
Quando o atabaque acelera e alguém grita Ê boi, a gira muda de tom. Entenda o que acontece numa gira de Boiadeiro, o que quer dizer Xetruá, para que servem o laço e o chicote e o que faz sentido pedir a esses vaqueiros da Umbanda.
A gira de Boiadeiro é o momento da sessão de Umbanda dedicado aos Boiadeiros, espíritos de vaqueiros e peões do sertão que chegam com laço, chicote e chapéu de couro para fazer limpeza espiritual no terreiro. A saudação mais ouvida é Xetruá, Boiadeiro! (também escrita Getruá ou Jetruá). Neste artigo você entende como a gira acontece, o que significam os gestos, o que pedir ao Boiadeiro e como se comportar, sempre lembrando que cada casa tem o seu fundamento.
Resposta rápida
- O que é: a parte da sessão em que descem os Boiadeiros, espíritos de vaqueiros, tropeiros e peões que trabalham na limpeza do terreiro, dos médiuns e da assistência.
- Saudação: Xetruá, Boiadeiro! (ou Getruá, Jetruá), e também Xetro Marrumbaxêtro. Uma tradução dada por terreiros é salve aquele que possui braço forte.
- Como é: atabaque acelerado, o brado Ê boi!, médiuns que se movem como se estivessem a cavalo, laço e chicote em punho.
- O que pedir: limpeza e descarrego, proteção contra demandas, firmeza e força de vontade, ajuda com o trabalho e com o desânimo.
- Como se comportar: respeito, silêncio quando não for a sua vez e distância segura do chicote.
Nem toda casa faz gira de Boiadeiro, e quem faz organiza do seu jeito. Siga sempre a orientação do seu terreiro.
O que é a gira de Boiadeiro
Na Umbanda, gira é a sessão de trabalho espiritual em que as entidades descem para trabalhar. A gira de Boiadeiro é aquela em que a linha chamada é a dos Boiadeiros, também conhecidos como caboclos de couro ou caboclos boiadeiros.
O pesquisador Fernando Guerra (Universidade Federal Fluminense), que acompanhou uma tenda de Umbanda em Sepetiba, no Rio de Janeiro, descreve um formato comum: a primeira parte da sessão é dos Caboclos e, num segundo momento, o terreiro pode receber Exus, Pretos-Velhos, Erês ou Boiadeiros, conforme a necessidade do dia. Naquela casa não havia data certa para a gira de Boiadeiro: eles eram chamados quando a carga negativa estava pesada demais para seguir o culto, ou para que os médiuns voltassem para casa em paz.
Outras casas fazem giras festivas inteiras em louvor à linha. O sacerdote Luiz de Miranda, do Conversando sobre a Umbanda, descreve essas giras como cheias de alegria e vigor, com dança, pontos cantados e oferendas fartas.
Como é uma gira de Boiadeiro
A descrição de Guerra ajuda a visualizar o que acontece:
- Os cambonos preparam as ferramentas. Eles vão até o assentamento dos Boiadeiros e retiram chapéus, chicotes, laços e outros objetos que as entidades vão usar.
- O toque muda. O ritmo dos atabaques fica mais acelerado e alegre, mas os médiuns encaram o culto com ainda mais seriedade.
- A descida é coletiva. Naquela tenda, ao contrário dos Caboclos, os Boiadeiros não eram saudados um a um: em um só ponto cantado todos os médiuns iam incorporando, a começar pelo mais antigo.
- O terreiro fica agitado. As entidades recebem chapéu, laço e chicote, andam de um lado para o outro como se estivessem montando a cavalo e bradam Ê boi!
- A limpeza. Guerra viu um Boiadeiro laçar algo invisível nos quatro cantos do terreiro, arrastar até o centro, amarrar e puxar para fora. O dirigente da casa explicou: o boiadeiro transporta o gado; na Umbanda, ele transporta as coisas ruins.
- Uma passagem rápida. Feita a limpeza, os Boiadeiros vão embora, levando os espíritos de pouca luz como quem toca a boiada de volta.
A antropóloga Maria Helena Villas Boas Concone, citada por Guerra, resume o jeito da linha: postura ereta e tensa, fisionomia carregada, seriedade e severidade, dança com um laço imaginário e o chamado Ê boi!
Saudação: o que significa Xetruá
A saudação dos Boiadeiros aparece com várias grafias, porque passou de boca em boca nos terreiros:
- Xetruá, Boiadeiro! ou Getruá, Boiadeiro!, como registra a Tenda de Umbanda Caboclo Sete Flechas e Jurema, de Bom Despacho (MG).
- Jetruá ou Jetuá, forma usada por Luiz de Miranda e também pelo nosso catálogo de Boiadeiros.
- Xetro Marrumbaxêtro!, a forma mais longa.
Segundo Luiz de Miranda, a saudação quer dizer salve aquele que possui braço forte, uma reverência à força do vaqueiro que conduz a boiada. Para os Mineiros, entidades que trabalham perto dos Boiadeiros, o mesmo autor registra a saudação Ê Minas!
