Ponto de Xangô: Tava Olhando as Pedreiras
Tava olhando as pedreiras, uma pedra rolou
Ouça o ponto
Letra do ponto
Letra de tradição oral; pode variar de casa para casa.
Significado
Tava olhando as pedreiras é um ponto de Xangô de tradição oral, sem autor conhecido, cantado em terreiros de Umbanda e registrado em gravações de curimba como domínio da tradição. Como todo ponto de raiz, aparece com pequenas mudanças de palavra e de melodia de uma casa para outra.
A cena começa na pedreira, o ponto de força de Xangô na natureza. É ali que muitas casas fazem louvações e oferendas ao Orixá, porque a rocha fala de firmeza, de peso e de uma justiça que não se move ao sabor do vento. Quem canta se coloca diante desse lugar sagrado, olhando, esperando um sinal.
E o sinal vem: uma pedra rola, desce a encosta e bate nos pés de quem olhava. Uma pedra rolando na direção de alguém costuma ser imagem de perigo, de prova, de golpe. Mas, quando chega, ela se faz flor. Uma leitura muito comum nas casas é essa: o que parecia ameaça, nas mãos de Xangô, vira bênção para quem anda no caminho certo.
O refrão do meio é uma resposta a quem duvida. Quem foi que disse que eu não sou filho de Xangô? É o filho de fé afirmando a sua pertença diante de quem desconfia, critica ou levanta falso. Não precisa discutir: quem prova é o próprio Orixá, que mostra de quem a pessoa é filha.
A última estrofe fecha o sentido. Ele mostra a verdade, atira uma pedra, vira uma flor. Xangô é o Orixá da justiça, e a justiça dele não é vingança. A pedra que ele atira separa o certo do errado, e para quem está do lado da verdade ela chega como flor, como reparação e como paz.
Xangô é ligado ao trovão, ao raio, ao fogo e às pedreiras. Na tradição iorubá foi rei de Oyó, e o seu símbolo mais conhecido é o oxé, o machado de duas lâminas, lido como a justiça que corta para os dois lados e não toma partido. A saudação mais usada é Kaô Kabecilê, com variações de grafia como Kaô Kabiesilê.
O dia mais citado para Xangô é a quarta-feira. A cor muda bastante: na Umbanda o marrom é muito usado, e muitas casas trabalham também com o vermelho e o branco. No sincretismo, Xangô aparece ligado a São Jerônimo e, em algumas regiões, a São João e a São Pedro. No Rio de Janeiro, a festa da Pedreira de Xangô, na Serrinha, em Madureira, acontece há décadas no dia 30 de setembro.
A letra ganha variações. Há quem cante a pedreira no singular, quem cante virou uma flor no lugar de se fez uma flor, e há casas que acrescentam um Kaô Kabecilê no fim de cada volta. Nenhuma dessas versões está errada: a que a sua casa canta é a que vale para você, e o toque fica a cargo da curimba do terreiro.
Quando se canta
Na gira de Xangô e na saudação ao Orixá, quando a corrente se volta para o senhor da justiça e das pedreiras. É um ponto de andamento firme e alegre, que costuma entrar na sequência de louvação a Xangô, logo depois dos pontos de chamada.
Também é cantado às quartas-feiras, dia mais ligado a Xangô em boa parte das casas, nas festas do Orixá, nas firmezas e oferendas feitas na pedreira e em trabalhos em que se pede justiça, verdade e equilíbrio diante de uma situação difícil.
Há casas que o usam para firmar a cabeça dos filhos de Xangô, porque a letra é uma afirmação de pertença. A ordem dos pontos, o toque e quantas vezes cada estrofe se repete são sempre do dirigente e do ogã da casa.






