
Ele não incorpora na gira e quase não aparece nos pontos cantados, mas o nome dele está por trás de uma pergunta que todo filho de fé já fez: qual é o meu caminho? Conheça Orunmilá, o senhor de Ifá, a testemunha do destino, e entenda como ele chega à Umbanda.
Orunmilá, também chamado Ifá, Orunla ou Orula, é o Orixá iorubá da sabedoria, do conhecimento e do destino, ligado ao oráculo de Ifá. Na Umbanda ele é respeitado como o grande sábio entre os Orixás, mas em geral não tem linha de trabalho nem incorpora nos médiuns.
Resposta rápida
Orunmilá é o Orixá da sabedoria e do destino. Na tradição iorubá, ele é aquele que conhece o caminho escolhido por cada pessoa antes de nascer.
Ifá é ao mesmo tempo um dos nomes de Orunmilá e o sistema de adivinhação que fala em nome dele. Quem consulta Ifá é o babalaô, um sacerdote preparado por muitos anos de estudo.
Na maioria das casas de Umbanda, Orunmilá não está entre os Orixás das Sete Linhas, não baixa na gira e não recebe oferenda própria. Ele aparece mais como fundamento, sobretudo nas casas que usam o jogo de búzios ou que têm raiz no Candomblé.
Os nomes de Orunmilá
Em iorubá, o nome se escreve Ọ̀rúnmìlà. Na América Latina ele ficou conhecido como Orunla ou Orula, forma muito usada em Cuba.
O antropólogo William Bascom, um dos maiores estudiosos do tema, registra que Orunmilá é outro nome para Ifá, a divindade. Por isso muita gente fala Ifá e Orunmilá como se fossem a mesma coisa, e de certo modo são.
Os louvores tradicionais o chamam de Ẹlẹ́rìí ìpín, a testemunha do destino. Outro título, mais discutido entre os estudiosos, é Igbákejì Olódùmarè, o segundo depois de Olodumare, o Deus supremo.
A testemunha do destino
Na visão iorubá, cada pessoa escolhe o seu destino antes de nascer, diante de Deus. Esse destino fica guardado no Ori, a cabeça espiritual.
Orunmilá é chamado de testemunha do destino porque, segundo a tradição, estava presente nesse momento. Por isso só ele sabe, de verdade, o que cada um veio fazer no mundo.
Daí vem a sua fama de conselheiro. Quando alguém está perdido, doente ou diante de uma decisão difícil, consultar Ifá é perguntar a Orunmilá qual é o caminho que combina com o próprio destino.
O oráculo de Ifá
Ifá é um dos sistemas de adivinhação mais complexos do mundo. Em 2008 a UNESCO o inscreveu na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, depois de proclamá-lo obra-prima em 2005.
Segundo a UNESCO, Ifá não depende de transe nem de dom mediúnico, mas de um sistema de sinais interpretados pelo sacerdote. O babalaô usa nozes sagradas de dendezeiro, os ikin, ou uma corrente divinatória, o opelê.
Cada jogada revela um dos 256 odus. Cada odu reúne centenas de versos, os ese, cheios de histórias, conselhos e orientações de ebó. A UNESCO estima cerca de 800 versos por odu, e esse acervo continua crescendo.
Quem é o babalaô
Babalaô, do iorubá babaláwo, é o sacerdote de Ifá. O nome junta baba, pai, e awo, segredo: o pai do segredo.
A formação é longa, porque o babalaô precisa decorar e interpretar os odus e seus versos. Em algumas linhagens só homens chegam ao sacerdócio pleno. Em outras, sobretudo em partes da África ocidental, há sacerdotisas, as iyanifá.
Babalaô não é o mesmo que babalorixá. O babalorixá, o pai de santo, cuida da casa e dos filhos de santo. O babalaô é o especialista no oráculo de Ifá.
Ifá no Brasil e o jogo de búzios
Na Bahia dos séculos XIX e XX, houve babalaôs famosos. O mais lembrado é Martiniano Eliseu do Bonfim, que estudou em Lagos e foi, segundo o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, uma das duas maiores figuras do Candomblé baiano nos anos 1930.