Na hora da gira, a regra é simples: saúde do jeito que a sua casa saúda. Veja outras saudações em saudações da Umbanda.
O que os Boiadeiros fazem na gira
As fontes concordam no essencial: Boiadeiro é linha de limpeza, de proteção e de disciplina.
- Afastar o baixo astral. Guerra cita Rubens Saraceni para dizer que a missão da entidade é ser refreador do baixo astral e afastar os espíritos que atrapalham o andamento da sessão.
- Laçar e conduzir espíritos. A Tenda Sete Flechas e Jurema explica que o laço serve para recolher espíritos em desequilíbrio e o chicote para dispersar energias negativas, cortando trabalhos de magia negativa com o estalo.
- Guardar o terreiro. Luiz de Miranda descreve os Boiadeiros como guardiões contra as demandas e contra os quiumbas, tratados com rigor. Com os filhos de fé, ao contrário, trazem alegria e descontração.
- Preparar os médiuns. Fazem o descarrego, protegem os médiuns e cuidam da disciplina dentro do terreiro.
O sociólogo Lísias Negrão, também citado por Guerra, coloca os Boiadeiros numa linha intermediária, que trabalha tanto na direita quanto na esquerda, ao lado de Baianos e Marinheiros. Por isso, em muitas casas, o lugar dos objetos do Boiadeiro fica no meio do caminho: nem no altar dos Caboclos, nem na casa de Exu.
O que pedir ao Boiadeiro
Antes de tudo, saiba que nem toda gira de Boiadeiro tem consulta. Na tenda estudada por Guerra, os Boiadeiros vinham só para fazer a limpeza, sem dar passe nem aconselhar. Em outras casas eles atendem a assistência normalmente. Se houver atendimento, estes são os pedidos que combinam com a linha:
- Limpeza e descarrego quando você sente o corpo pesado, cansaço sem motivo ou o ambiente carregado.
- Proteção contra demandas e contra espíritos que atrapalham.
- Trabalho e vida profissional. Luiz de Miranda registra que os pedidos levados a essa entidade costumam estar ligados à melhoria profissional.
- Ânimo. O mesmo autor cita pedidos para se livrar do desânimo e da tristeza profunda.
- Firmeza e coragem para seguir em frente. A Tenda Sete Flechas e Jurema lembra que os Boiadeiros gostam de ver nos seus médiuns coragem, lealdade e honestidade.
Peça com clareza e com respeito, e nunca peça mal para ninguém. O Boiadeiro trabalha para limpar e conduzir, não para prender a vida de outra pessoa. Para rezar em casa, veja a oração aos Boiadeiros. E se você está passando por depressão, a ajuda espiritual caminha junto com o cuidado de um profissional de saúde, nunca no lugar dele.
Como se comportar na gira de Boiadeiro
- Respeite o espaço. Os Boiadeiros se movem rápido e usam chicote e laço. Guerra conta que até médiuns não incorporados se afastavam para não se machucar. Fique onde o cambone indicar.
- Saúde e espere. Responda à saudação da casa e só se aproxime quando for chamado.
- Não estranhe a seriedade. A cara fechada e o jeito bravo fazem parte do arquétipo: é o vaqueiro concentrado na lida, não alguém zangado com você.
- Siga o cambone. É ele quem organiza a fila, traz as ferramentas e explica o que a entidade pede.
- Vista branco ou a roupa pedida pela casa e evite chegar alcoolizado ou com pressa.
Se for a sua primeira vez, leia também o que é gira de Umbanda e o que é incorporação.
Laço, chicote, berrante e as cores do Boiadeiro
As ferramentas do Boiadeiro vêm da lida com o gado. Na tenda pesquisada por Guerra, o assentamento guardava chicote, berrantes, chifres, chapéu de couro nordestino, cigarro de palha e ferradura, e o dirigente lembrava ainda o gibão, a casaca de couro, as rédeas e, em algumas casas, o arreio.
- Laço: recolhe os espíritos rebelados. Saraceni o liga ao Tempo.
- Chicote: dispersa energias negativas e corta trabalhos com o estalo. Saraceni o liga a Iansã.
- Berrante: chama o boi perdido. A Tenda Sete Flechas e Jurema compara o Boiadeiro que volta para buscar o boi atolado à parábola do Bom Pastor.
- Chapéu de couro e gibão: a roupa do vaqueiro, que muda conforme a região do país.
Cores e guias. A Tenda Sete Flechas e Jurema registra azul-escuro e amarelo, com casas que usam também marrom ou roxo conforme o Orixá que rege o trabalho, e cita sementes de olho-de-boi entre os elementos da linha. Por isso essas cores e sementes aparecem tanto na guia de Boiadeiro. Como na guia de Baiano, quem decide cor e material é a entidade.
