
Calunga é uma das palavras mais antigas e profundas do vocabulário de terreiro. Vem das línguas bantas, fala de mar, de imensidão e de passagem, e na Umbanda nomeia o mar de Iemanjá, o cemitério de Omulu e as entidades que trabalham nesses dois reinos.
Calunga é a palavra que a Umbanda usa para falar dos grandes reinos da passagem: o mar, chamado de Calunga Grande, e o cemitério, chamado de Calunga Pequena. É um termo de origem banta, trazido pelos povos de Angola e do Congo, que carrega a ideia de imensidão, de mistério e de fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos ancestrais. Neste artigo você entende de onde vem a palavra, o que significa cada uma das calungas, quem trabalha nelas, como o termo aparece nos pontos cantados e por que a morte, nesse vocabulário, não é assunto de medo.
Resposta rápida
Calunga é o nome banto do grande mistério da passagem. Na Umbanda, Calunga Grande é o mar, domínio de Iemanjá, e Calunga Pequena é o cemitério, o campo santo, domínio de Obaluaê e Omulu. A palavra também nomeia, em muitas casas, as entidades que trabalham nesses reinos, o chamado povo da calunga. Não é palavra de mau agouro: fala de acolhimento, de transformação e de ancestralidade.
De onde vem a palavra calunga
Calunga vem das línguas do grupo banto, faladas pelos primeiros africanos escravizados trazidos ao Brasil, vindos sobretudo de Angola e do Congo. A forma mais citada pelos estudiosos é o quimbundo kalunga, que quer dizer mar e também carrega o sentido de imensidão e de grandeza. Por isso se encontram as duas grafias, kalunga e calunga, e as casas aceitam ambas.
Na cosmologia dos povos bacongo, o mundo era desenhado como um grande círculo dividido ao meio por uma linha de água: de um lado o mundo dos vivos, do outro o mundo dos mortos, a terra dos ancestrais. Essa linha, essa fronteira de água que separa e ao mesmo tempo liga os dois lados, era a kalunga. Calunga, na origem, é o lugar de passagem, por onde os vivos alcançam a força dos antepassados.
No Brasil a palavra ganhou muitos outros usos. Nomeia a comunidade quilombola Kalunga, em Goiás, a boneca sagrada que sai no cortejo dos maracatus em Pernambuco e, em registros antigos, foi usada até de forma pejorativa. Nos terreiros, porém, ela conservou o sentido religioso: mar, morte, passagem e ancestralidade.
Calunga Grande: o mar de Iemanjá
A Calunga Grande é o mar. É o reino de Iemanjá, a mãe das águas salgadas, e é para lá que vão as flores, os barquinhos e as oferendas que o povo de terreiro entrega na beira da praia.
Há uma camada histórica que muitas casas fazem questão de lembrar. Na travessia do Atlântico, nos navios negreiros, muitos africanos morreram e tiveram o corpo lançado ao oceano. Para os mais velhos, o mar se tornou também um imenso cemitério, e daí vem a leitura de que a Calunga Grande recebe e acolhe os que partiram. É por isso que a tradição fala de Iemanjá como a mãe que recolhe as almas das águas e as devolve ao amparo.
Para quem vai à praia, a regra é a mesma de qualquer entrega séria: pedir licença ao mar, não deixar plástico, vidro nem nada que não se desfaça na natureza, e seguir a orientação da sua casa sobre o que levar.
Calunga Pequena: o cemitério de Omulu
A Calunga Pequena é o cemitério, também chamado de campo santo. É o domínio de Obaluaê e Omulu, o Orixá ligado à doença, à cura, à terra e à transformação do que se encerra. É ali que o corpo é devolvido à terra, e a Umbanda lê esse processo com respeito, não com horror: a matéria volta à natureza e o espírito segue o seu caminho.
No centro de muitos cemitérios fica o Cruzeiro das Almas, o ponto de força da Calunga Pequena, onde se acende vela pelos que partiram e onde, na leitura das casas, as entidades de luz recolhem e encaminham os eguns que ficaram perdidos.
