O que significa o ponto de oxalá: oxalá criou a terra, oxalá criou o mar?
Este é um daqueles pontos que cabem numa frase e ensinam meia religião. O refrão diz o essencial: Oxalá criou a Terra, criou o Mar, criou o mundo onde reinam os Orixás. Nas casas, o verso é lido como afirmação da posição de Oxalá dentro do panteão. Ele é o Orixá da criação, o mais velho, ligado ao branco, à paz e à cabeça, aquele que na tradição iorubá recebe de Olorum a tarefa de modelar a matéria e a humanidade. Cantar isso na gira é reordenar a hierarquia diante da corrente: existe uma origem, e ela é anterior a qualquer pedido que se vá fazer naquela noite. Depois do refrão, o ponto faz o que o torna inesquecível: distribui o mundo. Verso por verso, ele entrega a pedreira a Xangô, o Orixá da justiça; a mata a Oxóssi, o caçador; o mar de pescaria farta a Iemanjá; os rios a Oxum; os ventos a Iansã, também chamada Oyá; os campos de batalha a Ogum; as campinas ao boiadeiro; o jardim gramado às crianças, que são os Erês; o poço a Nanã, a mais velha; o cruzeiro às almas; e, por fim, as ruas com estrela e luar a Exu e à Pombagira, para guardar os caminhos. É o mapa espiritual do território brasileiro cantado em melodia simples, e é por isso que o ponto é usado como ensino em tanta casa: quem canta duas ou três vezes aprende a geografia dos Orixás sem precisar de apostila. Dois detalhes de fundamento merecem atenção. O primeiro é que a lista dos domínios não é fantasia poética: ela corresponde ao que a tradição atribui a cada Orixá e é a mesma lógica usada, por exemplo, para escolher onde se colhe a pedra de assentamento de cada um e onde se entrega cada oferenda. O segundo é a posição dada a Exu e à Pombagira, que fecham o ponto com a função de guardar os caminhos, e não como figuras de mal. Isso desmonta em um verso a confusão que a leitura cristã criou ao traduzir Exu como demônio. No ponto, como no fundamento, Exu é guardião. Sobre a origem do ponto, a honestidade manda dizer o que se sabe e o que não se sabe. Ele circula como ponto de Umbanda, de tradição oral, com registro em acervos de letras que o atribuem genericamente à Umbanda, e há também atribuição de autoria a compositores ligados ao meio. Como acontece com quase todo ponto cantado, existem versões com palavras trocadas, ordem diferente dos versos e melodias próprias de cada casa, e todas são válidas. Cante a que a sua casa ensina. Aqui reproduzimos apenas o refrão, que é a parte que todo mundo canta junto, e explicamos o restante em vez de copiar a letra inteira, por respeito a quem compôs e a quem registrou.
Quando se canta esse ponto?
Na gira de Oxalá, nas festas de sexta-feira, na abertura de trabalhos em muitas casas e sempre que a corrente quer reafirmar de onde vem tudo. É um dos pontos mais cantados do Brasil porque funciona como aula: ele nomeia cada Orixá e o território que a tradição atribui a ele. Também aparece em gira de Sete Linhas, em festa de aniversário de casa e em encerramento, quando se agradece a criação.
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
Quem é Oxalá na Umbanda?
Oxalá é o Orixá da criação, o mais velho e o mais reverenciado do panteão, ligado ao branco, à paz, à fé e à cabeça. Na tradição iorubá ele recebe de Olorum a tarefa de modelar a matéria e a humanidade, e é por isso que o ponto canta que ele criou a Terra, o Mar e o mundo. Na Umbanda, a sexta-feira é o dia mais citado para Oxalá, o branco é a cor de roupa das giras dedicadas a ele e o sincretismo o associa a Jesus Cristo e ao Senhor do Bonfim.
O que esse ponto ensina?
Ele distribui o mundo entre os Orixás e, ao fazer isso, ensina a geografia espiritual da tradição. A pedreira é de Xangô, a mata é de Oxóssi, o mar é de Iemanjá, os rios são de Oxum, os ventos são de Iansã, os campos de batalha são de Ogum, o poço é de Nanã, o cruzeiro é das almas e as ruas são de Exu e da Pombagira, que guardam os caminhos. É a mesma lógica usada para saber onde se entrega cada oferenda e de onde vem a pedra de cada assentamento.
Por que o ponto termina com Exu e Pombagira?
Porque a função deles no fundamento é justamente essa, a de guardar os caminhos. O ponto entrega a eles as ruas com estrela e luar, e o verso diz para que serve: guardar. Isso desmonta em uma linha a confusão que associa Exu ao diabo, leitura que veio do olhar cristão sobre as religiões africanas e não existe no fundamento afro-brasileiro. No ponto e na tradição, Exu é o mensageiro, o que abre e fecha, o guardião da passagem.
Qual a letra completa do ponto?
Aqui reproduzimos apenas o refrão, que é a parte cantada em coro por toda a corrente, e explicamos o conteúdo dos outros versos em vez de copiá-los, por respeito a quem compôs e a quem registrou. A letra completa está disponível em acervos de letras de música, como o Letras.mus.br, e no vídeo indicado nesta página, que traz a legenda. Se você é da corrente de uma casa, a versão que vale para você é a que o seu terreiro canta.
Quem compôs Oxalá Criou a Terra?
A autoria não é pacífica, e isso é comum nos pontos cantados. Os acervos de letras registram a música atribuída genericamente à Umbanda, como ponto de tradição oral, e há também atribuições de autoria a compositores do meio em gravações e vídeos. O mais provável, como em grande parte do repertório de terreiro, é que exista uma base oral antiga com arranjos e registros posteriores. Onde não há certeza, o correto é dizer que não há.
Quando esse ponto é cantado na gira?
Na gira de Oxalá, nas festas de sexta-feira, na abertura dos trabalhos em muitas casas e em gira de Sete Linhas, quando se saúda o conjunto dos Orixás. Também aparece em aniversário de casa e no encerramento, como agradecimento pela criação. Por ser fácil de cantar e por nomear todos os Orixás, ele é um dos pontos mais usados para ensinar quem está começando na corrente.
Qual é a saudação de Oxalá?
A saudação mais usada é Epa Babá, que é um chamado reverente ao Pai. Muitas casas saúdam também com Exê Babá. A sexta-feira é o dia mais citado, o branco é a cor da roupa e o sincretismo brasileiro associa Oxalá a Jesus Cristo e ao Senhor do Bonfim, o que explica a força das festas de sexta-feira branca em várias regiões. Saudação e calendário variam de casa para casa, e a orientação do seu terreiro vem sempre primeiro.
Posso cantar esse ponto em casa?
Cantar ponto em casa, com respeito, é prática comum e nenhuma casa séria proíbe. Este, em especial, é um dos mais cantados fora do terreiro justamente porque fala de criação e de gratidão, sem invocar trabalho nenhum. O que não se faz sozinho é o trabalho: chamar entidade para incorporar, montar gira e conduzir manifestação são coisas de terreiro, com corrente, cambono e dirigente que responde por aquilo.
Por que existem versões diferentes desse ponto?
Porque ponto cantado é tradição oral. Cada casa canta a versão que aprendeu, com troca de palavras, ordem diferente dos versos, verso a mais ou a menos e melodia própria, e todas as versões são legítimas. Neste ponto é comum ouvir variação na ordem dos Orixás e na inclusão do boiadeiro e das almas. Se você estiver visitando uma casa, escute primeiro e acompanhe depois, que é a etiqueta mais valorizada em qualquer terreiro.