
Uma das perguntas mais feitas por quem chega à Umbanda, e também uma das mais carregadas de medo e desinformação. Entenda por que a maior parte das casas trabalha sem sangue, onde o corte ainda existe, qual é o sentido dele nas tradições que o praticam e o que a lei brasileira diz sobre isso.
Na maioria dos terreiros de Umbanda, não há sacrifício de animais. As oferendas são feitas com flores, frutas, velas, comidas, bebidas e ervas, e o axé é trabalhado pela fé, pela palavra e pela caridade. Mas a Umbanda não é uma só: algumas vertentes mais próximas das raízes africanas mantêm o chamado corte. Neste artigo você entende essa diferença com respeito, sem tabu e sem preconceito.
Resposta rápida
Em regra, não. Estudos acadêmicos sobre a religião descrevem o sacrifício de animais na Umbanda como exceção, e não como regra, ao contrário do que acontece no Candomblé.
A maior parte das casas cultua os Orixás e trabalha com os guias sem derramar sangue. A oferenda é feita com elementos da natureza, alimentos preparados e muita intenção.
Existem, porém, terreiros de Umbanda que realizam o corte, em geral nas vertentes mais africanizadas, como o Omolokô e algumas casas de Umbanda Traçada. Cada casa segue o fundamento que recebeu.
Por que a maioria das casas não usa sangue
A Umbanda nasceu no começo do século 20 com forte marca da caridade e da comunicação com os espíritos, e recebeu influência do espiritismo kardecista. Esse caminho levou muitas casas a trabalhar sem sacrifício.
Na Umbanda Branca e nas linhas mais próximas do espiritismo, os Orixás são compreendidos como forças da natureza e energias divinas. Nessa visão, o que alimenta o axé é a vibração da fé, e não o sangue.
Por isso a oferenda umbandista típica é feita de flores, frutas, velas, pemba, ervas, bebidas, comidas secas e pratos como o amalá ou o padê.
Onde o corte ainda existe
Seria injusto dizer que nenhuma Umbanda faz sacrifício. Pesquisadores registram terreiros umbandistas que mantêm a prática, e uma dissertação de mestrado defendida na UFSCar em 2024 é inteira dedicada à sacralização de animais num terreiro de Umbanda Traçada.
O Omolokô, vertente que reivindica com orgulho a origem negra da religião, também guarda mais elementos rituais africanos. Nessas casas, o corte costuma estar ligado a obrigações específicas e é conduzido por pessoas preparadas para isso.
A diversidade é a marca da Umbanda. Não existe um órgão central que defina uma única forma de culto, e cada terreiro segue a linhagem de quem o fundou.
Qual o sentido do sacrifício nas tradições que o praticam
Nas religiões de matriz africana que fazem o corte, ele não é um ato de crueldade. É compreendido como uma troca sagrada de axé, a força vital, entre o mundo dos humanos e o das divindades.
Em linhas gerais, o animal é abatido de forma rápida por quem tem essa função, partes dele são oferecidas ao Orixá e a carne é preparada e partilhada como refeição pela comunidade. Nada se desperdiça.
As próprias lideranças religiosas condenam quem deixa animais feridos ou abandonados em encruzilhadas. Isso não é fundamento de nenhuma casa séria.
A diferença para o Candomblé
Muita gente confunde as duas religiões. No Candomblé, o sacrifício faz parte da liturgia de forma ampla, sobretudo nas iniciações e nas grandes obrigações, e há cargos próprios para conduzi-lo, como o axogum.
Na Umbanda, o centro do culto é a gira, a incorporação dos guias e o atendimento ao público. Por isso o sangue não é necessário para que um terreiro de Umbanda funcione.
Para entender melhor as duas tradições, veja as diferenças entre Umbanda e Candomblé.
O que diz a lei brasileira
Em 28 de março de 2019, o Supremo Tribunal Federal julgou o Recurso Extraordinário 494601, sobre uma lei do Rio Grande do Sul que permite o sacrifício ritual em cultos de matriz africana.
A tese fixada, com repercussão geral, diz que é constitucional a lei de proteção animal que, para resguardar a liberdade religiosa, permite o sacrifício ritual de animais em cultos de religiões de matriz africana.
O tribunal lembrou que a liberdade de crença e de culto é garantida pela Constituição e que essas práticas fazem parte do patrimônio cultural afro brasileiro. Maus-tratos e crueldade continuam proibidos.
Medo, boato e intolerância
A imagem do terreiro como lugar de matança é, muitas vezes, fruto de racismo religioso. Ela é usada para assustar as pessoas e justificar ataques às casas de axé.
Quem frequenta uma gira de Umbanda encontra, na imensa maioria das vezes, cantos, fumaça de defumação, passes e conselhos dos guias. Nada de sangue.
E nas casas que fazem o corte, ele é tratado com seriedade, respeito e fundamento. Respeitar as duas escolhas é parte do caminho de quem ama a espiritualidade afro brasileira.
E na sua casa?
Se você está chegando agora e tem essa dúvida, pergunte diretamente ao pai ou à mãe de santo. Uma casa séria explica o seu fundamento com tranquilidade.
Ninguém é obrigado a participar de um rito com o qual não se sente bem. Escolher um terreiro alinhado com o seu coração também é cuidar da sua espiritualidade.
Em resumo
A maior parte da Umbanda não faz sacrifício de animais: as oferendas são de flores, frutas, velas, ervas e comidas, e o axé é movido pela fé e pela caridade.
Algumas vertentes, como o Omolokô e certas casas de Umbanda Traçada, mantêm o corte, que no Brasil é protegido pela liberdade religiosa desde a decisão do STF de 2019. Cada terreiro segue a sua raiz, e todas merecem respeito.
Fontes e referências
- Dizer o Direito, É constitucional lei estadual que permite o sacrifício de animais em cultos de religiões de matriz africana (STF, RE 494601, Info 935), 2019
- Revista do CPJM (UERJ), artigo sobre sacrifício de animais nas religiões afro brasileiras
- Empório do Direito, É possível sacrificar animais sob o pretexto de culto religioso?
- Sincretismo e africanidade na Umbanda Omolokô, revista Ciencias Sociales (Universidad Pablo de Olavide)
- Dissertação de mestrado sobre a sacralização de animais num terreiro de Umbanda Traçada, Repositório UFSCar, 2024
Perguntas frequentes
A Umbanda faz sacrifício de animais?
Existe Umbanda que faz corte?
Qual a diferença entre Umbanda e Candomblé nesse ponto?
Sacrifício de animais é crime no Brasil?
O que acontece com o animal depois do ritual?
Por que a Umbanda Branca não faz sacrifício?
O que se oferece na Umbanda no lugar do sangue?
Posso frequentar a Umbanda se sou contra o sacrifício animal?
Toda casa de axé que faz corte é perigosa?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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