O que significa o ponto de maria padilha: deu meia-noite, a lua se escondeu?
Ponto de chegada de Maria Padilha, a mais conhecida das Pombagiras da Umbanda. A letra é curta e faz o que os pontos de chegada costumam fazer: descreve a cena inteira em poucos versos, marcando a hora, o lugar e o sinal da manifestação. A meia-noite é a hora simbólica das entidades da Esquerda, o momento em que um dia termina e outro começa, e por isso ela aparece em tantos pontos da linha. A lua que se esconde reforça o mistério e a discrição do trabalho da noite. A encruzilhada é o território por excelência dos Exus e das Pombagiras, ponto de passagem entre caminhos e entre planos, e é ali que a tradição situa o encontro. A gargalhada é a marca mais reconhecível da chegada de uma Pombagira na gira, e nas casas ela é entendida como riso de quem não teme e não se curva, e não como deboche. As palavras Alaruê e mojubá vêm do vocabulário ritual afro-brasileiro e funcionam aqui como saudação e como reverência, do mesmo jeito que Laroyê. Odara é palavra iorubá que quer dizer bonito, bom, aquilo que está no ponto certo, e nesse verso ela louva a beleza e a firmeza da entidade. O fecho, é só pedir que ela dá, é o que mais gera confusão entre quem chega de fora, e merece leitura honesta: nos terreiros ele é cantado como declaração de confiança na resposta da corrente, e não como promessa de que qualquer pedido será atendido. Umbanda séria não promete resultado, não faz amarração e não trabalha para dominar a vontade de ninguém. Este ponto é de tradição oral e circula em muitas versões, com versos a mais ou a menos e com a mesma melodia atribuída também a Exu em algumas casas.
Quando se canta esse ponto?
Na gira de Esquerda e nos trabalhos da linha das Pombagiras, para chamar a corrente de Maria Padilha. É ponto de chegada, cantado quando a corrente abre espaço para a Rainha se manifestar, e por isso a letra descreve exatamente a cena da chegada dela: a hora, o lugar, o riso e a aparição. Muitas casas o cantam também nas firmezas de sexta-feira e nas festas da linha.
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
Quem é Maria Padilha na Umbanda?
Maria Padilha é a mais conhecida das Pombagiras da Umbanda, chamada em muitas casas de Rainha das encruzilhadas. Ela nomeia uma falange inteira, com muitas qualidades, como Maria Padilha das Almas, do Cruzeiro e das Sete Encruzilhadas, e não uma única entidade. A tradição a descreve como guardiã, mulher de fala direta e riso alto, que trabalha limpando caminhos, defendendo quem foi humilhado e devolvendo autoestima. Vale dizer com clareza: Pombagira na Umbanda é guardiã, e não demônio.
O que quer dizer Alaruê e mojubá no ponto?
São palavras do vocabulário ritual afro-brasileiro usadas como saudação e como reverência. Mojubá, do iorubá mo júbà, carrega o sentido de eu vos saúdo e eu vos presto reverência. Alaruê aparece na curimba como brado de saudação, na mesma família de Laroyê. Nos pontos elas funcionam como cumprimento cantado, o gesto de chamar pelo nome e pedir licença ao mesmo tempo.
O que significa odara?
Odara é palavra iorubá que quer dizer bonito, bom, aquilo que está no ponto certo, e é muito usada nos terreiros como elogio e como reconhecimento de que algo está bem feito. No verso, ela louva a beleza e a firmeza da entidade. Em outras casas a palavra aparece ligada também a uma qualidade de Exu, o que mostra como o vocabulário circula entre as linhas.
Por que a meia-noite aparece tanto nos pontos de Esquerda?
Porque é a hora da virada, o instante em que um dia termina e outro começa, e a Umbanda lê esse momento como passagem. As entidades da Esquerda são justamente as guardiãs das passagens, e por isso a meia-noite, a encruzilhada e a madrugada aparecem juntas em tantos pontos da linha. Não é hora de medo: é hora de fronteira.
A gargalhada da Pombagira é sinal ruim?
Não. O riso alto é a marca mais reconhecível da chegada de uma Pombagira na gira, e nas casas ele é entendido como riso de quem não teme e não se curva, e não como deboche ou ameaça. Quem está no terreiro pela primeira vez costuma se assustar, e é normal. Observe, respeite e pergunte depois ao dirigente da casa o que você não entendeu.
É só pedir que ela dá quer dizer que qualquer pedido é atendido?
Não, e essa é a parte que mais merece leitura honesta. O verso é cantado como declaração de confiança na resposta da corrente, e não como promessa de atendimento automático. A Umbanda séria não garante resultado, não faz amarração, não trabalha para dominar a vontade de ninguém e não vende milagre. Desconfie de quem usa esse verso para prometer o impossível em troca de dinheiro.
Essa é a única versão desse ponto?
Não. Os pontos cantados são de tradição oral e mudam de terreiro para terreiro, com versos a mais ou a menos, palavras trocadas e melodias diferentes. Essa mesma letra circula também como ponto de Exu em várias casas, com a Padilha substituída pelo nome do guardião. Cante a versão da sua casa e respeite a forma como o seu dirigente firma o ponto.