
Quizila é a proibição ritual de cada Orixá e de cada filho de santo: comida, cor, bebida, folha ou atitude que contraria o axé. Entenda o que é, exemplos conhecidos, de onde vem a palavra e como se descobre a quizila de alguém.
Quizila, também escrita kizila e traduzida no iorubá como èèwò, é a proibição ritual daquilo que contraria o axé de um Orixá ou de um filho de santo. Pode ser uma comida, uma bebida, uma cor de roupa, uma folha, um animal ou até uma atitude. Respeitar a quizila é parte do preceito, e cada casa e cada pessoa tem a sua.
O que é quizila
Quizila é tudo aquilo que, na tradição, produz reação contrária ao axé. Se o axé é a força vital que circula no rito, na folha, na comida e na pessoa, a quizila é o que atravessa essa força e desorganiza. Os mais velhos costumam explicar de um jeito bem direto: quizila é o que desagrada o Orixá e o que desarranja o filho.
A palavra chega ao português brasileiro pelas línguas bantas, do quimbundo e do quicongo, e no vocabulário popular ganhou até uso fora da religião: quando alguém diz que tem quizila com uma pessoa, está dizendo que sente antipatia, incômodo, algo que não combina. No terreiro o sentido é o mesmo, aplicado ao rito. No vocabulário iorubá, a palavra correspondente é èèwò, que nomeia igualmente aquilo que é interditado.
Vale dizer com clareza uma coisa que confunde muita gente: quizila não é superstição avulsa nem regra inventada para controlar ninguém. É um sistema de compatibilidade energética dentro da lógica própria da religião, aprendido aos poucos e transmitido oralmente pelo dirigente da casa.
De onde vem a quizila de cada Orixá
Em quase todos os casos, a quizila nasce de um itan, uma narrativa da tradição que conta um episódio da vida daquele Orixá. Alguma coisa aconteceu, alguém foi enganado, ferido ou desrespeitado por meio de determinado elemento, e aquele elemento passou a ser interditado para sempre no culto.
É por isso que a explicação de uma quizila quase nunca é uma regra seca. É uma história. Quem pergunta por que o mel é proibido para Oxóssi não recebe como resposta uma lista, recebe o relato de um engano feito com mel. O fundamento se guarda contando, e é assim que ele atravessa gerações.
Há também quizilas que vêm da natureza do próprio Orixá, sem episódio narrado: o que é frio não combina com quem é quente, o que é de dendê não combina com quem é de puro branco, o que é de sangue não entra onde só entra o vegetal. E há, por fim, quizilas de casa: fundamentos particulares de um terreiro, de uma nação ou de uma linhagem, que valem ali e não valem necessariamente em outro lugar.
Exemplos de quizila mais conhecidos
Os exemplos a seguir são os mais citados nas listas que circulam em terreiros e em publicações de tradição. Eles servem para você entender a lógica, e não como cartilha: a sua quizila é a que a sua casa ensinar.
- Ogum e o quiabo. É a quizila mais famosa de todas. O quiabo é interditado a Ogum e a explicação mais contada envolve a baba escorregadia da verdura, incompatível com o Orixá do ferro, da firmeza e do corte.
- Oxóssi e o mel. O mel é quizila de Oxóssi e também de Logun Edé em muitas casas, ligada ao itan do engano feito com mel. Quem oferece a Oxóssi troca o mel por outro elemento doce, conforme o fundamento da casa.
- Oxalá e o dendê. A Oxalá se oferece o branco: canjica, coco, água. O azeite de dendê e as bebidas alcoólicas ficam de fora, assim como o sal em muitas preparações.
- Iansã e a abóbora. Muitas casas guardam a interdição da abóbora para Iansã, e algumas ampliam para não manter a fruta dentro de casa.
- Iemanjá e o peixe. Em diversas casas, filhos de Iemanjá evitam determinados peixes, sobretudo os que a tradição da casa considera ligados ao mistério dela.
- Cores e materiais. Além de comida, a quizila alcança cor de roupa, tipo de tecido, metal e adorno. Há filhos que não vestem determinada cor em dia de gira e casas que não permitem certos materiais no congá.
Repare que quase todas essas interdições aparecem com variação de casa para casa. Isso não é falha de informação: é a marca de uma religião de transmissão oral, com raízes africanas diversas e desenvolvimento brasileiro próprio.
Quizila do Orixá e quizila do filho
São duas coisas diferentes e a confusão entre elas é a dúvida mais comum de quem está começando.
A quizila do Orixá diz respeito ao culto: o que não se coloca na oferenda dele, o que não entra na comida de santo, o que não se usa no assentamento. Ela vale para quem prepara e para quem entrega, independentemente de quem seja o filho.
A quizila do filho é pessoal. Nasce da ligação daquela pessoa com o Orixá dela e às vezes com os guias que trabalham por ela, e pode incluir alimento que ela deixa de comer, bebida que não toma, cor que não veste e situação que evita. É essa que costuma ser identificada ao longo do tempo, pela mão do dirigente.
