Reza · Axé Umbanda

Oração a São Benedito

Ao santo negro da caridade e da humildade, devoção antiga do povo brasileiro e presença forte nos terreiros de Umbanda

Oração: Oração a São Benedito
Resposta rápida

A oração a São Benedito pede humildade para servir, paciência para atravessar o que é duro e fartura na mesa de quem tem pouco. É oração de devoção popular, muito ligada à população negra brasileira, e nos terreiros de Umbanda ela se soma ao respeito pela linha dos Pretos Velhos, sem que o santo e a entidade sejam a mesma coisa.

Oração a São Benedito

São Benedito, santo negro de mão aberta,vós que fostes filho de escravizados e nascestes livre,vós que servistes na cozinha e no serviço mais simples da casa,e que fizestes do serviço simples a vossa oração.Eu venho a vós sem pressa e sem discurso,com o que eu tenho e com o que me falta.Ensinai me a humildade que não se humilha,aquela que abaixa a cabeça para trabalhar,e não para aceitar o que é injusto.Dai me paciência para o que não tem atalho,porque eu sei que existe coisa na vidaque só o tempo resolve,e eu tenho pressa demais para o meu próprio bem.São Benedito, vós que multiplicastes o pão na despensa vazia,olhai pela mesa da minha casa,e pela mesa de quem hoje não tem o que pôr nela.Que não falte comida, nem trabalho, nem dignidade.E se sobrar alguma coisa na minha,dai me a lembrança de repartir antes que estrague.Amparai quem cuida dos outros e é esquecido:quem cozinha, quem limpa, quem carrega, quem serve,quem faz o trabalho que ninguém vêe sem o qual nada funcionaria.Dai força ao corpo cansado deles e reconhecimento ao que fazem.Guardai a minha família da doença e da discórdia,e se a doença já estiver na casa,dai me coragem para cuidar sem desanimare juízo para procurar quem entende de cura no plano da terra.São Benedito, protetor dos pretos e dos pobres,não me deixeis endurecer o coração com o que eu vejo,nem esfriar diante da dor de quem passa na minha frente.Que eu tenha a mão aberta e a palavra mansa.Que eu saiba servir sem me anular,e ajudar sem esperar aplauso.Que a minha fé apareça mais no que eu façodo que no que eu falo.Assim seja, e que assim seja feito.

O significado desta oração

São Benedito foi um homem de carne e osso. Nasceu por volta de 1526 em San Fratello, na Sicília, filho de africanos escravizados levados para a Itália, e nasceu livre porque os pais receberam a alforria antes do seu nascimento. Trabalhou como pastor e como lavrador, entrou para a vida religiosa entre franciscanos e passou a maior parte dela na cozinha do convento de Palermo. Morreu em 1589 e foi canonizado em 1807.

Essa biografia explica quase tudo o que a devoção popular fez dele depois. Ele é o santo do serviço simples, o que trabalhou onde ninguém olha, e é por isso que a Igreja o reconhece como padroeiro dos cozinheiros e o povo o adotou como protetor de quem faz o trabalho invisível.

No Brasil, a devoção tomou proporção própria. São Benedito foi um dos poucos santos negros disponíveis à população escravizada, e as irmandades negras do período colonial o tomaram como padroeiro, erguendo igrejas, organizando festas e mantendo viva uma devoção que era também espaço de organização e de resistência. As congadas e os maracatus que acontecem até hoje no país guardam essa memória.

Aqui vale um cuidado que muita gente não faz. No sincretismo brasileiro, a regra geral foi um Orixá se abrigar atrás de um santo católico para sobreviver à repressão. Com São Benedito o caminho foi outro: ele era um homem negro real, canonizado pela própria Igreja, e a população negra o adotou como espelho, e não como disfarce. Por isso as correspondências que circulam são muitas e nenhuma é consenso: há casas que o aproximam de Ossaim, pelo conhecimento das ervas e da cura, outras de Oxalá, pela serenidade, e outras de Obaluaê.

Nos terreiros de Umbanda, São Benedito aparece com frequência no congá, ao lado de outras imagens, e sua devoção convive naturalmente com o culto aos Pretos Velhos. Mas é honesto dizer que santo e entidade não são a mesma coisa: São Benedito é um santo católico com culto próprio, e o Preto Velho é a entidade que se apresenta na gira. A proximidade entre os dois é cultural e afetiva, e boa parte das casas trata assim, sem confundir os planos.

A oração acima é autoral, escrita para o Axé Umbanda a partir dos temas que a devoção popular repete há séculos: humildade, caridade, fartura na mesa e cuidado com quem serve. Ela não substitui as orações tradicionais da devoção católica, e pode ser rezada junto delas por quem assim preferir.

