
Quando morre um iniciado, o terreiro não se despede só com lágrimas. Há cantos, dança, oferendas e o desfazer cuidadoso de cada laço criado em vida. Entenda o que é o axexê, por que Iansã preside o rito e como a Umbanda lida com a passagem dos seus médiuns.
Axexê é o ritual fúnebre realizado pelo povo de santo quando morre uma pessoa iniciada. Ele nasceu no Candomblé de nação ketu e tem um objetivo claro: desfazer os vínculos religiosos que o iniciado criou em vida com o Orixá, com o Ori e com o terreiro, para que o espírito siga livre para o orum, o mundo espiritual.
Resposta rápida
O axexê é a cerimônia que encerra o caminho religioso de um iniciado. Se a iniciação vai criando laços ao longo da vida, o axexê desata esses laços um a um.
Ele reúne canto, dança, transe, oferendas e o despacho dos objetos sagrados que pertenceram ao falecido. O clima é de homenagem e de saudade, mas também de festa pela passagem.
É um rito próprio do Candomblé e das tradições mais próximas da matriz africana. Na Umbanda, os costumes fúnebres variam muito, e a maioria das casas não faz um axexê nos moldes do Candomblé.
Significado e origem da palavra
Segundo o sociólogo Reginaldo Prandi, professor da USP, o termo axexê é provavelmente uma adaptação da palavra iorubá àjèjé. Em terras iorubás, esse era o nome da oferenda feita quando morria um caçador.
Os parentes caçavam um animal, comiam parte dele em homenagem ao morto e levavam o restante à mata, junto com os instrumentos de caça do falecido. O axexê brasileiro guarda esse sentido: é como um grande ebó de despedida.
Cada nação tem seu nome para o rito. É axexê no ketu, tambor de choro no Tambor de Mina, sirrum no jeje e no Batuque, e ntambi ou mukundu na nação angola. Na prática, muitas casas de outras nações também usam a palavra axexê.
Para que serve o axexê
Na visão iorubá, a pessoa é feita de várias partes espirituais, e cada uma tem um destino depois da morte. O sopro vital volta a Olorum, o Ori se desfaz e o espírito, o egun, segue para o orum.
Prandi resume os fins do axexê em três: desfazer o assentamento do Ori, feito no bori; desfazer os vínculos com o Orixá pessoal e com toda a família de santo; e despachar o egun, para que ele deixe o mundo dos vivos.
Por isso se diz que, sem axexê, o ciclo da iniciação não se fecha. O espírito ficaria preso aos compromissos que assumiu na Terra.
Como é feito o ritual
O rito começa logo após a morte, com a preparação do corpo pelos sacerdotes. A cabeça é lavada com folhas e água, num gesto que inverte a primeira lavagem feita na iniciação.
Depois do enterro vem o axexê propriamente dito. Ele varia de terreiro para terreiro, mas costuma ter sempre música, canto e dança, a presença de Orixás em transe, oferendas ao egun e aos Orixás ligados ao morto e a saudação preliminar a Exu.
Os objetos rituais do falecido, como fios de contas, roupas e assentamentos, são desfeitos e despachados longe do terreiro. Antes disso, o sacerdote consulta o jogo de búzios para saber se alguma peça deve ficar com alguém da família ou da casa.
O som e o clima do axexê
O axexê acontece em dois espaços. Numa cabana reservada, onde poucos entram, ficam os objetos do morto. No barracão, a comunidade, os parentes e os amigos dançam em homenagem a ele.
Os atabaques dão lugar a um pote de barro tocado com leques de palha e a cabaças emborcadas na água, que produzem um som abafado. O morto é representado por uma cabaça que recebe moedas de quem dança para ele.
Os presentes usam tiras de mariô, a folha do dendezeiro, amarradas no pulso como proteção. Ao final, tudo isso segue junto no carrego do morto.
Iansã, a mãe do axexê
Iansã, ou Oyá, é o Orixá que preside o axexê. Ela é considerada a guia dos mortos em sua viagem para o orum.
Um itan contado por Mãe Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, explica a origem. Oyá era filha adotiva do caçador Odulecê. Quando ele morreu, ela reuniu seus instrumentos de caça, preparou suas comidas preferidas e dançou e cantou por sete dias.
Na sétima noite, levou os pertences do pai à mata, e Olorum, comovido, deu a ela o poder de conduzir os mortos. Também participam do rito Orixás como Nanã, Omulu, Oxumarê, Euá e Ogum. Xangô, dizem os mitos, teme os eguns e não toma parte.
Quando e para quem se faz
O axexê é destinado a pessoas iniciadas. Quanto mais tempo de santo e mais responsabilidades o falecido tinha, mais longo e complexo é o rito. Uma mãe de santo, ligada a todos os filhos da casa, tem muitos laços a desfazer.
Mesmo um abiã que já fez o bori tem seu assento de Ori despachado, numa cerimônia mais simples. Em muitas casas, por influência das missas católicas, o axexê é repetido depois de um mês, de um ano e a cada sete anos, sobretudo para dirigentes.
Por ser caro e exigir sacerdotes que saibam cantá-lo, na prática ele é feito com mais frequência para pais e mães de santo, ogãs e outros cargos importantes.
Existe axexê na Umbanda?
Aqui é preciso honestidade: o axexê não é um rito tradicional da Umbanda. A Umbanda não tem uma liturgia fúnebre única, e cada terreiro segue seus próprios fundamentos.
Na maioria das casas, quando um médium desencarna, a corrente se reúne em prece, acende velas, pede aos guias que amparem a passagem e entrega o irmão à Lei. As guias e os objetos de trabalho do médium recebem o destino que o dirigente orienta.
Casas mais próximas da matriz africana, como as de Omolocô ou as que cruzam Umbanda e Candomblé, podem fazer um rito de desligamento inspirado no axexê. Se essa for a sua dúvida, o caminho é sempre conversar com o dirigente da sua casa.
Axexê, Finados e o culto às almas
O axexê é diferente do Dia de Finados. O axexê é feito para uma pessoa iniciada específica. Finados, no dia 2 de novembro, é a data em que se lembram todos os que partiram.
Na Umbanda, a memória dos mortos aparece no culto às almas, nas velas acesas no Cruzeiro das Almas e nas preces pelos desencarnados. Em comum, todos esses gestos ensinam que a morte é passagem, e que honrar quem foi faz parte da vida de quem fica.
Em resumo
Axexê é o rito fúnebre do Candomblé que desfaz os laços do iniciado com o Ori, com o Orixá e com o terreiro, e encaminha o egun ao orum. Tem canto, dança, transe, oferendas e o despacho dos objetos sagrados, sob a regência de Iansã.
Na Umbanda, os costumes fúnebres variam de casa para casa. Respeitar o axexê é reconhecer que, para o povo de santo, a despedida também é um ato de fé e de amor.
Fontes e referências
Perguntas frequentes
O que é axexê?
O que significa a palavra axexê?
Quanto tempo dura o axexê?
Qual Orixá preside o axexê?
O que acontece com as guias e objetos do falecido?
Existe axexê na Umbanda?
Todo iniciado recebe axexê?
Por que não se toca atabaque no axexê?
Qual a diferença entre axexê e Dia de Finados?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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