Ponto de Xangô: Trovejou Lá no Céu
Trovejou lá no céu e o mundo balanceou
Ouça o ponto
Letra do ponto
Letra de tradição oral; pode variar de casa para casa.
Significado
Este é um dos pontos mais cantados para Xangô, o Orixá da justiça, do trovão, do fogo e das pedreiras. São só quatro versos, mas eles guardam uma ideia inteira sobre quem é o Rei e sobre o que se pede a ele.
O ponto começa com o trovão. Trovejou lá no céu e o mundo balanceou: o trovão é a voz de Xangô, e a terra que treme lembra a força da natureza e as grandes provas da vida, aquelas horas em que tudo parece sair do lugar.
Logo vem a virada: só não balanceou a coroa de Xangô. A coroa é a realeza do Orixá, que na tradição iorubá foi rei de Oyó. Na leitura das casas, ela representa a Lei e a justiça divina, que continuam firmes quando tudo à volta se abala.
Por isso este ponto é tão pedido em tempos de injustiça e de aflição. Quem canta não pede que a tempestade passe longe. Pede para ficar de pé no meio dela, confiando que a justiça de Xangô pesa cada causa com equilíbrio e chega na hora certa.
A pedreira é o ponto de força de Xangô na natureza. A rocha fala de firmeza, de constância e de uma justiça que não se dobra, e é nas pedreiras que muitas casas fazem as louvações e oferendas ao Orixá. No Rio de Janeiro, a festa da Pedreira de Xangô, na Serrinha, em Madureira, é celebrada há décadas.
O símbolo de Xangô é o oxé, o machado de duas lâminas. As casas costumam explicar que as duas lâminas cortam para os dois lados por igual: a justiça de Xangô não escolhe lado, pesa o certo e o errado de cada um, inclusive de quem pede. Algumas casas também lembram a balança como símbolo da sua justiça.
A saudação é Kaô Kabecilê, de origem iorubá, que aparece escrita também como Kawó Kabiyesilé e Caô Cabecilê. As traduções variam: há quem diga venham ver o Rei descer sobre a terra, e há quem diga salve o Rei, ou venham saudar o Rei. Todas apontam para a mesma reverência à realeza de Xangô.
O sincretismo de Xangô muda conforme a região e a casa. No Sudeste é muito comum ligá-lo a São Jerônimo, festejado em 30 de setembro, o santo estudioso das escrituras, sempre pintado com um leão e muitas vezes junto a pedras. Em outras casas, sobretudo no Nordeste, Xangô é ligado a São João Batista e há quem o ligue a São Pedro, o que explica as fogueiras de junho em sua homenagem.
As cores mais usadas para Xangô na Umbanda são o marrom e também o vermelho e o branco, conforme a casa. O dia mais citado é a quarta-feira. Xangô é ainda lembrado como protetor dos estudos, dos documentos e das causas na justiça, sempre com a ressalva de que ele não ajuda quem age de má-fé.
Canta-se este ponto pedindo justiça, equilíbrio, firmeza de caráter, resolução de pendências e coragem para atravessar provas. É também um lembrete para quem canta: a justiça que se pede para si é a mesma que Xangô cobra de cada um.
Como todo ponto de tradição oral, a letra varia de casa para casa, com versos repetidos e melodias diferentes. A versão que a sua gira canta é a que vale para você.
Quando se canta
Na gira de Xangô e nas louvações ao Rei da justiça, para saudar o Orixá na chegada da linha e pedir firmeza, equilíbrio e justiça numa causa difícil. A curimba costuma tocar forte e marcado, como trovão que rola na pedreira.
Muitas casas cantam este ponto às quartas-feiras, o dia mais citado para Xangô, e também para firmar a corrente quando o ambiente está pesado ou instável. A ideia é pedir que a casa fique de pé como a coroa do Rei, mesmo quando tudo balança.
Ele aparece ainda nas festas de Xangô e nas oferendas levadas à pedreira, o ponto de força do Orixá. Conforme o sincretismo da casa, essas festas caem em 30 de setembro, dia de São Jerônimo, ou em junho, nos dias de São João e de São Pedro. A ordem dos pontos é sempre do dirigente.






