O que significa o ponto de xangô: kaô cabecile, obá xangô?
Ponto de saudação a Xangô, cantado na gira para chamar a força do Orixá da justiça, do trovão e das pedreiras. A letra é curta de propósito: repete o nome do pai, diz onde ele mora e devolve a saudação, que é o jeito mais antigo de firmar uma corrente. Kaô Cabecile, também escrita Kaô Kabecile e Kawó Kabiyesilé, é expressão de origem iorubá traduzida nos terreiros como venham saudar o rei, e em muitas casas como venham ver o rei descer sobre a terra. Obá quer dizer rei, e por isso obá Xangô é literalmente Rei Xangô: a tradição conta que Xangô, antes de ser Orixá, foi alafin de Oyó, soberano do reino iorubá, e recebeu também o título de Obá Kossô, o rei de Kossô. Xangô mora na pedreira porque a pedra é a imagem da lei: dura, antiga, imóvel, aquilo que não se dobra ao gosto de quem julga. O verso que fala de relampejar aponta o raio e o trovão, a voz de Xangô que anuncia a sentença antes de ela cair. O símbolo dele é o oxé, o machado de dois gumes, que corta para os dois lados, porque não existe justiça que sirva só a um lado. Numa mão o machado, na outra a balança: ele pesa cada causa e dá a cada um o que é de direito, sem pressa e sem favor. Na Umbanda, Xangô é procurado nas causas jurídicas, nos processos, nas injustiças no trabalho e nas decisões difíceis, e é chamado também para firmar a casa quando o ambiente anda instável. O dia da semana é a quarta-feira e a data festiva mais celebrada é 30 de setembro, dia de São Jerônimo, com quem foi sincretizado no Brasil. Esse sincretismo varia: há casas que o associam a São João Batista, outras a São Pedro e, em certas tradições, sobretudo na Bahia e na Santería cubana, a Santa Bárbara, ainda que em muitos terreiros brasileiros Santa Bárbara seja de Iansã. A cor mais usada na Umbanda é o marrom, cor da pedreira, acompanhada do branco, e algumas casas trabalham com o vermelho, herança do Candomblé. O toque muda conforme a curimba: este ponto aparece em congo de ouro, em barravento e em ijexá, e no Candomblé a dança de Xangô é o alujá. A letra é de tradição oral e muda de casa para casa, com versos a mais, grafias diferentes de Cabecile e pequenas mudanças de melodia, de modo que a versão cantada na sua casa é a que vale. Cantar ponto não garante resultado, não substitui a orientação do seu dirigente e não substitui médico, advogado ou tratamento de saúde.
Quando se canta esse ponto?
Na gira de Xangô e nas quartas-feiras, dia dele na Umbanda, sobretudo como ponto de saudação na chegada da linha, para firmar a corrente e reverenciar o Rei da justiça. Também é cantado nos trabalhos de causas jurídicas e processos, quando se pede uma sentença justa, e nas ocasiões em que a casa precisa de firmeza, equilíbrio e a força serena da pedreira.
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
Qual a letra do ponto de Xangô Kaô Cabecile?
A versão mais difundida diz: Xangô, ô Xangô, meu pai Xangô; Xangô mora na pedreira e quem mandou relampejar; Kaô Cabecile, obá Xangô, saravá Xangô, saravá Xangô. É ponto de tradição oral e as casas cantam variantes, algumas começando por Xangô, Xangô, meu pai Xangô, outras trocando relampejar por relampiar. Siga sempre a versão da sua casa.
O que significa Kaô Cabecile?
É a saudação a Xangô, de origem iorubá, escrita também Kaô Kabecile e Kawó Kabiyesilé. A tradução mais repetida nos terreiros é venham saudar o rei, e a glosa mais citada em material de estudo é venham ver o rei descer sobre a terra. As duas leituras dizem a mesma coisa: é chamado para reverenciar a realeza de Xangô no momento em que ele se manifesta.
O que quer dizer obá no verso obá Xangô?
Obá quer dizer rei em iorubá. Obá Xangô é, literalmente, Rei Xangô. A tradição conta que Xangô foi alafin de Oyó, soberano do reino iorubá, e ganhou o título de Obá Kossô, rei de Kossô. Em algumas grafias de terreiro o verso aparece como Kaô Cabecile obi Xangô, que é variação de escrita da tradição oral.
Quando se canta esse ponto de Xangô na gira?
Principalmente como ponto de saudação, na chegada da linha de Xangô, para firmar a corrente. Muitas casas cantam nas quartas-feiras, dia dele, nos trabalhos de justiça e causas jurídicas, e sempre que se quer trazer a firmeza da pedreira para um ambiente instável.
Qual o dia de Xangô e qual a data festiva?
O dia da semana de Xangô na Umbanda é a quarta-feira. A data festiva mais celebrada é 30 de setembro, dia de São Jerônimo, com quem foi sincretizado. Algumas casas festejam em outras datas, conforme o santo com que fazem a associação, então confirme o calendário do seu terreiro.
Quais são as cores e a vela de Xangô?
Na Umbanda a cor principal é o marrom, cor da pedreira e da firmeza da lei, acompanhada do branco. Muitas casas usam também o vermelho, mais comum no Candomblé, e os tons de terra. As listas divergem, e a vela marrom com a branca é a combinação mais vista. Confira o fundamento da sua casa.
Por que se diz que Xangô mora na pedreira?
Porque a pedreira é o território sagrado dele. A pedra é antiga, dura e não se move, e por isso serve de imagem da lei que não se dobra ao gosto de quem julga. É nas pedreiras que muitas casas entregam as oferendas a Xangô, sempre com licença e respeito ao lugar.
O que é o oxé, o machado de Xangô?
O oxé é o machado de dois gumes, ferramenta e símbolo de Xangô. Corta para os dois lados, e esse detalhe é o fundamento: a justiça que só serve a um lado não é justiça. Nos pontos ele aparece ao lado da balança, imagem do juiz que pesa a causa antes de decidir.
Xangô é São Jerônimo ou Santa Bárbara?
Depende da casa, e aqui a tradição divide mesmo. No Brasil o sincretismo mais forte é com São Jerônimo, o santo doutor, celebrado em 30 de setembro. Há casas que associam Xangô a São João Batista ou a São Pedro, e em certas tradições, sobretudo na Bahia e na Santería cubana, a Santa Bárbara. Em muitos terreiros brasileiros, porém, Santa Bárbara é de Iansã. São figuras distintas unidas pelo sincretismo, não a mesma entidade.
Qual o toque desse ponto de Xangô?
Varia com a curimba da casa. Este ponto de saudação é cantado em congo de ouro, em barravento e também em ijexá, toque cadenciado e majestoso. No Candomblé, a dança e o ritmo próprios de Xangô são o alujá. Não há um único toque correto: siga o que a sua curimba usa.
Pode pedir a Xangô justiça contra alguém?
A Xangô se pede justiça, não prejuízo a terceiros. O fundamento é que ele pesa a causa e dá a cada um o que é de direito, inclusive a quem pede. Por isso o pedido honesto é por uma sentença justa, por firmeza e por proteção contra a injustiça, e não por castigo a outra pessoa. Nada disso substitui advogado nem garante desfecho de processo.
Esse ponto tem letra única?
Não. Os pontos cantados são de tradição oral e variam de terreiro para terreiro, com versos a mais ou a menos, grafias diferentes de Cabecile e melodias distintas. Há registros com autoria atribuída em algumas casas e há registros sem autor. Cante a versão da sua casa e respeite a forma como o seu dirigente firma o ponto.