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O que é Gira de Desenvolvimento? Como funciona e o que esperar

Gira de desenvolvimento é a gira fechada em que o terreiro forma os seus médiuns, longe do público e sem consulta. Entenda o que acontece nela, as fases do desenvolvimento mediúnico, quanto tempo leva, o que é normal sentir e o que é sinal de que a casa não está cuidando bem de quem chega.

Por Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan·15 de setembro de 2026·11 min de leitura
O que é Gira de Desenvolvimento? Como funciona e o que esperar
Resposta rápida

Gira de desenvolvimento é a gira fechada em que o terreiro forma os seus médiuns, longe do público e sem consulta. Entenda o que acontece nela, as fases do desenvolvimento mediúnico, quanto tempo leva, o que é normal sentir e o que é sinal de que a casa não está cuidando bem de quem chega.

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A gira de desenvolvimento é a reunião fechada em que o terreiro cuida da formação dos seus médiuns. Ela não é aberta ao público, não tem consulta, não tem assistência e quase sempre acontece em dia diferente da gira pública. É ali que se aprende a sentir, a sustentar a corrente, a cantar, a servir de cambono e, quando chega a hora, a incorporar com segurança. Quem procura a Umbanda com vontade de desenvolver a mediunidade vai ouvir esse nome logo nas primeiras semanas, e vale entender o que ele significa antes de entrar.

O que é a gira de desenvolvimento

Gira de desenvolvimento é o nome que a maioria das casas de Umbanda dá à reunião fechada, destinada apenas a quem faz parte da corrente da casa, na qual se trabalha a formação dos médiuns. Ela costuma acontecer de uma a duas vezes por mês, em dia próprio, e em muitos terreiros é dividida em duas partes: uma aula ou conversa de esclarecimento, com o dirigente respondendo dúvidas, e a gira propriamente dita.

A diferença em relação à gira pública é grande e é justamente essa a razão de ela existir. Na gira pública, o trabalho é voltado para quem chega de fora: consulta, passe, orientação, caridade. Na gira de desenvolvimento, o trabalho é voltado para dentro, para quem está aprendendo. Não há consulta, não há assistência e o ritmo é outro: pode se parar no meio, corrigir, repetir, explicar. É sala de aula e é gira ao mesmo tempo.

Os nomes variam. Há casas que chamam de gira de desenvolvimento, outras de gira de médiuns, gira fechada, gira de estudo, gira de firmeza ou simplesmente desenvolvimento. O conteúdo, esse, é bastante parecido de casa para casa.

Para que serve, de verdade

A resposta óbvia seria formar médiuns para incorporar. Ela está incompleta, e as casas de fundamento fazem questão de dizer isso logo no começo.

Desenvolver mediunidade, na Umbanda, não é apenas aprender a receber entidade. É aprender a lidar com a própria sensibilidade, que já existia antes de a pessoa pisar no terreiro e que costuma ser justamente o que a trouxe até ali. Muita gente chega ao desenvolvimento cansada, confusa, sonhando demais, sentindo demais, sem saber separar o que é dela do que é do ambiente. Boa parte do trabalho da gira de desenvolvimento é ensinar essa separação.

Há ainda um segundo objetivo que aparece em praticamente todo texto sério sobre o assunto: o desenvolvimento trabalha o caráter de quem desenvolve. Aprender a chegar no horário, a varrer o salão, a servir de cambono para o médium ao lado, a aceitar correção sem se ofender e a não se achar especial por ter mediunidade faz parte do currículo tanto quanto aprender a incorporar. Os mais velhos costumam dizer que médium mal educado atrapalha mais que médium sem desenvolvimento, e a frase não é ofensa: é descrição do que acontece na prática.

Como funciona uma gira de desenvolvimento

A rotina varia de casa para casa, mas o esqueleto costuma ser este:

Chegada e preparo. Os médiuns chegam antes, ajudam a arrumar o salão, vestem a roupa branca e se recolhem por alguns minutos. Muitas casas pedem preparo desde a véspera, com alimentação leve, abstinência de bebida alcoólica e, em algumas, abstinência sexual nas horas anteriores. Isso varia bastante e é preceito de casa.

