Ponto de Marinheiro: Marinheiro Só
Ô marinheiro, marinheiro, quem te ensinou a nadar?
Ouça o ponto
Letra do ponto
Letra de tradição oral; pode variar de casa para casa.
Significado
Marinheiro só é uma das cantigas mais antigas do litoral brasileiro. Não tem autor conhecido e nasceu do povo do mar: pescadores, estivadores, marujos e escravizados dos grandes portos, como Salvador e Rio de Janeiro. Por isso circula ao mesmo tempo no samba de roda, na capoeira, nas festas de Marujada e nos terreiros de Umbanda.
Na Umbanda, ela virou ponto da Marujada. O refrão curto, Marinheiro só, é a resposta da corrente a cada verso puxado pela curimba, no jeito de pergunta e resposta que vem das rodas africanas e dos cantos de trabalho.
A pergunta do ponto é simples e funda: quem te ensinou a nadar? E a resposta vem em forma de dúvida. Ou foi o tombo do navio, ou foi o balanço do mar. O marinheiro aprendeu a nadar caindo e sendo balançado, ou seja, aprendeu com a própria vida.
É uma lição que os Marinheiros trazem para a gira. Ninguém atravessa a vida sem levar um tombo ou sem sentir o mar mexer. Quem aprende a boiar no balanço não se afoga na primeira onda, e é essa firmeza leve que eles ensinam a quem chega aflito.
A segunda parte desenha o marujo chegando: lá vem ele, faceiro, todo de branco, com o seu bonezinho. É assim que muitas casas descrevem os Marinheiros incorporados, de roupa branca e quepe, andando com o balanço de quem acabou de descer do navio.
Os Marinheiros são espíritos de marujos, pescadores e gente que viveu nos mares, rios e portos. Trabalham na linha das Águas, sob a regência de Iemanjá, e usam a força da água para limpar. São conhecidos pela alegria, pela franqueza e pelos descarregos que levam embora o peso emocional e espiritual.
Em muitos terreiros eles fazem parte de uma linha considerada intermediária, junto com Baianos e Boiadeiros, e há regiões onde a linha nem existe. Cada casa organiza suas linhas do seu jeito, e é bom respeitar a forma como a sua casa recebe a Marujada.
A letra varia bastante. Há casas que abrem com Eu não sou daqui, eu não tenho amor, eu sou da Bahia, de São Salvador, há quem cante Marinheiro sou em vez de Marinheiro só, e a ordem das estrofes muda conforme a curimba. A versão que a sua casa canta é a que vale para você.
Quando se canta
Na gira de Marinheiros, na chegada da Marujada ou logo depois, quando a curimba firma o balanço e os marujos entram na roda gingando, como quem anda no convés de um navio. É um ponto alegre, de andamento balançado, e o refrão Marinheiro só costuma ser respondido por toda a corrente.
Muitas casas cantam também nas giras da linha das Águas, em datas ligadas a Iemanjá, como 2 de fevereiro e 8 de dezembro, e em trabalhos de limpeza e descarrego, que são a especialidade dos Marinheiros em boa parte dos terreiros.
Nem toda casa tem gira própria de Marinheiros, e algumas os recebem junto com outras linhas. A ordem dos pontos e o momento de cada um são sempre do dirigente e do ogã da casa.






