
Em agosto, muitos terreiros estendem a esteira, forram o chão com folhas de mamona e servem comida a todos em nome do Senhor da Terra. Essa festa se chama Olubajé. Entenda o que significa, de onde vem o mito, por que Xangô não fica no salão e como a Umbanda se aproxima desse banquete.
Olubajé é a festa anual em homenagem a Obaluaê, também chamado Omulu: um grande banquete em que as comidas dos Orixás são servidas sobre folhas de mamona e partilhadas com todos os presentes. É um rito de origem no Candomblé, ligado à saúde, à cura e ao perdão, e costuma acontecer em agosto, o mês do Orixá.
Resposta rápida
Olubajé é o banquete do rei, a festa dedicada a Obaluaê e Omulu. Nele, várias comidas rituais são servidas na folha de mamona e oferecidas ao Orixá e às pessoas.
O sentido central é pedir saúde, afastar a doença e prolongar a vida dos filhos da casa. A pipoca, o deburu, é a comida que não pode faltar, porque é a comida do anfitrião.
O Olubajé nasceu no Candomblé. Na Umbanda, algumas casas fazem festas para Omulu em agosto inspiradas nele, cada uma conforme o seu fundamento.
O que significa a palavra Olubajé
Olubajé vem do iorubá. O babalorixá e historiador Amaro Silva, ouvido pelo portal Alma Preta, explica a palavra em três partes: Olú, aquele que; bà, aceita; jẹ, comer.
Olubajé seria, então, aquele que aceita comer. Daí vem a tradução mais conhecida, banquete do rei, porque quem aceita a comida é Obaluaê, o rei e Senhor da Terra.
Uma cantiga citada por Amaro Silva diz que o senhor aceitou comer e que o povo da terra vai comer e adorá-lo. Ele lembra que a terra é a maior boca do mundo: se alimentamos a terra, ela nos alimenta de volta.
O mito: a festa de Xangô e a ofensa a Omulu
O Olubajé nasce de um itã, uma história sagrada. Cada casa conta de um jeito, mas o fio é parecido.
Xangô, rei vaidoso, deu uma grande festa no seu palácio e convidou todos os Orixás, menos Omulu, por causa das chagas e da aparência dele. Em outras versões, Omulu foi à festa e foi ridicularizado pela forma de dançar.
Os outros Orixás perceberam a ausência, se revoltaram e foram à casa de Omulu pedir desculpas. O Senhor da Terra aceitou fazer as pazes com uma condição: uma vez por ano, daria uma festa em que todos seriam servidos, menos Xangô.
Por isso, em muitas casas, Xangô é o único Orixá que não permanece no salão durante o Olubajé. Amaro Silva resume bem: cada um mexe a panela do seu jeito, e o essencial é que a festa honra Omulu a partir dessa história.
Como é a festa do Olubajé
Os detalhes mudam de terreiro para terreiro, mas alguns elementos aparecem em quase todas as descrições:
- As rezas antes. Em muitas casas, as rezas começam no fim de julho e seguem às segundas-feiras de agosto, dia dedicado a Omulu e às almas. A festa costuma cair na última segunda-feira do mês.
- A esteira. Segundo a Wikipédia, Iansã tem papel importante: é ela quem ajuda na limpeza e traz para o barracão a esteira sobre a qual as comidas serão postas.
- As comidas. São servidas no mínimo nove iguarias rituais, de vários Orixás, sempre na folha de mamona.
- A família de Omulu. Nanã, Oxumarê, Ossaim e Ewá, ligados a ele, costumam ter lugar de destaque.
- A partilha. No encerramento, a comida é servida também ao público. Comer no Olubajé é receber o axé do banquete.
O clima é de respeito e recolhimento. A iyalaxé Marcela Ferreira conta que, no período, as comidas são feitas em silêncio, as fofocas são evitadas e a palavra dos mais velhos é ainda mais ouvida.
Por que a comida vai na folha de mamona
A folha de mamona é a marca visual do Olubajé. A Wikipédia, com base no estudo O Banquete do Rei, de José Flávio Pessoa de Barros (UERJ), registra o nome ritual dessa folha: euê lará.
O simbolismo é forte. A comida, que representa a vida, é servida sobre uma planta venenosa, que representa a morte. É o retrato do próprio Omulu, o Orixá que caminha entre a doença e a cura, entre o fim e o recomeço.
Cuidado importante: as sementes da mamona são tóxicas e podem ser fatais se ingeridas. A folha funciona como prato, e ninguém come a folha nem a semente. Mantenha a planta longe de crianças e animais. Este texto não substitui orientação médica; em caso de ingestão, procure atendimento de saúde imediatamente.
A pipoca, o deburu de Omulu
Entre todas as comidas do banquete, a pipoca é a do dono da festa. No Candomblé ela é chamada de deburu ou doburu, e na Umbanda muita gente diz flor de Omulu.
