O que significa o ponto de obaluaê: são flores, nanã?
Este é um dos pontos mais antigos e conhecidos da linha de Obaluaê. Não tem autor conhecido, circula em cadernos de ponto de muitas casas e é cantado de terreiro em terreiro com pequenas mudanças de palavra. O ponto é uma conversa com Nanã Buruquê, a mais velha das Orixás. Quem canta se dirige à mãe para falar do filho, e no fim faz uma declaração de fé: é seu filho, Nanã, e é meu pai. O filho de fé se coloca dentro dessa família sagrada. Na tradição dos terreiros, Nanã é a mãe de Obaluaê. Um itã muito contado diz que ela se assustou com as marcas da doença no corpo do menino e o deixou na beira do mar, onde Iemanjá o acolheu e o criou. Há casas que contam a história de outro jeito, mas a ligação entre mãe e filho é lembrada em quase todas. As flores do ponto têm mais de um sentido. Para muita gente, são as flores de Obaluaê: a pipoca, chamada de deburu, doburu ou flor do velho, que se abre branca no fogo. Uma das histórias conta que as feridas dele viraram pipoca, e por isso ela é a oferenda mais ligada à cura. Em outra leitura, as flores são o carinho que volta para Nanã. O filho que um dia foi deixado retorna como rei da Terra e senhor da cura, e as flores são o perdão e a reconciliação entre os dois. É um ponto de afeto, não de lamento. Nas horas de agonia é ele quem vem nos valer: esse é o coração do ponto. Obaluaê é procurado na doença, na dor e no medo, e o canto pede alívio e força para atravessar o que pesa. Cantar com fé é pedir amparo, mas não substitui orientação médica: o tratamento continua com quem cuida do corpo. Algumas casas acrescentam um verso de sincretismo, que diz que a senhora Santana é Nanã Buruquê e que São Roque é Obaluaê. Outras trocam do seu filho por para seu filho, ou ele sempre vem valer por é ele quem vem nos valer. A versão que a sua gira canta é a que vale para você.
Quando se canta esse ponto?
Na gira de Obaluaê, para saudar o senhor da Terra e pedir amparo nas horas difíceis do corpo e da alma. A melodia é lenta e chorosa, e muitas casas cantam com a voz baixa e a cabeça inclinada. Como o ponto fala de mãe e filho, ele também aparece na gira de Nanã e nos trabalhos que reúnem os dois Orixás, como as giras de cura, de saúde e de encaminhamento das almas. Muitas casas o cantam em agosto, mês de Obaluaê, perto de 16 de agosto, dia de São Roque, e em 26 de julho, dia de Santana, avó de Jesus, com quem Nanã é sincretizada. A ordem dos pontos e o toque são sempre do dirigente e do ogã.
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode, com respeito e fé. Os pontos cantados são orações em forma de música; cantar em casa ajuda a firmar a fé e a sintonia. Para trabalhos de terreiro, siga sempre a orientação do dirigente da sua casa, pois cada terreiro tem seu fundamento e a letra pode variar.
A letra é sempre igual?
Não. Os pontos são de tradição oral e variam de casa para casa, com pequenas diferenças de letra e melodia. A versão aqui é uma das mais conhecidas; a da sua casa pode ter variações.
Qual a letra do ponto São flores, Nanã?
A versão mais cantada é: São flores, Nanã, são flores, são flores, Nanã Buruquê. São flores, Nanã, são flores do seu filho Obaluaê. Nas horas de agonia é ele quem vem nos valer. É seu filho, Nanã, é meu pai, ele é Obaluaê. O refrão costuma ser repetido várias vezes.
Esse ponto é de Nanã ou de Obaluaê?
Dos dois. O ponto fala com Nanã, mas o assunto é o filho dela, Obaluaê. Por isso aparece tanto na gira de Obaluaê quanto na de Nanã, e muitas casas o usam quando os dois Orixás são saudados juntos.
Quais são as flores de Obaluaê?
Na tradição, as flores de Obaluaê são a pipoca, chamada de deburu, doburu ou flor do velho. Uma história conta que as feridas dele viraram pipoca. Há também quem leia as flores do ponto como o carinho e o perdão entre mãe e filho.
Por que Nanã é mãe de Obaluaê?
É o que contam os itãs, as histórias sagradas de origem iorubá guardadas nos terreiros. Em uma das mais conhecidas, Nanã deixou o filho doente na beira do mar e Iemanjá o criou. As versões mudam de casa para casa, mas a maternidade de Nanã é lembrada em quase todas.
O que significa nas horas de agonia é ele quem vem nos valer?
Que Obaluaê é quem ampara na doença, na dor e no medo. É um pedido de socorro feito com confiança. Cantar com fé ajuda o coração, mas não substitui orientação médica.
Quando se canta esse ponto na gira?
Na gira de Obaluaê, na gira de Nanã e nos trabalhos de cura e de encaminhamento das almas. Muitas casas cantam em agosto, mês de Obaluaê, e em 26 de julho, dia de Santana. A ordem dos pontos é sempre do dirigente.
Qual a saudação de Obaluaê e de Nanã?
Para Obaluaê, a saudação mais usada é Atotô, que as casas traduzem como silêncio. Para Nanã, é Saluba Nanã. A grafia e a forma de saudar variam de raiz para raiz.
Esse ponto tem autor?
Não há autoria conhecida. Ele é de tradição oral, aparece em cadernos de ponto de várias casas sem crédito de compositor e muda um pouco de terreiro para terreiro. O vídeo indicado aqui traz uma das versões, com crédito ao canal que a publicou.
Posso cantar esse ponto em casa?
Pode. Cantar ponto com respeito, como saudação e oração, é costume antigo, e muita gente canta para Obaluaê pedindo saúde. O que não se faz por conta própria é abrir gira ou chamar Orixá ou guia para incorporar. Para isso, procure uma casa séria.