Defumação e abertura. A casa é defumada, reza se a abertura e canta se os pontos de abertura, com curimba ou com palmas. Muitos terreiros fazem bater cabeça no congá nesse momento.

Aula ou conversa. Em boa parte das casas, o dirigente ou um médium mais antigo fala sobre um tema de fundamento e abre espaço para perguntas. É a parte que mais se perde quando a pessoa falta, e a que mais explica o resto.

A gira. A corrente se forma, canta se a chamada da linha do dia e os médiuns trabalham conforme o ponto em que cada um está. Uns só sustentam a corrente. Outros sentem e não incorporam. Outros incorporam e ainda estão aprendendo a firmar. O dirigente e os médiuns mais antigos acompanham de perto, corrigem postura, orientam a respiração, seguram quem precisa e conversam com a entidade quando ela se apresenta.

Encerramento. Canta se o ponto de encerramento, agradece se e, em muitas casas, há uma conversa final sobre como foi para cada um. Depois vem o café, que parece detalhe e não é: é ali que a corrente vira grupo.

As fases do desenvolvimento

A descrição mais repetida na Umbanda divide o desenvolvimento em três fases, que não são degraus rígidos e se sobrepõem bastante na prática.

Irradiação. A entidade se aproxima e o médium sente, sem que haja incorporação. É a fase dos arrepios, do calor ou do frio súbito, do bocejo, do choro sem motivo, da tontura leve e da sensação de peso ou de leveza no corpo. Muita gente se assusta e acha que está fazendo errado. Não está: é o começo.

Incorporação. A incorporação começa a acontecer, quase sempre de forma parcial e desajeitada no início. O médium pode lembrar de tudo, de parte ou de nada, e as três coisas são normais. Nessa fase aparece muito a dúvida honesta: será que fui eu que fiz? Essa dúvida é saudável e as casas sérias a tratam com paciência, e não com deboche.

Firmeza. A incorporação se estabiliza, a entidade trabalha com clareza, o médium sustenta o tempo do trabalho sem se esgotar e aprende a entrar e a sair com segurança. É a fase em que o médium começa a ser útil na gira pública.

Vale insistir num ponto: nem toda mediunidade é de incorporação. Há médiuns de intuição, de vidência, de audição, de cura e de sustentação da corrente, e nenhum deles é menos médium por não incorporar. Casa que trata a incorporação como único objetivo válido costuma produzir gente forçando o que não tem.

Quanto tempo leva

A resposta honesta é que não existe prazo, e desconfie de quem der um.

O tempo depende da sensibilidade de cada um, da frequência com que a pessoa vai, do preparo que ela faz fora do terreiro, da própria vida que ela leva e do jeito de trabalhar da casa. Há quem comece a sentir em poucos meses e há quem leve anos. Há quem incorpore antes de entender o que está acontecendo e precise voltar atrás para aprender o básico. Todas essas rotas existem e nenhuma delas é melhor.

O que as casas de fundamento repetem é que pressa atrapalha. Desenvolvimento acelerado, com promessa de resultado em prazo fechado, é um dos sinais mais claros de lugar sem compromisso. A Umbanda entende que a formação de um médium é processo de anos, e não curso com data de formatura.

O que é normal sentir

As sensações mais relatadas por quem está em desenvolvimento são conhecidas e conversadas abertamente nas casas: arrepio, bocejo em série, choro sem motivo aparente, sonolência forte na gira, formigamento nas mãos, calor ou frio que sobe pelo corpo, peso nos ombros, tontura leve e vontade de rir ou de se movimentar sem explicação.

Duas coisas precisam ser ditas juntas aqui. A primeira é que essas sensações são normais no processo e não devem assustar. A segunda é que muitas delas têm causa comum: bocejo e sonolência aparecem em quem dormiu mal, tontura aparece em quem veio sem comer, formigamento aparece em quem ficou muito tempo em pé com o braço parado, e choro aparece em quem está passando por fase difícil na vida. Casa séria considera as duas explicações e não trata toda sensação como sinal espiritual.

