
Egun ou egum é o espírito de uma pessoa que morreu. Entenda o que a Umbanda ensina sobre eguns, a diferença entre egum, kiumba e guia, por que não se deve ter medo e o que é o culto de Egungun no Candomblé.
Egun, também grafado egum, é uma palavra de origem iorubá que significa espírito de um morto. Na Umbanda, é assim que se chama o espírito de uma pessoa que desencarnou e continua ligada ao plano da matéria. É um dos termos que mais gera medo em quem chega ao terreiro, e também um dos mais mal explicados na internet. Este artigo separa o que é tradição, o que é confusão e o que é outro culto inteiro, o Egungun do Candomblé.
O que é egun ou egum
Egun vem do iorubá e quer dizer, literalmente, espírito de um morto. Você vai encontrar as grafias egum, egun e egungun: na Umbanda predominam egum e egun, e no Candomblé usa-se egungun, que é a forma ligada ao culto formal aos ancestrais. São palavras da mesma raiz, escritas de jeitos diferentes conforme a tradição e a região.
Na leitura mais difundida da Umbanda, egum é o espírito de uma pessoa que morreu e ficou presa ao plano terrestre, ligada a uma dor, a uma raiva, a um arrependimento ou a um apego. Muitos sequer entenderam que morreram. Não é um monstro, não é um demônio e não é uma força do mal: é gente, com a mesma confusão que tinha em vida, só que sem corpo.
Duas definições que convivem nos terreiros
Aqui é preciso honestidade, porque há duas leituras em casas igualmente sérias, e apresentar só uma como verdade absoluta seria empobrecer o assunto.
- Primeira leitura: egum é o espírito desencarnado comum, sem luz, sofredor ou confuso, ainda ligado à matéria. É a definição mais popular na Umbanda.
- Segunda leitura: egum é apenas o espírito em trânsito de um plano a outro, com algum grau de evolução e sem intenção de prejudicar ninguém. Nessa corrente, quem causa dano é o kiumba, também escrito quiumba, espírito de baixíssima evolução que não aceitou o desencarne, se fixa em pessoas e ambientes densos e se alimenta da energia alheia.
A segunda leitura traz uma frase que desmonta boa parte do medo: todos nós, em algum momento, seremos eguns transitando de um plano para outro. Inclusive os guias que trabalham nos terreiros já foram encarnados um dia.
Há ainda a leitura ancestral, que divide os eguns em individuais, ligados à própria família, coletivos, ligados à memória de uma comunidade, e em sofrimento, que são os que precisam de luz.
Qual a diferença entre egum e guia
Essa é a dúvida mais comum de quem chega ao terreiro, e a resposta é direta. Guias como Caboclos, Pretos-Velhos, Erês, Baianos, Marinheiros e Exus são espíritos que já alcançaram um patamar de trabalho e de caridade. Atuam com ordem, hierarquia e finalidade, conduzem a gira e orientam inclusive os próprios eguns.
Egum, na primeira acepção, é o espírito que precisa de ajuda, não o que presta ajuda. É quem chega ao terreiro para ser socorrido.
E um alerta importante: Exu não é egum. Exu é mensageiro e guardião dos caminhos, entidade de trabalho dentro da Umbanda. Confundir Exu com espírito sem luz é o erro mais repetido pelo público e uma das raízes do preconceito contra a religião.
Egun na Umbanda e Egungun no Candomblé: não é a mesma coisa
Este é o ponto que a internet brasileira mais erra. Na Umbanda não existe culto formal a egum. O que existe é assistência caritativa: doutrinação, encaminhamento, oração, pedido de luz e lembrança respeitosa de quem partiu.
No Candomblé, o culto de Egungun é outra coisa inteiramente: um culto cerimonial e organizado aos ancestrais masculinos, originário da região de Oyó, no império Nagô, implantado no Brasil no início do século XIX. Segundo o itã, Xangô é o fundador do culto. Ali o egum não é espírito sem luz: é ancestral cultuado, que se manifesta paramentado e visível, e não incorporando em médium como na Umbanda.