Chamar o cemitério de Calunga Pequena não é disfarçar a palavra morte: é reconhecer que ali existe um reino com regência, com trabalho espiritual e com regra. Por isso ninguém entra na calunga por brincadeira, e casa séria não manda ninguém ao cemitério sem fundamento e sem orientação.
O povo da calunga
Em muitas casas, calunga também é o nome coletivo das entidades que trabalham nesses reinos, o chamado povo da calunga. A leitura varia bastante de terreiro para terreiro, mas alguns nomes aparecem com frequência:
- Os Exus da calunga, guardiões da Calunga Pequena, como Exu Calunga, Exu Caveira, Exu do Cemitério e João Caveira, descritos como os que guardam a porteira e encaminham as almas. Veja mais em tipos de Exu na Umbanda.
- As Pombagiras da calunga, como a Pombagira da Calunga e Maria Padilha das Almas, presentes em muitas casas nesse fundamento.
- Os Pretos-Velhos, que alguns autores e casas também chamam de calungas, pela ligação com as almas, com a ancestralidade e pela sabedoria.
- As falanges do mar, na linha de Iemanjá. Há registros, em dicionários de cultos afro-brasileiros, de calungas como o conjunto de espíritos que vibram na linha das águas, com a entidade Calunguinho citada como chefe dessa falange na umbanda popular.
Trabalhar com o povo da calunga não é trabalhar com o mal. A Umbanda não cultua o mal, e o trabalho na calunga é caridade: amparar quem partiu, encaminhar o espírito perdido, cortar o que pesa e encerrar ciclos.
A calunga nos pontos cantados
A palavra aparece o tempo todo nos pontos cantados, e entender o vocabulário ajuda a entender o ponto. Quando o ponto fala da beira da calunga, das ondas ou das conchas, normalmente está falando do mar e de Iemanjá. Quando fala do portão da calunga, do cruzeiro, da cova ou das almas, está falando do cemitério e do povo de Omulu.
Nos pontos de Exu e de Pombagira, a calunga costuma ser citada como a morada ou o reino de trabalho da entidade, e é assim que surgem nomes como Exu Calunga, Tiriri da Calunga e Meia Noite da Calunga. Nos pontos de Preto-Velho, a calunga lembra a travessia, a escravidão e a memória dos que vieram de Angola e do Congo. Você encontra muitos desses cânticos na seção de pontos de Umbanda do site.
Calunga não é lugar de medo
Para a cultura ocidental, mar revolto e cemitério costumam despertar medo. Para os povos bantos, e para a Umbanda que herdou esse vocabulário, a calunga é o lugar onde os vivos encontram a força dos antepassados. Alguns cuidados que as casas repetem:
- Respeito sempre. Peça licença ao entrar na praia para uma entrega ou no cemitério para uma vela, e saúde o guardião do lugar.
- Sem receita de internet. Oferenda na calunga, sobretudo na Calunga Pequena, é assunto de fundamento e de orientação do dirigente.
- Cuidado com a natureza e com as regras do lugar. Nada de plástico, vidro ou vela perto de mato seco, e muitos cemitérios proíbem fogo e oferenda.
- Luto também é cuidado de saúde. Se a perda de alguém pesa demais, a fé ajuda, mas não substitui acompanhamento psicológico ou médico.
Em resumo
Calunga é a palavra banta do mistério da passagem. Na Umbanda, Calunga Grande é o mar de Iemanjá e Calunga Pequena é o cemitério de Obaluaê e Omulu. O termo também nomeia o povo da calunga, os guardiões, as Pombagiras e os ancestrais que trabalham nesses reinos, e atravessa os pontos cantados como lembrança de que a morte, para quem tem fé, é passagem e não fim.
Fontes e referências
Perguntas frequentes
O que é calunga na Umbanda?
Qual a diferença entre Calunga Grande e Calunga Pequena?
De onde vem a palavra calunga?
O certo é calunga ou kalunga?
Por que o mar também é ligado à morte?
Quem é o povo da calunga?
Qual Orixá rege a calunga?
O que significa beira da calunga nos pontos?
Posso fazer oferenda na calunga sozinho?
Calunga é coisa ruim ou de mau agouro?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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