
Mar, mata, cachoeira, pedreira, campo aberto, estrada e encruzilhada. Para a Umbanda, a natureza é o primeiro templo, e cada um desses lugares guarda a vibração de um Orixá. Entenda o que é ponto de força, a quem pertence cada um e como chegar, oferendar e sair do jeito certo.
Ponto de força é o lugar da natureza onde a Umbanda entende que a energia de um Orixá se manifesta com mais intensidade. O mar de Iemanjá, a cachoeira de Oxum, a mata de Oxóssi, a pedreira de Xangô: cada um desses lugares é chamado também de santuário natural, um altar a céu aberto onde o umbandista reza, oferenda, toma banho de axé e se reconecta. Neste artigo você entende o que é um ponto de força, qual Orixá e qual linha costumam ser ligados a cada um, para que serve visitar esses lugares e quais cuidados as casas sérias pedem, inclusive com a natureza.
Resposta rápida
Ponto de força é o santuário natural de um Orixá. Na Umbanda, os Orixás são compreendidos como forças da natureza, e cada força tem um lugar onde vibra com mais pureza: o mar, os rios, as cachoeiras, as matas, as pedreiras, os lagos, o campo aberto, os caminhos e as encruzilhadas. Nesses lugares o terreiro faz oferendas, giras externas, banhos e consagrações, e o médium vai buscar o axé do Orixá direto da fonte. A tradição pede que se chegue com respeito, se peça licença ao guardião do lugar e se saia sem deixar lixo.
O que é um ponto de força, em poucas palavras
A ideia de ponto de força nasce de um entendimento muito antigo, que a Umbanda herdou das tradições africanas e indígenas: não se adora a natureza em si, e sim a força divina que se manifesta nela. O trovão, a pedra, a água doce, o vento, o mar e a mata são expressões dos Orixás, e por isso os lugares onde esses elementos estão vivos são considerados sagrados.
Os textos de terreiro descrevem o ponto de força como um grande centro de energia da natureza, capaz de receber e irradiar vibrações, e por isso um lugar privilegiado para o contato com o plano espiritual. Muitos dirigentes resumem assim: o congá é o altar que a casa monta; o ponto de força é o altar que a natureza já entregou pronto, disponível o ano inteiro.
Vale não confundir com outros nomes parecidos. Ponto de força não é o ponto cantado, que é a música da gira, nem o ponto riscado, que é o desenho feito com pemba. Também não é o mesmo que a firmeza do terreiro, embora muitas firmezas sejam feitas com elementos trazidos dos pontos de força.
O ponto de força de cada Orixá
A correspondência mais repetida nas casas de Umbanda é esta, lembrando que há variações conforme a raiz e a linha de cada terreiro:
- Mar e beira da praia: Iemanjá, a mãe das águas salgadas. Muitas casas lembram que o mar é o altar aberto a todos.
- Cachoeira e rios: Oxum, senhora das águas doces. A pedra da cachoeira também é lembrada como força de Xangô.
- Mata e floresta: Oxóssi e os Caboclos. Na mata também se saúda Ossaim, dono das folhas.
- Pedreira e montanha: Xangô, Orixá da justiça. Várias casas ligam a pedreira também a Iansã, que outras saúdam perto dos bambuzais.
- Caminhos e estradas: Ogum, o abridor de caminhos. Algumas casas citam também a linha do trem e os campos de batalha.
- Lagos e margens de lagoas: Nanã, a mais velha das mães.
- Campo aberto e o tempo: Oxalá, e em muitas casas também Iansã, pelos ventos.
- Cemitério e Cruzeiro das Almas: Obaluaê e Omulu, ligados à calunga e ao Cruzeiro das Almas.
- Jardins, praias e cachoeiras: os Erês e a Ibejada.
- Encruzilhadas: os Exus e as Pombagiras, guardiões dos caminhos, dentro da Lei regida por Ogum.
Algumas escolas, como a Umbanda Sagrada, acrescentam outros Orixás e santuários, como Obá nas matas à beira dos rios e Egunitá nas pedreiras. Por isso a sua casa pode ensinar uma lista um pouco diferente, e a orientação dela é a que vale para você.
Para que serve ir a um ponto de força
O terreiro vai ao ponto de força por vários motivos, e quase sempre com orientação do dirigente:
- Oferendar e agradecer. É o uso mais conhecido: levar a oferenda ao Orixá no lugar que é dele, como as flores entregues a Iemanjá na virada do ano.
- Giras externas. Muitas casas fazem gira de Caboclo na mata, de Iemanjá na praia ou de Oxum na cachoeira, uma ou mais vezes por ano.
- Energizar o médium. As casas recomendam que o médium visite os pontos de força para recarregar e receber o axé do Orixá de frente, sobretudo do seu Orixá de cabeça.
- Limpeza espiritual. O banho de mar e o banho de cachoeira são indicados pelos guias como descarrego forte, que ajuda a desfazer cargas acumuladas.
