O que significa o ponto de preto velho: pai joaquim de angola?
Ponto de louvação e de chamada a Pai Joaquim de Angola, um dos pretos-velhos mais cultuados da Umbanda brasileira, citado ao lado de Vovó Maria Conga sempre que se fala das entidades mais conhecidas da linha. O refrão que reproduzimos aqui é a parte que a corrente canta em coro, e ele diz três coisas em quatro versos: de onde o velho vem, o que ele é para quem canta e em nome de quem ele trabalha. O verso Pai Joaquim veio de Angola nomeia a origem. Angola é a região da África central de onde saiu a maior parte das pessoas escravizadas trazidas para o Brasil, e é dela que vem a matriz banto, com o quimbundo e o quicongo, que sustenta boa parte do vocabulário de terreiro, palavras como mironga, calunga, quizila e o próprio nome Aruanda, que a tradição liga a Luanda, a capital angolana, transformada em morada espiritual dos guias. Cantar que o velho veio de Angola é, portanto, afirmar uma linhagem inteira, e não apenas um endereço no mapa. O verso seguinte chama Pai Joaquim de grande Orixá, e isso merece explicação, porque confunde quem está começando. No fundamento, Preto-Velho não é Orixá: é espírito de pessoa que viveu, que atravessou o cativeiro no Brasil e voltou para trabalhar na caridade. Nos pontos antigos, porém, a palavra Orixá aparece muitas vezes como tratamento de reverência, do mesmo modo que se chama de santo o guia da casa, e é nesse sentido que a letra a usa. O fecho, com as graças de Oxalá, coloca o velho debaixo da autoridade do mais velho dos Orixás, e não é detalhe solto: a tradição liga os Pretos-Velhos sobretudo a Oxalá e a Omolu, os dois anciãos do panteão, e é essa leitura que sustenta a linha das Almas, também chamada de linha de Yorimá, cuja saudação é Adorei as Almas. A estrofe de abertura do ponto, que não copiamos aqui, constrói a imagem que dá nome à música em muitas casas: o velho é visto na mata verde, diante de um lago azul que a lua cheia vem beijar de noite, e é dessa água limpa que se bebe para receber a bênção. É imagem de fundamento, e não enfeite, porque reúne os três territórios do trabalho de Preto-Velho, a mata das ervas e dos benzimentos, a água que lava e o tempo da noite, que é o tempo da gira. Sobre quem foi Pai Joaquim, a honestidade manda separar memória de terreiro de história documentada. As casas contam que ele foi africano trazido de Angola no navio negreiro, que trabalhou em lavoura de cana e de café, que ficou conhecido como curandeiro entre os seus e que voltou como guia de conselho curto, de fala mansa e de silêncio longo, benzendo com arruda e trabalhando com o cachimbo aceso. Circulam pela internet datas de nascimento e de morte, e nenhuma tem lastro em fonte histórica: são narrativas de fé, transmitidas dentro das casas, e é assim que devem ser lidas, com respeito e sem transformar a escravidão em folclore. O que se pode afirmar com segurança é que Pai Joaquim é nome de falange, ou seja, designa uma corrente inteira de espíritos, e por isso o Pai Joaquim que trabalha em um terreiro não é necessariamente o mesmo que trabalha no outro, o que explica histórias diferentes e todas verdadeiras para quem as guarda. Duas notas finais de transparência. A primeira é que a letra deste ponto varia muito de terreiro para terreiro: existem pontos completamente diferentes dedicados ao mesmo velho, registrados em acervos de letras, entre eles um que pergunta que preto é esse, oh Calunga, que chegou agora, e outro, conhecido como versão do vovô, que descreve o velho descendo a ladeira com a sacola, o rosário e o patuá. Todas são legítimas, e a que vale para você é a que a sua casa canta. A segunda é que a autoria não é pacífica: acervos de cifras atribuem esta versão ao compositor José Manoel Alves, enquanto outros registros catalogam os pontos de Pai Joaquim genericamente como Umbanda, de tradição oral e autor desconhecido. Por isso reproduzimos apenas o refrão e explicamos o restante, em vez de copiar a letra inteira, por respeito a quem compôs e a quem registrou.
Quando se canta esse ponto?
Na gira de Pretos-Velhos, como ponto de chamada e de louvação a Pai Joaquim de Angola, quando a corrente abre espaço para o velho chegar e firmar o trabalho. Também é cantado nas festas e nas firmezas da linha das Almas, muitas vezes com uma vela firmada para ele no congá, nas segundas-feiras em que a maior parte das casas trabalha os Pretos-Velhos e nas datas de memória, como o 13 de maio e a Semana da Consciência Negra.
