diferente. Também há pessoas e Orixás para quem determinado fruto é quizila. Quem define a quem se oferece orobô é o dirigente da casa, não uma lista da internet.
Para que serve o orobô no terreiro
Os usos mais citados pelas casas são estes:
- No bori. No rito de dar comida à cabeça, o orobô é oferecido ao Ori pedindo saúde, alegria, boa sorte e vida longa. Para filhos de Xangô, em muitas casas, ele ocupa o lugar que o obi ocupa para os demais.
- Nas oferendas. Entra nas comidas e agrados de Xangô e de outros Orixás, ao lado de pratos como o amalá. Algumas casas usam o orobô até no preparo de certas comidas sagradas.
- Em obrigações e assentamentos. Acompanha obrigações e o assentamento de Xangô, segundo o fundamento da casa.
- Para dar força à palavra. Em algumas tradições, um pedacinho de orobô ou de obi é mascado com pimenta da costa antes de rezas, cantigas e pedidos, para que a palavra saia com axé.
O que vai junto, em que ordem e com quais rezas pertence a cada terreiro. Este artigo explica o sentido, mas não transforma rito de casa em receita caseira.
O orobô também responde perguntas
Assim como o obi, o orobô pode ser usado como oráculo de sim e não. O zelador reza, faz a pergunta e lança os pedaços, lendo a resposta pela posição em que caem.
A diferença é que o orobô não se divide em gomos naturais, como o obi. Por isso ele é aberto de outro modo, conforme o fundamento de cada casa, e a leitura das caídas também muda de tradição para tradição.
Em casas que cultuam Xangô com rigor, é o orobô que confirma se o Orixá aceitou a oferenda. Em outras, ele é lançado junto com o obi para reforçar a resposta, e na falta de obi pode ser usado sozinho. Seja como for, essa consulta é feita por quem tem fundamento, como o pai de santo ou a mãe de santo.
Orobô e obi: qual a diferença
Os dois aparecem juntos e são confundidos com frequência, mas são frutos diferentes:
- Planta. O obi é a noz de cola verdadeira, do gênero Cola. O orobô é a semente da Garcinia kola, de outra família botânica.
- Sabor. O obi é levemente amargo e adstringente. O orobô é bem mais amargo, daí o nome cola amarga.
- Forma. O obi se abre em gomos naturais, e o de quatro gomos é o preferido. O orobô não tem gomos.
- A quem pertence. O obi é oferecido ao Ori e a vários Orixás. O orobô é o fruto de Xangô, que não come obi, e de outros Orixás conforme a casa.
Os dois são sagrados, e um não é melhor que o outro. Para saber mais sobre o primeiro, leia o que é obi.
O orobô na Umbanda
Muitos sacerdotes de Candomblé lembram que o orobô é fundamento do culto aos Orixás de tradição africana e não faz parte dos ritos de toda Umbanda. Na prática, a Umbanda é plural:
- Casas de raiz africana, como as de Umbanda Omolocô e as que fazem bori, costumam usar orobô nas obrigações e oferendas a Xangô.
- Muitas casas de Umbanda não usam orobô e homenageiam Xangô com velas, flores, frutas, ervas e pontos cantados.
- Algumas casas colocam orobô apenas no agrado a Xangô, em datas especiais como a festa do Orixá.
Nenhum desses caminhos é mais verdadeiro que o outro. Se a sua casa usa orobô, siga o modo que ela ensina; se não usa, o seu axé continua inteiro.
Cuidados importantes
- Não jogue orobô por conta própria. A consulta com o fruto é rito de fundamento, com reza e preparo, feita por quem a casa autorizou.
- Não improvise bori em casa. Dar comida à cabeça é rito do terreiro, com resguardo e orientação.
- Cuidado ao comer orobô. A cola amarga é usada na medicina popular africana e tem substâncias ativas. Gestantes, quem toma remédios de uso contínuo ou tem problemas de saúde deve ter cautela. Esta informação não substitui orientação médica.
- Compre de fonte confiável. Orobô mofado, furado ou muito velho não serve para oferenda.
- Desconfie de promessas. Quem vende consulta com resultado garantido não segue fundamento.
Em resumo
Orobô é a semente da cola amarga africana, fruto sagrado de Xangô, que o recebe no lugar do obi. Ele entra no bori pedindo saúde e vida longa, acompanha oferendas e obrigações, pode ser oferecido a outros Orixás conforme a casa e também responde perguntas de sim e não.
Não tem gomos como o obi e é bem mais amargo. Na Umbanda aparece sobretudo nas casas de raiz africana, e só o dirigente da sua casa pode orientar o seu uso com segurança. Kaô Kabecilê!
Fontes e referências
Perguntas frequentes
O que é orobô?
Orobô é de qual Orixá?
Qual a diferença entre obi e orobô?
Por que Xangô não come obi?
Para que serve o orobô no bori?
Orobô se usa na Umbanda?
Como se joga orobô?
Posso colocar orobô na oferenda de Xangô em casa?
Comer orobô faz mal?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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