Se você tem condição de saúde conhecida, avise o dirigente. Epilepsia, transtornos de ansiedade, uso de medicação psiquiátrica, pressão alterada e gravidez pedem cuidado específico, e nenhum terreiro responsável vai considerar isso um problema. Ao contrário: vai agradecer a informação.

Sinais de que a casa não está cuidando bem

Esta seção existe porque a pergunta aparece muito e a resposta costuma faltar. Alguns sinais de alerta reconhecidos por casas de fundamento:

  • Cobrança de mensalidade alta ou pacote de desenvolvimento com preço. O costume nas casas sérias é não cobrar pelo trabalho espiritual. Rateio de despesa da casa é outra coisa e é transparente.
  • Promessa de prazo. Desenvolvimento em três meses, incorporação garantida, curso com certificado.
  • Pressão para incorporar. Médium sendo empurrado, sacudido ou constrangido a manifestar alguma coisa.
  • Uso do medo como ferramenta. Dizer que a pessoa vai adoecer, enlouquecer ou perder a família se sair da casa é abuso, e não fundamento.
  • Isolamento. Casa que orienta cortar laços com família, largar trabalho ou tratamento de saúde.
  • Interrupção de tratamento médico. Nenhuma casa de fundamento manda parar medicação. Isso é grave e é motivo para sair.
  • Falta de conversa. Terreiro que não explica nada, não aceita pergunta e trata dúvida como falta de fé.

Uma casa boa é reconhecível pelo contrário disso: ela explica, ela tem paciência, ela respeita o tempo de cada um e ela não tem pressa nenhuma de fazer você incorporar.

Como se entra numa gira de desenvolvimento

Quase sempre pelo mesmo caminho: frequentando a gira pública primeiro. A pessoa chega como assistência, participa, conversa, passa por consulta e, em algum momento, a orientação de desenvolver aparece, seja por indicação de uma entidade em consulta, seja por convite do dirigente.

Não é coisa que se peça no primeiro dia, e casa que abre desenvolvimento para quem acabou de chegar costuma estar fazendo isso por outro motivo. O caminho comum é: frequentar, ajudar, aprender o básico, passar um tempo como abiã ou auxiliar, servir de cambono e só então entrar na corrente de desenvolvimento.

Se você está começando agora, a leitura sobre a primeira vez no terreiro ajuda a entender o que esperar antes disso tudo.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

