Ponto de Preto Velho: Vovó Não Quer Casca de Coco
Vovó não quer casca de coco no terreiro
Ouça o ponto
Letra do ponto
Letra de tradição oral; pode variar de casa para casa.
Significado
Este é um dos pontos de Preto Velho mais antigos e mais cantados do Brasil. Não tem autor conhecido, passa de curimba em curimba pela tradição oral e é tão conhecido que virou título de estudo acadêmico sobre memória nos terreiros de Umbanda.
A letra é curtíssima e diz tudo em dois versos. A Vovó não quer casca de coco no terreiro, e explica o motivo: para não lembrar do tempo do cativeiro. É a voz de uma Preta Velha que viveu a escravidão e que, agora em Aruanda, pede que aquela dor não seja posta diante dela.
A leitura mais repetida nas casas é que a casca de coco seco servia de cuia, de prato e de caneca na senzala. Era o utensílio de quem não tinha nada. Ver a casca no chão do terreiro faz a Vovó recordar a comida pouca, o trabalho forçado e a vida sem liberdade.
Há quem leia o ponto também como um pedido de cuidado com o terreiro. O chão da gira é sagrado, deve estar limpo e varrido, e o que remete à humilhação fica de fora. A Vovó chega para acolher, e a casa a recebe com respeito.
O curioso é que o ponto não apaga a memória: ele a canta. A pesquisadora Claudia Antonangeli conta que, numa festa de Pretos-Velhos, os fiéis cantavam esses versos enquanto comiam farofa na casca de um coco seco. Para ela, o terreiro usa o corpo e o canto para guardar uma memória que não pode se perder.
É esse o jeito dos Pretos-Velhos. Eles carregam a lembrança do cativeiro sem rancor e transformam a dor em sabedoria, paciência e conselho. Quem senta no banquinho diante de uma Vovó não ouve queixa: ouve uma palavra de quem já passou pelo pior e ainda assim escolheu cuidar.
Os Pretos-Velhos trabalham na linha das Almas, com cachimbo, arruda, café e rosário, e são saudados em muitas casas com Adorei as Almas ou Salve as Almas. Pai Joaquim, Vovó Maria Conga, Vovó Cambinda e Pai Benedito estão entre os nomes mais lembrados.
A letra varia pouco, mas varia. Há casas que cantam Papai não quer em vez de Vovó não quer, há quem diga porque lembra em vez de pra não lembrar, e o refrão se repete quantas vezes a curimba quiser. A versão que a sua casa canta é a que vale para você.
Quando se canta
Na gira de Pretos-Velhos, na chegada das Vovós e dos Vovôs ou logo depois, quando a corrente já está firmada e a curimba toca mais devagar. É um ponto de andamento manso, cantado com respeito e quase sempre repetido várias vezes.
É muito lembrado nas festas de Pretos-Velhos de 13 de maio, data da Lei Áurea, que boa parte das casas reserva para eles. Nessas festas há mesa com comidas simples, como feijoada, farofa, canjica e café, e o ponto entra como memória viva do cativeiro.
Muitas casas cantam também às segundas-feiras, dia mais ligado às Almas, e em trabalhos de consolo e aconselhamento. A ordem dos pontos e o momento de cada um são sempre do dirigente e do ogã da casa.