TipoOração autoral
TemaAo santo negro da caridade e da humildade, devoção antiga do povo brasileiro e presença forte nos terreiros de Umbanda
VelaBranca
OrigemOração do Axé Umbanda

Como rezar

  1. Acenda uma vela branca em local seguro, sobre base firme, longe de cortina, de tomada e do alcance de criança e de animal. Vela acesa não se deixa sem vigilância e se apaga antes de dormir ou de sair.
  2. Se você tiver a imagem ou a estampa de São Benedito, coloque num canto limpo e alto, forrado com pano branco, com um copo de água limpa ao lado. Trocar a água a cada dois ou três dias faz parte do gesto.
  3. Flores brancas combinam com esta devoção, e quem quiser pode acrescentar um pedaço de pão ou um punhado de arroz cru num pires, lembrando o milagre da despensa que a tradição conta sobre ele.
  4. Reze devagar e em voz baixa, sem pressa de terminar. Se algum trecho não fizer sentido para a sua vida, troque pelas suas próprias palavras: oração não é fórmula fechada.
  5. Termine agradecendo antes de pedir de novo, que é o costume mais repetido pelos mais velhos em qualquer linha.
  6. Faça alguma coisa concreta depois. A devoção a São Benedito é inseparável da caridade prática, e a forma mais tradicional de honrá lo no Brasil é repartir comida com quem precisa. Uma doação pequena e regular vale mais que uma promessa grande e esquecida.

Quando rezar

Rezada em 5 de outubro, dia da festa de São Benedito, e no 13 de maio, quando muitas casas de Umbanda celebram os Pretos Velhos. Também se reza em dia comum, diante de uma vela branca, quando falta comida, trabalho ou paciência, quando alguém da casa está doente e quando a pessoa sente que endureceu o coração e quer voltar a ver quem está ao lado dela.

Perguntas frequentes

Quem foi São Benedito?
Foi um religioso franciscano nascido por volta de 1526 em San Fratello, na Sicília, filho de africanos escravizados e nascido livre. Trabalhou como pastor e lavrador, entrou para a vida religiosa e passou boa parte dela na cozinha do convento de Palermo. Morreu em 1589 e foi canonizado em 1807. É um dos poucos santos negros do calendário católico e um dos mais devotados no Brasil.
Qual é o dia de São Benedito?
A festa litúrgica é celebrada em 5 de outubro. No Brasil, muitas cidades mantêm festas populares em datas próprias, ligadas às irmandades negras e às congadas locais, e por isso é comum encontrar celebrações de São Benedito em meses diferentes conforme a região. Procure saber a data da festa na sua cidade, porque ela costuma ser antiga e bem viva.
São Benedito é padroeiro de quê?
É reconhecido como padroeiro dos cozinheiros, e a devoção popular o associa também à população negra, aos pobres, aos trabalhadores domésticos e a quem faz o serviço que ninguém vê. Essa associação vem direto da vida dele, que passou a maior parte do tempo na cozinha do convento e transformou o serviço simples em prática de fé.
São Benedito é sincretizado com qual Orixá?
Não existe consenso, e é mais honesto dizer isso do que escolher uma resposta única. Circulam correspondências com Ossaim, pelo conhecimento das ervas e da cura, com Oxalá, pela serenidade, e com Obaluaê. A razão da variação é histórica: São Benedito era um homem negro real e canonizado, adotado pela população negra como espelho, e não como disfarce de um Orixá. A resposta que vale para você é a da sua casa.
São Benedito é a mesma coisa que Pai Benedito?
Não. São Benedito é um santo católico, com biografia conhecida e culto próprio. Pai Benedito é uma entidade de Preto Velho que se apresenta nos terreiros de Umbanda, e boa parte das casas o entende como nome de falange. Os nomes se aproximaram pelo caminho do sincretismo e do afeto popular, mas o culto, o fundamento e o plano de atuação são distintos.
Pode rezar a São Benedito na Umbanda?
Pode, e é comum. A Umbanda nasceu no Brasil em diálogo com o catolicismo popular, e imagens de santos convivem no congá de muitas casas. Rezar a São Benedito não substitui nem concorre com a saudação aos Pretos Velhos e aos Orixás. Se a sua casa tiver orientação própria sobre imagens e rezas no altar, siga a dela, porque preceito de casa vem antes de costume geral.
O que se oferece a São Benedito?
A devoção popular brasileira oferece sobretudo comida e a partilha dela. Milho, feijão, farinha, pão e arroz aparecem nas festas, quase sempre distribuídos entre os presentes ou entre quem precisa. Vela branca, flores brancas e um copo de água limpa completam a firmeza caseira. O gesto que a tradição mais valoriza nesta devoção é repartir, e não acumular no altar.
Qual vela se acende para São Benedito?
A branca resolve para qualquer pedido de paz, de amparo e de firmeza, e é a mais usada. Há quem acenda também vela marrom, pela cor associada à humildade e ao hábito franciscano. O que importa mais que a cor é a segurança: base firme, longe de cortina e de tomada, e nunca deixada sem vigilância.
Essa oração é tradicional ou autoral?
É autoral, escrita para o Axé Umbanda a partir dos temas que a devoção a São Benedito repete há séculos: humildade, caridade, fartura na mesa e cuidado com quem serve. Existem orações tradicionais da devoção católica ao santo, e esta não substitui nenhuma delas. Se você reza as orações antigas, pode rezar as duas coisas sem conflito.
O que pedir a São Benedito?
Pede se humildade, paciência, fartura na mesa, trabalho e amparo para quem serve e é esquecido. É devoção muito procurada por quem está com pouco em casa e por quem cuida dos outros. A tradição, no entanto, é insistente num ponto: a devoção a São Benedito é inseparável da caridade prática, e pedir sem repartir contraria o próprio exemplo do santo.
Conteúdo informativo e de fé. As orações e formas de rezar variam de casa para casa. Não substituem a orientação do dirigente do seu terreiro. Reze com fé e respeito.
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