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O que é Calunga na Umbanda? Calunga Grande, Calunga Pequena e o povo da calunga

Calunga é uma das palavras mais antigas e profundas do vocabulário de terreiro. Vem das línguas bantas, fala de mar, de imensidão e de passagem, e na Umbanda nomeia o mar de Iemanjá, o cemitério de Omulu e as entidades que trabalham nesses dois reinos.

Por Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan·29 de setembro de 2026·10 min de leitura
O que é Calunga na Umbanda? Calunga Grande, Calunga Pequena e o povo da calunga
Resposta rápida

Calunga é uma das palavras mais antigas e profundas do vocabulário de terreiro. Vem das línguas bantas, fala de mar, de imensidão e de passagem, e na Umbanda nomeia o mar de Iemanjá, o cemitério de Omulu e as entidades que trabalham nesses dois reinos.

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Calunga é a palavra que a Umbanda usa para falar dos grandes reinos da passagem: o mar, chamado de Calunga Grande, e o cemitério, chamado de Calunga Pequena. É um termo de origem banta, trazido pelos povos de Angola e do Congo, que carrega a ideia de imensidão, de mistério e de fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos ancestrais. Neste artigo você entende de onde vem a palavra, o que significa cada uma das calungas, quem trabalha nelas, como o termo aparece nos pontos cantados e por que a morte, nesse vocabulário, não é assunto de medo.

Resposta rápida

Calunga é o nome banto do grande mistério da passagem. Na Umbanda, Calunga Grande é o mar, domínio de Iemanjá, e Calunga Pequena é o cemitério, o campo santo, domínio de Obaluaê e Omulu. A palavra também nomeia, em muitas casas, as entidades que trabalham nesses reinos, o chamado povo da calunga. Não é palavra de mau agouro: fala de acolhimento, de transformação e de ancestralidade.

De onde vem a palavra calunga

Calunga vem das línguas do grupo banto, faladas pelos primeiros africanos escravizados trazidos ao Brasil, vindos sobretudo de Angola e do Congo. A forma mais citada pelos estudiosos é o quimbundo kalunga, que quer dizer mar e também carrega o sentido de imensidão e de grandeza. Por isso se encontram as duas grafias, kalunga e calunga, e as casas aceitam ambas.

Na cosmologia dos povos bacongo, o mundo era desenhado como um grande círculo dividido ao meio por uma linha de água: de um lado o mundo dos vivos, do outro o mundo dos mortos, a terra dos ancestrais. Essa linha, essa fronteira de água que separa e ao mesmo tempo liga os dois lados, era a kalunga. Calunga, na origem, é o lugar de passagem, por onde os vivos alcançam a força dos antepassados.

No Brasil a palavra ganhou muitos outros usos. Nomeia a comunidade quilombola Kalunga, em Goiás, a boneca sagrada que sai no cortejo dos maracatus em Pernambuco e, em registros antigos, foi usada até de forma pejorativa. Nos terreiros, porém, ela conservou o sentido religioso: mar, morte, passagem e ancestralidade.

Calunga Grande: o mar de Iemanjá

A Calunga Grande é o mar. É o reino de Iemanjá, a mãe das águas salgadas, e é para lá que vão as flores, os barquinhos e as oferendas que o povo de terreiro entrega na beira da praia.

Há uma camada histórica que muitas casas fazem questão de lembrar. Na travessia do Atlântico, nos navios negreiros, muitos africanos morreram e tiveram o corpo lançado ao oceano. Para os mais velhos, o mar se tornou também um imenso cemitério, e daí vem a leitura de que a Calunga Grande recebe e acolhe os que partiram. É por isso que a tradição fala de Iemanjá como a mãe que recolhe as almas das águas e as devolve ao amparo.

Para quem vai à praia, a regra é a mesma de qualquer entrega séria: pedir licença ao mar, não deixar plástico, vidro nem nada que não se desfaça na natureza, e seguir a orientação da sua casa sobre o que levar.

Calunga Pequena: o cemitério de Omulu

A Calunga Pequena é o cemitério, também chamado de campo santo. É o domínio de Obaluaê e Omulu, o Orixá ligado à doença, à cura, à terra e à transformação do que se encerra. É ali que o corpo é devolvido à terra, e a Umbanda lê esse processo com respeito, não com horror: a matéria volta à natureza e o espírito segue o seu caminho.

No centro de muitos cemitérios fica o Cruzeiro das Almas, o ponto de força da Calunga Pequena, onde se acende vela pelos que partiram e onde, na leitura das casas, as entidades de luz recolhem e encaminham os eguns que ficaram perdidos.

Chamar o cemitério de Calunga Pequena não é disfarçar a palavra morte: é reconhecer que ali existe um reino com regência, com trabalho espiritual e com regra. Por isso ninguém entra na calunga por brincadeira, e casa séria não manda ninguém ao cemitério sem fundamento e sem orientação.

O povo da calunga

Em muitas casas, calunga também é o nome coletivo das entidades que trabalham nesses reinos, o chamado povo da calunga. A leitura varia bastante de terreiro para terreiro, mas alguns nomes aparecem com frequência:

  • Os Exus da calunga, guardiões da Calunga Pequena, como Exu Calunga, Exu Caveira, Exu do Cemitério e João Caveira, descritos como os que guardam a porteira e encaminham as almas. Veja mais em tipos de Exu na Umbanda.
  • As Pombagiras da calunga, como a Pombagira da Calunga e Maria Padilha das Almas, presentes em muitas casas nesse fundamento.
  • Os Pretos-Velhos, que alguns autores e casas também chamam de calungas, pela ligação com as almas, com a ancestralidade e pela sabedoria.
  • As falanges do mar, na linha de Iemanjá. Há registros, em dicionários de cultos afro-brasileiros, de calungas como o conjunto de espíritos que vibram na linha das águas, com a entidade Calunguinho citada como chefe dessa falange na umbanda popular.

