
Na imagem de Cosme e Damião quase sempre aparece uma terceira criança, menor, no meio dos gêmeos. É Doum. Entenda de onde ele vem, por que tantos pontos perguntam por ele e como a Umbanda o reverencia na linha das Crianças.
Doum é o irmão caçula que a tradição afro-brasileira colocou ao lado dos gêmeos Cosme e Damião. Ele aparece como a criança menor no meio das imagens dos santos, é saudado junto com eles no dia 27 de setembro e é lembrado como protetor das crianças pequenas. O nome vem de Idowu, como os povos iorubás chamam o filho que nasce depois de um parto de gêmeos. Neste artigo você entende quem é Doum, de onde vem essa figura, qual a relação dele com os Ibejis e com os Erês, e por que a pergunta "cadê Doum?" aparece tanto nos pontos.
Resposta rápida
Doum é o terceiro irmão de Cosme e Damião. Na Umbanda e nos cultos afro-brasileiros ele é a criança que acompanha os gêmeos, reverenciada como protetora das crianças até os sete anos de idade. A figura vem do iorubá Idowu (também escrito Doú ou Idowú), o nome dado ao filho que nasce logo depois de gêmeos. Doum não é um Orixá à parte: ele faz parte da família dos Ibejis e é celebrado junto com a Ibejada, a linha das Crianças.
De onde vem Doum: o Idowu dos iorubás
Entre os povos iorubás, os gêmeos são chamados de ìbejì, que quer dizer "nascidos dois", e cada um recebe um nome fixo: o primeiro a nascer é Taiwo, o que vai na frente "provar o mundo", e o segundo é Kehinde. A criança que nasce depois de um par de gêmeos também tem nome certo: é sempre chamada de Idowu.
Esse filho que vem depois dos gêmeos é visto como uma criança de natureza especial, que chega para devolver o equilíbrio à família depois do acontecimento extraordinário que é um parto duplo. Estudos sobre a arte iorubá registram que o Idowu chega a ser chamado de "o Exu que vem depois dos gêmeos", e que existem imagens próprias para ele, parecidas com as dos Ibejis, feitas por orientação do babalaô.
No Brasil, Idowu virou Doú, Idowú e, na fala mais comum dos terreiros, Doum. O antropólogo e babalorixá Pai Rodney de Oxóssi resume o caminho: ao serem assimilados pelos terreiros, os santos gêmeos católicos ganharam novas histórias e até um irmão, o Idowu dos iorubás.
Como Doum entrou na imagem de Cosme e Damião
São Cosme e São Damião eram irmãos gêmeos e médicos que, segundo a tradição cristã, atendiam os doentes sem cobrar e foram martirizados por volta do ano 300, na perseguição do imperador Diocleciano. No Brasil, pelo sincretismo, esses santos gêmeos foram aproximados dos Ibejis, os Orixás gêmeos das crianças.
Como a família dos Ibejis inclui o Idowu, a devoção brasileira acrescentou uma terceira criança à imagem dos santos. É por isso que muitas imagens de Cosme e Damião vendidas em casas de artigos religiosos trazem um menino menor entre os dois, vestido de modo parecido. Na Igreja Católica não existe um santo chamado Doum: ele é fruto do encontro das duas tradições, e esse encontro é justamente o que a festa de 27 de setembro celebra nos terreiros.
Há também lendas populares que explicam a presença dele. Uma das mais repetidas conta que Cosme, Damião e Doum eram trigêmeos e que, depois da morte de Doum ainda criança, os dois irmãos se dedicaram a cuidar das crianças de graça. São histórias de devoção, contadas de formas diferentes em cada lugar, e não relatos históricos.
Doum, o protetor das crianças até sete anos
O atributo mais conhecido de Doum é a proteção das crianças pequenas. Ele é reverenciado como o protetor das crianças até os sete anos de idade, a fase em que, na visão de muitas casas, a criança ainda está mais aberta e mais frágil. Por isso mães e avós costumam pedir a Doum saúde, sono tranquilo e proteção para os filhos e netos pequenos, e agradecer a ele quando uma criança se recupera de uma doença.
