Oração a São Benedito
Ao santo negro da caridade e da humildade, devoção antiga do povo brasileiro e presença forte nos terreiros de Umbanda

A oração a São Benedito pede humildade para servir, paciência para atravessar o que é duro e fartura na mesa de quem tem pouco. É oração de devoção popular, muito ligada à população negra brasileira, e nos terreiros de Umbanda ela se soma ao respeito pela linha dos Pretos Velhos, sem que o santo e a entidade sejam a mesma coisa.
Oração a São Benedito
O significado desta oração
São Benedito foi um homem de carne e osso. Nasceu por volta de 1526 em San Fratello, na Sicília, filho de africanos escravizados levados para a Itália, e nasceu livre porque os pais receberam a alforria antes do seu nascimento. Trabalhou como pastor e como lavrador, entrou para a vida religiosa entre franciscanos e passou a maior parte dela na cozinha do convento de Palermo. Morreu em 1589 e foi canonizado em 1807.
Essa biografia explica quase tudo o que a devoção popular fez dele depois. Ele é o santo do serviço simples, o que trabalhou onde ninguém olha, e é por isso que a Igreja o reconhece como padroeiro dos cozinheiros e o povo o adotou como protetor de quem faz o trabalho invisível.
No Brasil, a devoção tomou proporção própria. São Benedito foi um dos poucos santos negros disponíveis à população escravizada, e as irmandades negras do período colonial o tomaram como padroeiro, erguendo igrejas, organizando festas e mantendo viva uma devoção que era também espaço de organização e de resistência. As congadas e os maracatus que acontecem até hoje no país guardam essa memória.
Aqui vale um cuidado que muita gente não faz. No sincretismo brasileiro, a regra geral foi um Orixá se abrigar atrás de um santo católico para sobreviver à repressão. Com São Benedito o caminho foi outro: ele era um homem negro real, canonizado pela própria Igreja, e a população negra o adotou como espelho, e não como disfarce. Por isso as correspondências que circulam são muitas e nenhuma é consenso: há casas que o aproximam de Ossaim, pelo conhecimento das ervas e da cura, outras de Oxalá, pela serenidade, e outras de Obaluaê.
Nos terreiros de Umbanda, São Benedito aparece com frequência no congá, ao lado de outras imagens, e sua devoção convive naturalmente com o culto aos Pretos Velhos. Mas é honesto dizer que santo e entidade não são a mesma coisa: São Benedito é um santo católico com culto próprio, e o Preto Velho é a entidade que se apresenta na gira. A proximidade entre os dois é cultural e afetiva, e boa parte das casas trata assim, sem confundir os planos.
A oração acima é autoral, escrita para o Axé Umbanda a partir dos temas que a devoção popular repete há séculos: humildade, caridade, fartura na mesa e cuidado com quem serve. Ela não substitui as orações tradicionais da devoção católica, e pode ser rezada junto delas por quem assim preferir.
Como rezar
- Acenda uma vela branca em local seguro, sobre base firme, longe de cortina, de tomada e do alcance de criança e de animal. Vela acesa não se deixa sem vigilância e se apaga antes de dormir ou de sair.
- Se você tiver a imagem ou a estampa de São Benedito, coloque num canto limpo e alto, forrado com pano branco, com um copo de água limpa ao lado. Trocar a água a cada dois ou três dias faz parte do gesto.
- Flores brancas combinam com esta devoção, e quem quiser pode acrescentar um pedaço de pão ou um punhado de arroz cru num pires, lembrando o milagre da despensa que a tradição conta sobre ele.
- Reze devagar e em voz baixa, sem pressa de terminar. Se algum trecho não fizer sentido para a sua vida, troque pelas suas próprias palavras: oração não é fórmula fechada.
- Termine agradecendo antes de pedir de novo, que é o costume mais repetido pelos mais velhos em qualquer linha.
- Faça alguma coisa concreta depois. A devoção a São Benedito é inseparável da caridade prática, e a forma mais tradicional de honrá lo no Brasil é repartir comida com quem precisa. Uma doação pequena e regular vale mais que uma promessa grande e esquecida.
Quando rezar
Rezada em 5 de outubro, dia da festa de São Benedito, e no 13 de maio, quando muitas casas de Umbanda celebram os Pretos Velhos. Também se reza em dia comum, diante de uma vela branca, quando falta comida, trabalho ou paciência, quando alguém da casa está doente e quando a pessoa sente que endureceu o coração e quer voltar a ver quem está ao lado dela.