O que é gira de desenvolvimento na Umbanda?
É a reunião fechada em que o terreiro trabalha a formação dos seus médiuns, sem público, sem assistência e sem consulta, quase sempre em dia diferente da gira pública. Costuma acontecer de uma a duas vezes por mês e em muitas casas se divide em duas partes: uma aula ou conversa de esclarecimento e a gira propriamente dita, em que cada médium trabalha conforme o ponto em que está.
Qual a diferença entre gira de desenvolvimento e gira pública?
A gira pública é voltada para quem chega de fora, com consulta, passe e caridade, e é aberta a qualquer pessoa. A gira de desenvolvimento é voltada para dentro, para quem está aprendendo, e é fechada à corrente da casa. Nela é possível parar no meio, corrigir, repetir e explicar, o que não caberia numa gira com assistência esperando atendimento.
Qualquer pessoa pode participar da gira de desenvolvimento?
Não. É reunião fechada, restrita a quem já faz parte da corrente da casa. O caminho comum é frequentar a gira pública primeiro, participar, ajudar e, em algum momento, receber a orientação de desenvolver, seja por indicação de uma entidade em consulta, seja por convite do dirigente. Casa que abre desenvolvimento para quem acabou de chegar costuma estar fazendo isso por outro motivo.
Quanto tempo leva o desenvolvimento mediúnico?
Não existe prazo, e desconfie de quem der um. Depende da sensibilidade de cada um, da frequência, do preparo fora do terreiro e do jeito de trabalhar da casa. Há quem comece a sentir em poucos meses e há quem leve anos, e nenhuma dessas rotas é melhor que a outra. Promessa de desenvolvimento em prazo fechado é um dos sinais mais claros de lugar sem compromisso.
Quais são as fases do desenvolvimento mediúnico?
A descrição mais repetida na Umbanda fala em três: irradiação, quando a entidade se aproxima e o médium sente sem incorporar; incorporação, quando ela começa a acontecer, quase sempre parcial e desajeitada no início; e firmeza, quando se estabiliza e o médium sustenta o trabalho com segurança. As fases se sobrepõem na prática e não funcionam como degraus rígidos.
Preciso incorporar para ser médium de Umbanda?
Não. Existem médiuns de intuição, de vidência, de audição, de cura e de sustentação da corrente, e nenhum deles é menos médium por não incorporar. Casa que trata a incorporação como único objetivo válido costuma produzir gente forçando o que não tem, e forçar é o contrário de desenvolver. O trabalho de sustentar a corrente é tão necessário quanto o de receber entidade.
O que é normal sentir na gira de desenvolvimento?
Arrepio, bocejo em série, choro sem motivo aparente, sonolência forte, formigamento nas mãos, calor ou frio subindo pelo corpo, peso nos ombros e tontura leve. Tudo isso é relatado com frequência e não deve assustar. Vale lembrar que muitas dessas sensações também têm causa comum, como noite mal dormida, fome, ansiedade e tempo em pé, e casa séria considera as duas explicações.
Preciso avisar se tomo remédio ou tenho algum problema de saúde?
Sim, e nenhum terreiro responsável vai considerar isso um problema. Epilepsia, transtornos de ansiedade, uso de medicação psiquiátrica, pressão alterada e gravidez pedem cuidado específico dentro da gira. E registre o mais importante: nenhuma casa de fundamento manda parar medicação ou interromper tratamento. Se isso acontecer, é motivo para sair, e não para obedecer.
Como saber se a casa está cuidando bem de quem desenvolve?
Observe se ela explica, se aceita pergunta, se respeita o tempo de cada um e se não tem pressa de fazer você incorporar. Os sinais de alerta são o oposto: cobrança de pacote com preço, promessa de prazo, pressão para manifestar alguma coisa, uso do medo, orientação para cortar laços de família ou largar trabalho, e qualquer interferência em tratamento de saúde.
Posso desenvolver mediunidade sozinho em casa?
As casas de fundamento desaconselham com firmeza, e o motivo é prático. Desenvolvimento precisa de corrente, de acompanhamento e de alguém experiente por perto para orientar, corrigir e amparar quando algo não vai bem. Sozinho não existe quem faça isso. Se você sente que precisa desenvolver, o caminho é procurar uma casa e frequentar, e não seguir roteiro de internet.
Tenho que usar roupa branca na gira de desenvolvimento?
Na maioria das casas, sim, e ela costuma ser a mesma da gira pública: roupa branca, simples, limpa e confortável. Algumas casas pedem saia para as mulheres, outras não, e algumas usam guias e cordões próprios para os médiuns em desenvolvimento. Isso é preceito de casa e varia bastante. Pergunte antes do primeiro dia, que é o jeito mais simples de acertar.
O que acontece se eu faltar às giras de desenvolvimento?
Falta eventual acontece e nenhuma casa razoável faz disso um drama. O que atrapalha é a falta frequente, porque o desenvolvimento é processo contínuo e cada gira se apoia na anterior. Quem falta muito perde a parte de aula, que é justamente a que explica o resto, e acaba ficando para trás sem entender por quê. Se você não consegue frequentar, converse com o dirigente em vez de sumir.
Axé Umbanda
Escrito porWeverton Pansan e Maria Amélia Pansan

Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.

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Conteúdo informativo e de fé, escrito com respeito à tradição e baseado nas fontes citadas. A Umbanda varia de casa para casa; em caso de dúvida, procure sempre o dirigente do seu terreiro. Este texto não substitui orientação médica, jurídica ou psicológica.
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