A mesma tenda fala da linha sustentada por Ogum, o senhor dos caminhos, e também pelos mistérios de Oxóssi e Iansã.
A linguagem do Boiadeiro: boi, boiada e laçar
Quando o Boiadeiro fala da lida, ele está falando do trabalho espiritual. A Tenda Sete Flechas e Jurema reproduz um pequeno glossário do livro Arquétipos da Umbanda, de Rubens Saraceni (Madras, 2007):
- Cavalos: os filhos de fé, os médiuns.
- Boi: espírito acomodado.
- Boiada: grande grupo de espíritos reunidos e levados aos poucos de volta ao seu caminho.
- Laçar: recolher à força os espíritos rebelados.
- Boi atolado: espírito que afundou em regiões de lama, ligadas a Nanã.
- Bois afogados em rios: espíritos caídos nas águas profundas das paixões humanas.
É uma leitura de um autor e de uma escola. Outras casas explicam com outras palavras, mas a ideia é parecida: o Boiadeiro reúne e conduz quem se perdeu.
O que o Boiadeiro come e bebe
A comida do Boiadeiro é a comida de quem viajava tocando gado. Guerra registra pratos como jabá com jerimum, baião de dois, feijão de corda, carne de sol, macaxeira e feijão tropeiro. O dirigente da casa pesquisada completa: farofa de charque, arroz com charque, farinha com leite e frutas do cerrado como pequi e jatobá.
Para beber, aparecem cachaça, vinho e cachaça com mel (a meladinha), servidos em copos de barro, além de fumo de rolo e cigarro de palha. Naquela tenda, quatro copos de barro eram cheios a cada sessão: vinho com cachaça, só vinho, cachaça com mel e só cachaça. Concone observa que, incorporados, muitos Boiadeiros não bebem nem fumam; a bebida é oferenda.
A entrega costuma ser feita em descampado, pasto ou porteira. Veja o passo a passo da oferenda de Boiadeiro e, para a limpeza em casa, o banho de Boiadeiro e a defumação de Boiadeiro.
De onde vem a linha dos Boiadeiros
Os Boiadeiros são uma linha relativamente nova na Umbanda. A Tenda Sete Flechas e Jurema conta que ela começou a se manifestar junto com a linha dos Caboclos, numa gira de Caboclos em que desceu um caboclo boiadeiro.
Guerra liga a força da linha à migração nordestina para o Sudeste a partir dos anos 1950. Os migrantes levaram para os terreiros a memória do sertão e do vaqueiro, e a Umbanda deu a essa figura um lugar no seu panteão. O dirigente entrevistado por ele vai além: para ele, o Boiadeiro começou a ser cultuado no Nordeste, ligado ao Catimbó, e veio para o Rio trazido por gente de lá.
Nem todo espírito da linha foi vaqueiro em vida. A mesma tenda mineira lembra que, assim como nem todo Preto-Velho foi escravizado, o que reúne os Boiadeiros é o jeito: lealdade, coragem, determinação e poucas palavras. Conheça alguns nomes da linha, como o Boiadeiro da Jurema, o Boiadeiro Chapéu de Couro e o Zé Mineiro.
Resumo
A gira de Boiadeiro é o momento em que descem os vaqueiros espirituais da Umbanda para limpar o terreiro, laçar os espíritos que atrapalham e devolver firmeza aos médiuns. A saudação é Xetruá (ou Getruá, Jetruá), entendida como salve aquele que possui braço forte. O atabaque acelera, o brado é Ê boi!, e as ferramentas são o laço, o chicote, o berrante e o chapéu de couro.
Ao Boiadeiro se pede limpeza, proteção, ânimo e força para o trabalho, sempre com respeito. Cada casa tem o seu jeito de fazer: siga o fundamento do seu terreiro. Xetruá, Boiadeiro!
Fontes e referências
- Fernando Guerra (UFF), Tem sertanejo na Umbanda de boiadeiro: inserção, ressignificação e adaptabilidade de novas entidades ao panteão umbandista, Revista Três Pontos (UFMG) v. 11 n. 1, 2014 (cita Maria Helena Villas Boas Concone, Lísias Negrão e Rubens Saraceni)
- Tenda de Umbanda Caboclo Sete Flechas e Jurema (Bom Despacho, MG), Boiadeiros, 2017 (glossário a partir de Rubens Saraceni, Arquétipos da Umbanda, Madras, 2007)
- Luiz de Miranda, Conversando sobre a Umbanda, Os Boiadeiros na Umbanda, 2022 (atualizado em 2024)
Perguntas frequentes
O que é gira de Boiadeiro?
Qual é a saudação do Boiadeiro?
O que significa Xetruá?
O que pedir para o Boiadeiro?
Boiadeiro dá consulta?
Por que o Boiadeiro usa laço e chicote?
Boiadeiro é de direita ou de esquerda?
Qual é a cor do Boiadeiro?
O que o Boiadeiro come e bebe?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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