Com o tempo, porém, o culto de Ifá ficou raro no país. A consulta passou em grande parte para as mães de santo, que adotaram o jogo de búzios, o merindilogun. Os búzios se tornaram o oráculo mais conhecido do Candomblé e de muitas casas de Umbanda.
A partir dos anos 1990, o Ifá voltou a crescer no Brasil, em boa parte pela tradição afro-cubana, com forte presença no Rio de Janeiro. Hoje convivem linhagens nigerianas, cubanas e brasileiras, cada uma com seus fundamentos.
Orunmilá e Exu
Nos itãs, as histórias sagradas iorubás, Orunmilá e Exu aparecem muitas vezes lado a lado. Ifá diz qual é o ebó necessário, e Exu, o mensageiro, leva a oferenda e faz a comunicação entre o mundo e os Orixás.
Por isso se diz que não há consulta sem Exu. Em muitas casas, Exu é saudado antes de qualquer jogo, e há tradições em que é ele quem fala nos búzios.
As versões desses mitos variam muito. Algumas falam de amizade, outras de disputa, e outras ainda de Exu ensinando a Orunmilá segredos do oráculo. Vale perguntar na sua casa qual é a leitura seguida. Para entender melhor quem é Exu, veja os tipos de Exu na Umbanda.
O lugar de Orunmilá na Umbanda
A Umbanda trabalha principalmente com os Orixás das Sete Linhas e com os guias que baixam na gira. Orunmilá, em geral, não está nessa lista: não tem falange, não incorpora e não tem ponto cantado próprio na maioria das casas.
Isso não quer dizer que ele seja ignorado. Casas de Umbanda mais próximas da matriz africana, como as de Omolocô e as que mantêm jogo de búzios, reconhecem Orunmilá como o senhor do destino e da sabedoria.
Há também umbandistas que se aproximam de Ifá por conta própria, buscando um babalaô para consulta. Nesses casos, trata-se de outra tradição, com regras próprias, que não substitui o fundamento da sua casa de Umbanda.
Cuidados com quem diz jogar Ifá
Como Ifá ganhou fama, aparecem também pessoas que se dizem babalaôs sem formação. Alguns sinais pedem atenção:
- Promessa de resultado garantido, como trazer a pessoa amada ou enriquecer rápido.
- Preços altos e urgência, com ameaça de desgraça se o ebó não for feito na hora.
- Falta de linhagem clara: um babalaô sério sabe dizer com quem aprendeu e a que tradição pertence.
Oráculo nenhum substitui médico, psicólogo, advogado ou a sua própria responsabilidade. Ifá orienta; quem caminha é você.
Em resumo
Orunmilá, ou Ifá, é o Orixá iorubá da sabedoria e do destino, a testemunha da escolha que cada Ori faz antes de nascer. Fala por meio do oráculo de Ifá, consultado pelo babalaô com os ikin ou o opelê e os 256 odus.
Na Umbanda, em geral, ele não incorpora nem tem linha própria. Mas está presente como fundamento, no respeito ao destino de cada filho e no jogo de búzios das casas que o praticam.
Fontes e referências
- UNESCO, Ifa divination system (Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, inscrito em 2008)
- Wikipedia, Ọrunmila (nomes, louvores Ẹlẹ́rìí ìpín e Igbákejì Olódùmarè, Bascom)
- Vivaldo da Costa Lima, O candomblé da Bahia na década de 1930, Estudos Avançados, USP (Martiniano Eliseu do Bonfim)
- Jamile Dantas, dissertação sobre o culto de Ifá de tradição afro-cubana no Brasil, USP, 2023
Perguntas frequentes
Quem é Orunmilá?
Ifá e Orunmilá são a mesma coisa?
Orunmilá incorpora na Umbanda?
O que é um babalaô?
Qual a diferença entre Ifá e jogo de búzios?
Qual a relação entre Orunmilá e Exu?
O que significa testemunha do destino?
Ifá é patrimônio da humanidade?
Umbandista pode consultar Ifá?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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