Um itã explica a ligação. Omulu chegou a uma festa coberto de palha para esconder as feridas, e ninguém se aproximou dele. Iansã soprou o vento sobre as palhas, e as feridas saltaram para o alto, transformadas numa chuva de pipocas brancas. Por baixo da palha apareceu um jovem belo e radiante.
Por isso a pipoca fala de cura e transformação: o milho duro que se abre no calor. A iyalaxé Marcela Ferreira descreve o momento em que Omulu dança e lança pipocas ao ar como se estivesse limpando todos, levando embora as doenças do corpo e da alma.
Existe Olubajé na Umbanda?
O Olubajé, com esse nome e com esse rito completo, é uma festa do Candomblé. Na Umbanda, a devoção a Obaluaê e Omulu em agosto é muito forte, mas a forma de celebrar varia bastante.
- Gira de Omulu. Muitas casas fazem uma gira especial em agosto, com pontos, saudações e a firmeza do Orixá.
- Banho de pipoca. É comum o banho de pipoca ao fim da gira, como proteção e cura. Em Barreiras, na Bahia, casas de Umbanda e Candomblé se reuniram em agosto de 2025 numa grande gira encerrada pelo tradicional banho de pipoca.
- Festa com nome de Olubajé. Algumas casas de Umbanda, principalmente as de raiz mais próxima do Candomblé ou do Omolocô, realizam um banquete inspirado no Olubajé.
- Sem banquete. Outras casas não fazem banquete nenhum e honram Omulu com prece, vela e caridade.
Nenhum desses caminhos está errado. O que vale é o fundamento da sua casa, ensinado pelo seu dirigente.
O que o Olubajé ensina
Além do rito, o Olubajé carrega lições que servem para qualquer pessoa:
- Inclusão. A festa nasce de uma exclusão. Quem foi deixado de fora por causa da aparência passa a ser o anfitrião que alimenta todos.
- Perdão. Os Orixás pediram desculpas, e Omulu aceitou. O banquete sela a reconciliação.
- Saúde. A iyalaxé Marcela Ferreira ensina que o pedido certo é que Omulu retire a doença, porque saúde e doença estão, juntas, nos domínios dele.
- Silêncio. A saudação a Omulu, Atotô, costuma ser traduzida como silêncio, ele está entre nós. Agosto é tempo de rever as atitudes e trabalhar em silêncio.
Como participar com respeito
Se você for convidado para um Olubajé ou para uma festa de Omulu, algumas atitudes ajudam:
- Roupa clara e discreta. Branco é a escolha mais segura, a não ser que a casa oriente outra coisa.
- Aceite a comida. Receber o prato faz parte do rito. Se tiver alguma restrição de saúde, avise com educação.
- Respeite o silêncio. Fotos, vídeos e conversas altas costumam não ser bem-vindos. Pergunte antes.
- Banho de pipoca do pescoço para baixo. Se a casa oferecer o banho de pipoca, ele vai do pescoço para baixo. O que vai na cabeça é amaci, e isso é com o dirigente.
- Não reproduza o rito sozinho. O Olubajé é feito pela comunidade, com sacerdote e fundamento. Em casa, uma prece e uma vela a Omulu já são uma linda homenagem.
Em resumo
Olubajé é o banquete do rei: a festa de agosto em que Obaluaê e Omulu aceitam comer e devolvem saúde ao seu povo. As comidas vão na folha de mamona, a pipoca lembra a cura das feridas, e Xangô fica fora do salão por causa de um mito antigo.
Na Umbanda, cada casa honra Omulu do seu jeito, com gira, banho de pipoca ou banquete. Atotô, Obaluaê!
Fontes e referências
- Wikipédia, Olubajé (folha de mamona euê lará, mito de Xangô, papel de Iansã e da família de Obaluaiê; cita José Flávio Pessoa de Barros, O Banquete do Rei... Olubajé, UERJ/INTERCON, 1999)
- Caroline Nunes, O que o Olubajé representa para quem é de candomblé?, Alma Preta, 2023 (babalorixá Amaro Silva e iyalaxé Marcela Ferreira)
- Édila Döler e outros, Olubajé: o discurso religioso para o ritual de agradecimento no Ilè Asè Iyà Ogunté, Revista Internacional de Folkcomunicação (UEPG), 2020
- Conexão Tocantins, Coletivo Saravaxé reúne casas de Umbanda e Candomblé em homenagem a Omulu, 2025
Perguntas frequentes
O que é Olubajé?
O que significa a palavra Olubajé?
Quando acontece o Olubajé?
Por que Xangô não participa do Olubajé?
Por que a comida do Olubajé é servida na folha de mamona?
Qual comida não pode faltar no Olubajé?
Quantas comidas são servidas no Olubajé?
Existe Olubajé na Umbanda?
Posso fazer um Olubajé em casa?
Como se saúda Obaluaê no Olubajé?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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