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
Quem é Pai Joaquim de Angola na Umbanda?
É um dos pretos-velhos mais cultuados do Brasil, lido na tradição como espírito de africano trazido de Angola no tempo do tráfico, que viveu o cativeiro na lavoura, ficou conhecido como curandeiro entre os seus e voltou como guia da linha das Almas. Trabalha pelo conselho curto, pela paciência e pelo benzimento, com o cachimbo aceso e a arruda na mão. Vale lembrar que Pai Joaquim é nome de falange, isto é, de uma corrente inteira de espíritos, e por isso o Pai Joaquim de uma casa não é necessariamente o mesmo de outra.
Por que o ponto chama um Preto-Velho de grande Orixá?
Porque nos pontos antigos a palavra Orixá aparece muitas vezes como tratamento de reverência, e não como classificação de fundamento. No fundamento, Preto-Velho não é Orixá: é espírito de pessoa que viveu, morreu e voltou para trabalhar na caridade, enquanto o Orixá é força da natureza e do divino, anterior a qualquer biografia. O verso está louvando o velho com a palavra mais alta que o cantador tinha à mão, do mesmo modo que se chama de santo o guia da casa.
O que significa o Angola no nome dele?
Nomeia a origem e a linhagem. Angola é a região da África central de onde saiu a maior parte das pessoas escravizadas trazidas para o Brasil, e dela vem a matriz banto, com o quimbundo e o quicongo, que deu ao terreiro palavras como mironga, calunga e quizila. A própria Aruanda, morada espiritual dos guias na Umbanda, é ligada pela tradição ao nome de Luanda, a capital angolana. Cantar que o velho veio de Angola é afirmar essa ancestralidade inteira.
Por que o ponto termina com as graças de Oxalá?
Porque situa o trabalho do velho debaixo da autoridade do mais velho dos Orixás. A tradição liga os Pretos-Velhos sobretudo a Oxalá e a Omolu, os dois anciãos do panteão, e é essa ligação que sustenta a linha das Almas, também chamada de linha de Yorimá, saudada com Adorei as Almas. O verso diz, em resumo, que o guia não trabalha por conta própria: ele desce autorizado, e a proteção que traz vem de cima.
Quando se canta esse ponto na gira?
Na gira de Pretos-Velhos, como ponto de chamada e de louvação, quando a corrente abre espaço para o velho chegar. Também nas festas e nas firmezas da linha, muitas vezes com uma vela firmada para ele no congá, que é o altar da casa. A maior parte dos terreiros trabalha essa linha na segunda-feira, e o 13 de maio é a data mais lembrada no calendário. A ordem dos pontos é sempre do dirigente, e varia de casa para casa.
Qual é a letra completa do ponto?
Aqui reproduzimos apenas o refrão, que é a parte cantada em coro por toda a corrente, e explicamos o conteúdo da primeira estrofe em vez de copiá-la, por respeito a quem compôs e a quem registrou. Essa estrofe descreve o velho na mata verde, diante de um lago azul que a lua cheia vem beijar de noite, e a água limpa da qual se bebe para receber a bênção. A letra inteira está no vídeo indicado nesta página, que traz a legenda, e em acervos de letras e de cifras.
Existem outros pontos de Pai Joaquim de Angola?
Existem, e bem diferentes deste. Os acervos registram, entre outros, um ponto que pergunta que preto é esse, oh Calunga, que chegou agora, e outro conhecido como versão do vovô, que descreve o velho descendo a ladeira com a sacola, o rosário e o patuá. Há ainda pontos que o citam de passagem, como os que falam do cachimbo com mironga. Todos são legítimos: ponto cantado é tradição oral e cada casa canta a versão que aprendeu.
Quem compôs esse ponto?
A autoria não é pacífica, e isso é comum no repertório de terreiro. Acervos de cifras atribuem esta versão ao compositor José Manoel Alves, enquanto outros registros catalogam os pontos de Pai Joaquim genericamente como Umbanda, de tradição oral e autor desconhecido. O mais provável, como em quase todo ponto antigo, é que exista uma base oral com arranjos e registros posteriores. Onde não há certeza, o correto é dizer que não há.
Posso cantar esse ponto em casa?
Cantar ponto em casa, com respeito, é prática comum e nenhuma casa séria proíbe. O que não se faz sozinho é o trabalho: chamar entidade para incorporar, montar gira e conduzir manifestação são coisas de terreiro, com corrente, cambono e dirigente que responde por aquilo. E há um cuidado a mais neste caso, porque o ponto toca a memória da escravidão: ouvir e estudar é bem-vindo, transformar em trilha sonora descontextualizada não é.