O que significa o ponto de zé pilintra: zé pilintra que chegou?
Este é um ponto de chegada, daqueles que anunciam a entidade em vez de pedir alguma coisa a ela. Os dois primeiros versos, reproduzidos aqui como amostra, já entregam a função: a corrente avisa que Seu Zé está chegando e abre o espaço. O ponto continua com outras estrofes, cantadas em toque de samba cabula, e a versão completa pode ser ouvida no vídeo que acompanha esta página. Ao longo da letra, o ponto faz três coisas ao mesmo tempo. Primeiro, situa Zé Pilintra entre os grandes, dizendo que foi Oxalá quem o mandou, o que na Umbanda equivale a afirmar que ele trabalha sob a lei maior e não por conta própria. Depois, coloca Ogum como amigo dele e descreve o trânsito pela esquerda, que é o jeito da tradição dizer que Zé Pilintra circula onde a maioria não circula, na rua, na noite, no meio da gente comum. Por fim, o ponto declara o que ele faz: quebra demanda e desmancha o que foi armado. É por isso que a casa canta este ponto quando a vida de alguém está travada de um jeito que parece proposital. Vale lembrar quem é Seu Zé para entender o ponto. A origem mais documentada dele é nordestina, como mestre juremeiro do Catimbó e da Jurema Sagrada, em Pernambuco e na Paraíba, de onde a figura migrou com os nordestinos para o Rio de Janeiro e ganhou o Rio da Lapa, do Estácio e da zona portuária nas primeiras décadas do século vinte. Foi a macumba carioca que o popularizou como rei da malandragem, e é dali que vem a imagem consagrada do terno branco, da gravata vermelha e do chapéu panamá. Nas casas, o lenço vermelho é o detalhe que quase nunca falta, mesmo quando ele se apresenta com traje simples de preto-velho. E há uma leitura social importante nesse ponto, que o antropólogo e babalorixá Rodney William chama de pai do jeitinho brasileiro e advogado do povo pobre: a malandragem, aqui, é a estratégia de sobrevivência do homem negro diante do racismo e da falta de oportunidade, e não elogio à desonestidade.
Quando se canta esse ponto?
Na gira da Malandragem e nas giras de esquerda que abrem espaço para o povo da rua, como ponto de chamada de Seu Zé Pilintra. Também é cantado nas festas de 28 de outubro, data que boa parte das casas reserva à linha, e sempre que a casa vai tratar de quebra de demanda, de caminho travado e de proteção de quem anda na rua e na madrugada.
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
Quem é Zé Pilintra na Umbanda?
Zé Pilintra é a entidade mais conhecida da linha dos Malandros. A origem mais documentada é nordestina, como mestre juremeiro do Catimbó e da Jurema Sagrada, e foi a macumba carioca que o consagrou como rei da malandragem da Lapa. Nas casas, ele aparece ora na linha das Almas, ora junto dos Baianos, e em alguns terreiros é lido como Exu. Trabalha caminhos, negócios, questões de casa e de casal, quebra de demanda e proteção de quem anda na rua.
Como se saúda Seu Zé Pilintra?
As saudações mais ouvidas são Salve Seu Zé Pilintra, Salve a Malandragem e Saravá, Seu Zé. Não existe uma fórmula única, e cada casa tem o seu jeito. O que não muda é o tom: fala-se com ele com respeito e com leveza, porque é entidade de conversa franca.
O que se oferece a Zé Pilintra?
O que mais aparece nas casas é cachaça, cerveja clara gelada, cigarro branco ou charuto, moedas, um baralho, velas branca e vermelha, flores brancas e vermelhas, frutas, água e um petisco de carne. As cores da linha são o branco e o vermelho, e o preto costuma ficar de fora. O dia mais aceito para a festa dele é 28 de outubro. Como sempre, o fundamento de cada casa vem antes de qualquer lista.
O ponto de Zé Pilintra é de domínio público?
Este ponto circula como tradição oral e as fontes que o publicam não trazem compositor identificado, o que é o caso da maioria dos pontos antigos. Ainda assim, é bom saber que existem pontos de umbanda com autoria moderna e registro, e por isso reproduzimos aqui apenas os versos de abertura, creditando a fonte e indicando o vídeo para quem quiser ouvir a versão completa.
Quando se canta esse ponto na gira?
Na chegada, quando a corrente abre espaço para a linha da Malandragem, e nas giras de esquerda que trabalham rua, caminho e demanda. Também aparece nas festas de 28 de outubro. É ponto de chamada, então ele vem antes do trabalho e não no encerramento.
Zé Pilintra é Exu?
Depende da casa, e as duas leituras existem de verdade. Alguns terreiros o tratam como Exu, outros o mantêm como mestre juremeiro da tradição do Catimbó e outros o colocam na linha das Almas ou junto dos Baianos, apresentando-se com traje simples e chapéu de palha, sempre com o lenço vermelho. O fundamento da sua casa é que responde essa pergunta.