- Consagrar objetos. Em muitas casas, a pedra que vai virar otá e certos elementos do assentamento são buscados ou consagrados no ponto de força do Orixá.
Como entrar e sair de um ponto de força
A regra de ouro que os mais velhos repetem é: quem sabe entrar sabe sair. Os passos variam de casa para casa, mas a estrutura mais comum é esta:
- Preparar-se antes. Muitas casas pedem um banho de ervas de proteção antes de sair, do pescoço para baixo, e um período de preceito leve. A vela do anjo da guarda costuma ficar firmada em casa.
- Pedir licença ao guardião. Antes de arriar qualquer oferenda, a tradição saúda a Esquerda que guarda aquele lugar, como o guardião das matas ou da praia, e não o Exu pessoal. É um gesto de respeito, pedindo permissão para entrar e sair.
- Saudar o Orixá. Com a saudação dele, em silêncio ou com ponto cantado, e com o coração tranquilo.
- Fazer o que foi orientado. Oferenda, banho, oração ou consagração, sem improvisar receitas.
- Recolher e agradecer. Agradecer ao Orixá e ao guardião, recolher o que não é biodegradável e sair com calma.
- Fechar em casa. Muitas casas orientam um banho de fixação na força do Orixá ao voltar, também do pescoço para baixo.
No cemitério, ponto de força de Obaluaê, o cuidado é redobrado. As casas pedem que a pessoa só vá com orientação e saiba como sair, para não trazer carga consigo.
Ponto de força e respeito à natureza
Esse é hoje um dos temas mais falados dentro da própria Umbanda. Se a natureza é o templo, sujar a natureza é desrespeitar o sagrado. Os textos de terreiro chegam a dizer que lixo deixado no santuário obstrui a força do lugar, e que a riqueza de uma oferenda não está na quantidade de coisas, e sim na fé e no amor de quem oferenda.
Por isso muitas casas adotaram práticas como estas:
- Nada de plástico, vidro, louça ou alumínio deixados para trás.
- Velas e bebidas recolhidas depois da louvação, ou acesas apenas em local seguro e acompanhadas.
- Flores, frutas e grãos no lugar de materiais que não se decompõem, e em pequena quantidade.
- Cuidado com o fogo em mata seca e com as regras dos parques, praias e unidades de conservação.
Uma oferenda que agride a natureza não honra o Orixá que mora nela. E, como lembram vários dirigentes, cuidar dos pontos de força também ajuda a sociedade a respeitar mais a Umbanda.
E quem mora longe do mar ou da mata?
Nem todo mundo tem cachoeira ou praia por perto, e isso não impede ninguém de viver a fé. As casas costumam lembrar três caminhos:
- Elementos do ponto de força. A água do mar, a água de cachoeira, uma pedra, folhas da mata e a areia da praia carregam algo da força do lugar e são usados nas firmezas e nos banhos.
- Pontos de força da cidade. A encruzilhada, a estrada, o jardim e o campo aberto também são santuários e estão em quase todo lugar.
- O congá da casa. O altar do terreiro é preparado justamente para reunir as forças dos Orixás num só lugar, e a oração sincera em casa vale em qualquer canto.
Cuidados importantes
- Segurança em primeiro lugar. Cachoeira tem enxurrada repentina e pedra escorregadia, mar tem correnteza, mata tem trilha perigosa e pedreira tem desabamento. Vá acompanhado, de dia sempre que possível, e respeite os avisos locais.
- Não vá sozinho fazer trabalho que não conhece. Oferenda e consagração em ponto de força são feitas com orientação da sua casa.
- Respeite outros fiéis e moradores. Praias e matas são espaços públicos, e a discrição também é sinal de respeito.
- Fé não substitui médico. O banho de mar ou de cachoeira conforta e limpa espiritualmente, mas não substitui orientação médica nem tratamento de saúde.
- Desconfie de quem cobra para levar você ao ponto de força e promete resultado garantido. Caridade não se vende.
Em resumo
Ponto de força é o santuário natural de um Orixá: mar de Iemanjá, cachoeira de Oxum, mata de Oxóssi, pedreira de Xangô, caminho de Ogum, lago de Nanã, campo aberto de Oxalá, calunga de Obaluaê e encruzilhada dos Exus. É ali que a Umbanda oferenda, faz gira externa, consagra e se renova. Entrar pedindo licença, sair agradecendo e não deixar lixo para trás é o que transforma uma visita à natureza em um ato de fé.
Fontes e referências
Perguntas frequentes
O que é ponto de força na Umbanda?
Qual é o ponto de força de cada Orixá?
Qual é o ponto de força de Exu?
Ponto de força é a mesma coisa que ponto cantado ou ponto riscado?
Para que serve visitar um ponto de força?
Posso ir sozinho a um ponto de força?
Por que pedir licença ao guardião antes de oferendar?
Pode deixar a oferenda no ponto de força?
Quem mora na cidade pode trabalhar com pontos de força?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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