Nas festas de terreiro é comum ver, ao lado das imagens ou das crianças vestidas como os gêmeos, uma terceira criança arrumada do mesmo jeito, que representa Doum. Em várias casas, o nome dele é incluído em toda saudação à Ibejada: "Salve Cosme, Damião e Doum".
Esse pedido de proteção complementa, e nunca substitui, o cuidado de pais e médicos. A fé acompanha a criança, mas a vacina, a consulta e o pediatra continuam sendo indispensáveis.
Cadê Doum? Doum nos pontos cantados
Quem frequenta gira de Crianças já ouviu pontos que perguntam por Doum, que o mostram brincando no chão ou que o colocam como a terceira estrela no céu. A pergunta tem sentido de brincadeira: Cosme e Damião chegam, e a gira quer saber onde ficou o irmão menor. É a mesma alegria das crianças que se procuram no quintal.
O ponto Lá no céu tem três estrelas é um bom exemplo de como a terceira criança aparece no canto, e em cada casa ela pode ganhar um nome diferente, Doum ou Mariazinha, por exemplo. Ponto cantado é tradição oral e varia de casa para casa, e nenhuma versão está errada.
Doum e os sete meninos
Em algumas tradições, sobretudo na Bahia, a família das crianças santas vai além do trio. O antropólogo Vivaldo da Costa Lima registrou a devoção que considera Cosme, Damião, Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi como sete irmãos, lembrados pelos sete meninos que comem primeiro no caruru de Cosme e Damião. A relação dos nomes varia conforme a região e a casa, e não existe uma lista oficial única.
Na Umbanda, todos esses nomes se reúnem na linha das Crianças, junto com os muitos Erês que trabalham nos terreiros, como a Erê Damiana e o Erê Crispim, que carregam no nome essa mesma família simbólica.
Doum, Ibeji e Erê: qual a diferença
- Ibejis são os Orixás gêmeos das crianças, divindades da tradição iorubá. Taiwo e Kehinde são os gêmeos, e Idowu é o irmão que vem depois.
- Cosme e Damião são os santos gêmeos católicos que o sincretismo aproximou dos Ibejis.
- Doum é o nome brasileiro do Idowu, incluído como terceiro irmão na imagem e na devoção dos santos gêmeos.
- Erês são os espíritos de crianças que se manifestam na Umbanda, na linha das Crianças, também chamada de Ibejada.
Na prática da Umbanda essas camadas se tocam, e é por isso que se canta, se reza e se festeja tudo junto. Mas conhecer a diferença ajuda a respeitar a história de cada tradição.
Como lembrar de Doum
Doum é lembrado junto com Cosme e Damião, sem ritual próprio separado na maioria das casas. As formas mais comuns são:
- Incluir o nome dele na saudação e na reza. A oração a Cosme e Damião pode terminar com um pedido a Doum pelas crianças pequenas da família.
- Separar um doce a mais. Quem monta a sacolinha de Cosme e Damião ou o prato de doces costuma pensar em três crianças, e não em duas.
- Acender uma vela nas cores da linha das Crianças, rosa e azul claro, pedindo proteção para os pequenos.
- Seguir a orientação da sua casa. Cada terreiro tem seu modo de festejar a Ibejada, e o dirigente é quem orienta oferendas e preceitos.
Em resumo
Doum é o terceiro irmão de Cosme e Damião, nascido do Idowu iorubá, o filho que vem depois dos gêmeos. Na Umbanda ele é saudado com a Ibejada, lembrado nos pontos das Crianças e reverenciado como protetor das crianças até sete anos. É um dos retratos mais bonitos do sincretismo brasileiro: um menino que não existe no calendário da Igreja, mas que ganhou lugar em quase toda imagem e em quase toda festa de 27 de setembro.
Fontes e referências
Perguntas frequentes
Quem é Doum na Umbanda?
Quem foi Doum de Cosme e Damião?
O que significa Doum?
Doum é um santo católico?
Doum é um Orixá?
Por que Doum protege as crianças até sete anos?
Qual é o dia de Doum?
Por que os pontos perguntam cadê Doum?
Quem são os sete irmãos de Cosme e Damião?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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