Trabalhar com o povo da calunga não é trabalhar com o mal. A Umbanda não cultua o mal, e o trabalho na calunga é caridade: amparar quem partiu, encaminhar o espírito perdido, cortar o que pesa e encerrar ciclos.

A calunga nos pontos cantados

A palavra aparece o tempo todo nos pontos cantados, e entender o vocabulário ajuda a entender o ponto. Quando o ponto fala da beira da calunga, das ondas ou das conchas, normalmente está falando do mar e de Iemanjá. Quando fala do portão da calunga, do cruzeiro, da cova ou das almas, está falando do cemitério e do povo de Omulu.

Nos pontos de Exu e de Pombagira, a calunga costuma ser citada como a morada ou o reino de trabalho da entidade, e é assim que surgem nomes como Exu Calunga, Tiriri da Calunga e Meia Noite da Calunga. Nos pontos de Preto-Velho, a calunga lembra a travessia, a escravidão e a memória dos que vieram de Angola e do Congo. Você encontra muitos desses cânticos na seção de pontos de Umbanda do site.

Calunga não é lugar de medo

Para a cultura ocidental, mar revolto e cemitério costumam despertar medo. Para os povos bantos, e para a Umbanda que herdou esse vocabulário, a calunga é o lugar onde os vivos encontram a força dos antepassados. Alguns cuidados que as casas repetem:

  • Respeito sempre. Peça licença ao entrar na praia para uma entrega ou no cemitério para uma vela, e saúde o guardião do lugar.
  • Sem receita de internet. Oferenda na calunga, sobretudo na Calunga Pequena, é assunto de fundamento e de orientação do dirigente.
  • Cuidado com a natureza e com as regras do lugar. Nada de plástico, vidro ou vela perto de mato seco, e muitos cemitérios proíbem fogo e oferenda.
  • Luto também é cuidado de saúde. Se a perda de alguém pesa demais, a fé ajuda, mas não substitui acompanhamento psicológico ou médico.

Em resumo

Calunga é a palavra banta do mistério da passagem. Na Umbanda, Calunga Grande é o mar de Iemanjá e Calunga Pequena é o cemitério de Obaluaê e Omulu. O termo também nomeia o povo da calunga, os guardiões, as Pombagiras e os ancestrais que trabalham nesses reinos, e atravessa os pontos cantados como lembrança de que a morte, para quem tem fé, é passagem e não fim.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

O que é calunga na Umbanda?
É a palavra de origem banta que a Umbanda usa para os reinos da passagem: o mar, chamado de Calunga Grande, e o cemitério, chamado de Calunga Pequena. Em muitas casas também nomeia as entidades que trabalham nesses reinos.
Qual a diferença entre Calunga Grande e Calunga Pequena?
Calunga Grande é o mar, domínio de Iemanjá. Calunga Pequena é o cemitério, o campo santo, domínio de Obaluaê e Omulu. As duas são vistas como portais de passagem entre o mundo dos vivos e o mundo espiritual.
De onde vem a palavra calunga?
Das línguas bantas, faladas pelos povos de Angola e do Congo. A forma mais citada é o quimbundo kalunga, que significa mar e também imensidão. Na cosmologia bacongo, kalunga era a linha de água que separa e liga o mundo dos vivos e o dos ancestrais.
O certo é calunga ou kalunga?
As duas grafias são aceitas. Kalunga, com K, é mais próxima da origem africana e também nomeia a comunidade quilombola de Goiás. Calunga, com C, é a forma aportuguesada, a mais usada nos terreiros e nos pontos.
Por que o mar também é ligado à morte?
Porque na cosmologia banta a água é a fronteira entre os vivos e os mortos, e porque muitos africanos morreram na travessia do Atlântico e tiveram o corpo lançado ao mar. Para os mais velhos, o mar virou também um grande cemitério, acolhido por Iemanjá.
Quem é o povo da calunga?
É o nome coletivo das entidades que trabalham nos reinos da calunga, como os Exus da calunga, entre eles Exu Calunga e Exu Caveira, as Pombagiras da calunga e, em várias casas, os Pretos-Velhos. A composição varia de terreiro para terreiro.
Qual Orixá rege a calunga?
Na leitura mais difundida, Iemanjá rege a Calunga Grande, o mar, e Obaluaê e Omulu regem a Calunga Pequena, o cemitério. Algumas casas também ligam Nanã e Iansã ao tema da morte e da passagem.
O que significa beira da calunga nos pontos?
Na maioria dos pontos, beira da calunga é a beira do mar, a praia de Iemanjá. Quando o ponto fala de portão, cruzeiro, cova ou almas, a calunga citada costuma ser o cemitério. O contexto do ponto é que diz qual das duas.
Posso fazer oferenda na calunga sozinho?
Acender uma vela branca pelos que partiram é gesto simples e aceito em quase toda casa, respeitando as regras do cemitério. Já oferenda com fundamento, sobretudo na Calunga Pequena, pede orientação do dirigente da sua casa.
Calunga é coisa ruim ou de mau agouro?
Não. Para a Umbanda, a calunga é reino de acolhimento, transformação e ancestralidade. O medo vem do imaginário ocidental sobre a morte e do preconceito contra as religiões de matriz africana, e não do fundamento.
Axé Umbanda
Escrito porWeverton Pansan e Maria Amélia Pansan

Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.

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Conteúdo informativo e de fé, escrito com respeito à tradição e baseado nas fontes citadas. A Umbanda varia de casa para casa; em caso de dúvida, procure sempre o dirigente do seu terreiro. Este texto não substitui orientação médica, jurídica ou psicológica.
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