
Reis que sumiram no mar, princesas turcas que chegaram à Amazônia, caboclos que vivem no fundo dos rios. Entenda o que é a encantaria, quem são os encantados, de onde vem esse culto e como ele aparece em algumas casas de Umbanda, sempre com o respeito à diferença entre as tradições.
Encantados são seres que, segundo a crença, viveram na terra e não passaram pela morte: eles se encantaram. Encantaria é o nome do mundo onde vivem e também do culto que os recebe. A tradição nasceu no Norte e no Nordeste do Brasil, no Tambor de Mina, no Terecô e na Pajelança, e hoje aparece também em algumas casas de Umbanda. Neste artigo você entende o conceito, as famílias de encantados e a diferença entre um encantado e um espírito que já desencarnou.
Resposta rápida
Encantado é quem não morreu, se encantou. As narrativas contam que essas pessoas desapareceram de forma misteriosa, ficaram invisíveis ou se transformaram em bicho, planta ou pedra, e passaram a viver num plano à parte, a encantaria.
A grande diferença para a maioria das entidades da Umbanda é essa: o Preto Velho, o Caboclo e o Exu são, em geral, espíritos de quem já viveu e desencarnou; o encantado não atravessou a morte.
Nem toda casa de Umbanda trabalha com encantados. Onde eles chegam, costumam vir pela influência da Mina e da encantaria do Maranhão e do Pará.
O que é a encantaria
A palavra encantaria tem dois sentidos. O primeiro é o lugar: o reino invisível onde moram os encantados, muitas vezes no fundo dos rios, no mar, nas matas ou em ilhas.
O segundo é o culto. Chama-se de encantaria o conjunto de tradições afro indígenas que recebem esses seres em transe, presentes sobretudo no Maranhão, no Pará, no Piauí e em outras partes do Norte e do Nordeste.
Os pesquisadores lembram que os encantados não são necessariamente de origem africana. Entre eles há indígenas, nobres europeus, turcos e figuras do folclore brasileiro, como sereias e botos.
Como alguém se encanta
As histórias de encantamento seguem um fio comum. A pessoa vivia entre os homens e, um dia, sumiu sem deixar corpo: entrou no mar, se perdeu na mata, desapareceu numa batalha.
Em vez de morrer, ela teria passado a outro plano. Algumas narrativas falam em transformação em animal, como um touro, uma cobra ou um peixe; outras, em pedra ou em árvore.
Por isso os encantados costumam ter nome, sobrenome e biografia. Muitos sabem contar a própria história de quando viveram na terra, e isso faz parte da relação de intimidade que os médiuns mantêm com eles.
As famílias de encantados
No Tambor de Mina, os encantados se organizam em famílias, cada uma com chefes, lugares e cantigas próprias. As mais citadas são:
- Família do Lençol: ligada à ilha dos Lençóis, no Maranhão, onde reina Dom Sebastião, com Toya Jarina entre os seus.
- Família de Codó: associada ao Terecô da cidade de Codó, chefiada por Légua Boji.
- Família da Turquia: de Cabocla Mariana e Herondina, contadas como princesas turcas que chegaram à Amazônia.
- Família da Bandeira: chefiada por João da Mata, o Rei da Bandeira.
Fala-se ainda nas famílias da Gama, da Bahia e da Surrupira, entre outras. A composição muda de terreiro para terreiro, e cada casa guarda o seu próprio conhecimento.
Dom Sebastião, o rei encantado
O exemplo mais famoso de encantamento é o de Dom Sebastião, rei de Portugal que desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, em 1578, e cujo corpo nunca foi reconhecido com certeza.
Em Portugal nasceu a espera pela volta do rei. No Maranhão, essa lenda foi reinterpretada e Dom Sebastião passou a ser um encantado, que aparece na ilha dos Lençóis na forma de um touro negro em certas noites.
A história mostra bem como a encantaria funciona: ela acolhe personagens de muitas origens e os transforma em parte da sua própria cosmologia.
Encantados na Umbanda
A encantaria tem raiz no Norte e no Nordeste, mas vem se espalhando também por casas de Umbanda do Sudeste, como registrou uma dissertação de mestrado defendida na USP em 2011.
Nessa pesquisa, a chegada dos encantados ao terreiro não apagou as linhas que já existiam. Ela abriu espaço para novas entidades e deu outros sentidos às antigas, reforçando a capacidade da Umbanda de acolher o mistério.
No Pará, a convivência é antiga. A procissão afro umbandista para São Sebastião em São João de Pirabas, estudada na Revista de Antropologia da USP, mostra o santo católico e o rei encantado caminhando lado a lado na devoção popular.
Em muitas casas, nomes como Cabocla Mariana, Jarina e Herondina aparecem nas giras de Caboclos, e a linha dos Marinheiros também conversa com o imaginário das águas encantadas. A forma como cada terreiro entende essas entidades varia.
Encantado, egum e espírito desencarnado
- Encantado: não passou pela morte; se encantou e vive na encantaria.
- Egum: espírito de quem já morreu, ligado ao culto aos ancestrais e aos mortos.
- Guias da Umbanda: na maior parte das casas, espíritos que já encarnaram e trabalham em falanges, como Pretos Velhos, Caboclos e Baianos.
- Orixás: forças divinas da natureza, que não são espíritos de pessoas.
Essas fronteiras nem sempre são rígidas. Em algumas escolas de Umbanda, a expressão seres encantados é usada para falar de seres da natureza ligados aos Orixás, num sentido diferente do encantado da Mina. Vale perguntar ao dirigente da sua casa qual sentido ele usa.
Como se relacionar com os encantados
A encantaria é uma tradição com fundamento próprio, guardada por casas de Mina, Terecô e Pajelança há gerações. Respeitar a origem é o primeiro passo: não se trata de uma moda nem de um nome bonito para qualquer entidade.
Se a sua casa de Umbanda recebe encantados, siga a orientação do pai ou da mãe de santo sobre cantigas, oferendas e preceitos. Se ela não trabalha com eles, isso também é legítimo, porque cada terreiro tem a sua raiz.
Em resumo
Encantados são seres que, segundo a crença, viveram na terra e não morreram, mas se encantaram; encantaria é o mundo onde vivem e o culto que os recebe. A tradição vem do Tambor de Mina, do Terecô e da Pajelança do Norte e do Nordeste.
Na Umbanda, os encantados aparecem em algumas casas, ao lado das linhas tradicionais, e o modo de entendê-los muda de terreiro para terreiro.
Fontes e referências
- Júlia Ritez Martins, dissertação de mestrado sobre o culto da encantaria na Umbanda, USP Ribeirão Preto, 2011 (Biblioteca Virtual FAPESP)
- O santo e o encantado: a procissão afro umbandista para São Sebastião em São João de Pirabas, Revista de Antropologia (USP), 2021
- Encantado (entidade), Wikipédia
- Tambor de Mina, Wikipedia
Perguntas frequentes
O que é um encantado?
O que é encantaria?
Encantado é a mesma coisa que egum?
A Umbanda trabalha com encantados?
Quem são os encantados mais conhecidos?
Quais são as famílias de encantados?
Por que Dom Sebastião é considerado encantado?
Cabocla Mariana é encantada?
Seres encantados da natureza são a mesma coisa que encantados da Mina?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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