Há ainda um terceiro nível, o da quizila da casa: normas que valem para todo mundo naquele terreiro, como não entrar de sapato em determinado espaço, não usar preto na gira, não levar certo tipo de bebida. Não é preciso concordar com o fundamento de outra casa, basta respeitar quando você estiver nela.
Como se descobre a sua quizila
Não se descobre pela internet, e esse é o ponto mais importante deste artigo. Nenhuma lista, nenhum vídeo e nenhum site, inclusive este, pode dizer qual é a sua quizila, porque ela depende do seu Orixá, do seu histórico e do fundamento da casa que te acompanha.
Na prática, ela aparece por três caminhos que se somam:
Pelo jogo e pela orientação do dirigente. É o caminho principal. Ao longo da caminhada, o Pai ou a Mãe de Santo vai informando o que a pessoa deve resguardar, geralmente aos poucos, conforme ela avança nas obrigações.
Pela observação da própria vida. Muita gente já chega ao terreiro com uma repulsa antiga e inexplicável por determinada comida ou cheiro. A tradição costuma ler isso como quizila que o corpo já sinalizava antes de qualquer explicação.
Pela reação depois de um episódio. Quando a pessoa passa a se sentir mal, irritada ou desarrumada depois de consumir ou usar algo repetidamente, a casa avalia se ali existe uma interdição.
O bom senso vale sempre: reação física a alimento pode ser alergia ou intolerância, e isso é assunto de médico, não de terreiro. Uma coisa não exclui a outra.
O que acontece se a quizila for quebrada
Aqui é preciso separar o que a tradição diz do que o medo faz as pessoas imaginarem. Não existe punição divina esperando ninguém, e casa séria não trabalha com ameaça.
O que a tradição descreve é desarranjo. Fala-se em irritação sem motivo, confusão, sono ruim, atrito com quem está perto, sensação de que nada anda, dificuldade na incorporação para quem é médium. É o mesmo vocabulário usado para explicar o preceito quebrado: não castigo, e sim perda de sintonia.
E o caminho de volta é simples. Reconhecer, contar ao dirigente e retomar. Em muitos casos a orientação é apenas um banho, uma vela, alguns dias de resguardo. Em outros, nada além de voltar a respeitar. Ninguém é expulso da fé por um deslize, e quem transforma quizila em instrumento de medo, ou cobra caro para desfazer o suposto estrago, está errado.
Quizila na Umbanda e no Candomblé
O tema é muito mais desenvolvido no Candomblé, onde o culto aos Orixás é mais extenso, com assentamentos, comidas de santo elaboradas e iniciação longa. A Umbanda herdou parte desse vocabulário e o adaptou.
Na maioria das casas de Umbanda, as quizilas aparecem de forma mais enxuta e mais prática, concentradas em três frentes: o que não se oferece a determinado Orixá, o que o médium resguarda no preceito e o que a casa não admite na gira. Há terreiros de Umbanda que praticamente não usam o termo, preferindo falar em preceito, resguardo ou fundamento da casa, e isso não significa que estejam errados.
Por isso a resposta honesta para quase toda pergunta sobre quizila termina do mesmo jeito: depende da sua casa. Quem determina é o dirigente que te acompanha, e não a lista mais compartilhada do momento.
Dúvidas comuns de quem está chegando
Quem não é iniciado precisa seguir quizila? Em geral, não. Ao visitante e ao consulente se pede bom senso e respeito às regras do local. As quizilas pessoais surgem com a caminhada.
Quizila é a mesma coisa que ser alérgico? Não. São ordens diferentes de explicação e podem coincidir, mas alergia e intolerância são diagnóstico de saúde e pedem médico. A religião não substitui isso em nenhuma hipótese.
Preciso decorar listas? Não. Quem cozinha comida de santo e quem monta oferenda precisa saber o que entra e o que não entra naquele fundamento, e isso se aprende no fazer, junto de quem já sabe. Decorar lista de internet costuma gerar mais insegurança do que fundamento.
Fontes e referências
- Quizilas dos Orixás da Umbanda, Raízes Espirituais
- Quizilas dos Orixás, Kizila ou Èèwò, Orixás e entidades da Umbanda e do Candomblé
- O que são as quizilas dos Orixás, Cantinho de Oxalá
- Quizilas na Umbanda, Axé News
- Quiabo, a quizila de Ogum, Conversando sobre a Umbanda
- As quizilas de santo, Candomblé uma família de axé
Perguntas frequentes
O que é quizila na Umbanda?
O que significa a palavra quizila?
Quais são as quizilas mais conhecidas dos Orixás?
Por que o quiabo é quizila de Ogum?
Como saber qual é a minha quizila?
O que acontece se eu quebrar uma quizila?
Quem não é iniciado precisa respeitar quizila?
Quizila é a mesma coisa que alergia alimentar?
Existe diferença entre quizila e preceito?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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