O culto tem hierarquia própria, com cargos como Alapini, o sacerdote supremo, Alabá, Atokun e Ojé, e usa o ixan, a vara ritual com que se bate no chão para invocar e conduzir o egum. O centro do culto no Brasil é a ilha de Itaparica, na Bahia, com terreiros históricos como o Vera Cruz, o Mocambo, o Encarnação e o Tuntum, e casas hoje ativas como o Ilê Aboulá, em Ponta de Areia. É um culto iniciático e restrito, e o correto é descrevê-lo de fora, com respeito, sem pretender ensinar fundamentos que não são públicos.
Como a Umbanda lida com os eguns
Não se expulsa egum com força nem com gritaria. Doutrina-se, que é conversar, esclarecer e encaminhar. As práticas mais usadas são:
- Giras de descarrego: trabalhos específicos para limpar energias e orientar os espíritos que chegam.
- Prece: a oração feita com sinceridade é a primeira ferramenta, dentro e fora do terreiro. Veja as rezas da Umbanda.
- Defumação: com ervas e resinas como benjoim, incenso, mirra, alfazema, arruda e guiné, para elevar a vibração do ambiente.
- Banho de ervas de descarga: erva macerada com as mãos em água fresca, coada e derramada do pescoço para baixo.
- Pontos cantados e passes: que firmam a corrente e amparam quem está carregado.
O eixo de tudo é a caridade. Encaminhar um espírito à luz é ato de amor que beneficia os dois lados, o que socorre e o que é socorrido.
Por que não se deve ter medo de egum
Três razões, e nenhuma delas é bravata.
Primeira: egum é gente. É uma pessoa que morreu e carrega dor, confusão e saudade. Muitos são parentes nossos. O medo de egum, no fundo, costuma ser medo do próprio morrer.
Segunda: na leitura de que egum é espírito em trânsito, todos nós seremos eguns um dia, e os próprios guias que atendem nos terreiros já foram encarnados.
Terceira: a gira é lugar protegido e ordenado. Orixás e guias conduzem o trabalho, e o espírito que chega ali chega para ser amparado, não para atacar.
Fuja das listas de sintomas do tipo dez sinais de que você está com egum. Elas geram autodiagnóstico e ansiedade e não têm fundamento. E uma coisa precisa ser dita com clareza: alteração intensa de comportamento, alucinações, ideação suicida e dependência química são questões de saúde e pedem atendimento profissional, além do amparo espiritual. Fé e tratamento caminham juntos.
Iansã, Omulu e a Linha das Almas
Na tradição, Iansã, ou Oyá, é a senhora dos eguns, saudada com Eparrei. Na qualidade Oyá Igbalé, também chamada Iansã do Balé ou Iansã das Almas, o seu culto está ligado justamente aos espíritos dos mortos, e conta-se que ela é a única com poder de conduzi-los. A narrativa tradicional diz que Iansã e Omulu reinam juntos sobre o mundo dos mortos, compartilhando o poder de abrir e de interromper as demandas dos mortos sobre os vivos.
Omulu, também chamado Obaluaê, é o Orixá senhor da terra, da cura, da morte e da passagem. Daí vem, na Umbanda, a Linha das Almas, ligada ao cemitério, à finitude e ao amparo de quem partiu, onde atuam também os Pretos-Velhos. No sincretismo popular, Omulu aparece associado a São Lázaro e a São Roque, e Iansã a Santa Bárbara, sempre com variação entre correntes.
Fontes e referências
- Culto aos egunguns, Wikipédia
- O que é egum na umbanda, Cantinho de Oxalá
- Obsessores, Kiumbas, eguns e encosto, Raízes Espirituais
- Eguns: espíritos ancestrais na Umbanda e no Candomblé, Horóscopo Virtual
- Ancestrais que vieram da África: o culto a Egúngún no Candomblé Omo Ilê Agboulá, dissertação PUC-SP
- O Culto dos Ancestrais, Egungun, O Candomblé
- Qualidades do Orixá Oyá e Iansã, O Candomblé
Perguntas frequentes
O que é egun na Umbanda?
Qual a diferença entre egum e kiumba?
Egum e guia são a mesma coisa?
O culto de Egungun é igual ao egum da Umbanda?
Como se afasta um egum?
Devo ter medo de egum?
Qual Orixá está ligado aos eguns?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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