
Gira de esquerda é a sessão em que trabalham Exus e Pombagiras, os guardiões da Umbanda. É a gira mais cercada de medo e de fantasia, e a que menos se parece com o que dizem por aí. Entenda o que significa esquerda, o que acontece de verdade no salão, por que ela não é Quimbanda, como se comportar se você for assistir e como reconhecer uma casa séria.
Gira de esquerda é a sessão de Umbanda em que trabalham os Exus e as Pombagiras, entidades que a religião chama de guardiões. A palavra esquerda não quer dizer mal, e essa é a primeira coisa que precisa ficar clara: ela designa o campo de atuação dessas entidades, que lidam com as energias mais densas, com o que está agregado, com a demanda feita e com os assuntos que a vida traz sem pedir licença. É a gira mais cercada de medo por quem nunca foi, e uma das mais organizadas, mais disciplinadas e mais diretas para quem já entrou num salão.
O que é a gira de esquerda
Uma gira é a sessão de trabalho da Umbanda, o momento em que a casa abre, a corrente se firma e os guias descem para atender. A gira de esquerda é a gira dedicada aos Exus e às Pombagiras, que na Umbanda são entendidos como guardiões: espíritos que guardam as portas, cortam o que prende, encaminham o que está agregado e trabalham no campo em que os outros guias não entram.
A palavra esquerda vem da organização interna da religião, que divide os trabalhos entre a chamada direita, das linhas de Caboclos, Pretos-Velhos, Erês e demais falanges, e a esquerda, dos guardiões. Não é uma divisão moral. É uma divisão de função e de campo de atuação. A direita aconselha, acalma, cura e orienta. A esquerda corta, limpa, protege e encaminha. As duas trabalham dentro da mesma lei e sob a mesma orientação, e uma casa que só tem uma das duas é uma casa incompleta.
Os mais velhos costumam explicar isso com uma imagem simples: numa casa, alguém cuida de quem está dentro e alguém cuida da porta. Os guardiões cuidam da porta. Por isso a gira de esquerda costuma ser também a gira em que se firma a proteção da casa e da corrente.
Esquerda não quer dizer mal
Esse é o mal entendido que mais afasta gente da Umbanda, e ele tem origem cultural bem identificável. No imaginário ocidental, a esquerda ficou associada ao sinistro, ao torto e ao errado, herança de séculos de preconceito contra canhotos e contra tudo o que fugia do padrão. Somada à demonização histórica de Exu, promovida pela catequese que o traduziu como diabo, a palavra virou sinônimo de mal na cabeça de muita gente.
Nada disso corresponde ao que as casas ensinam. Exu não é o diabo, e essa afirmação não é diplomacia: é fundamento. O diabo pertence à cosmologia cristã, com uma função que não existe nas religiões de matriz africana. Exu é o senhor do movimento, das passagens, das encruzilhadas e da comunicação, aquele sem o qual nada se faz e nada chega. A Pombagira trabalha com o desejo, com a autoestima, com o amor próprio e com as amarras afetivas, e é procurada por muita gente que só descobre ali que o problema nunca foi o outro.
O que existe de fato na esquerda é densidade, e não maldade. Os guardiões trabalham em contato com o que é pesado, com espíritos sem luz, com energia agregada e com demanda feita, e é por isso que essa linha pede mais fundamento, mais disciplina e mais firmeza do dirigente. A palavra correta para descrever a esquerda não é perigo: é responsabilidade.
Como funciona uma gira de esquerda
Quem imagina desordem se surpreende. A gira de esquerda é, em muitas casas, a mais disciplinada de todas, justamente porque o trabalho é mais pesado e exige controle.
O roteiro varia de terreiro para terreiro, mas o desenho geral costuma ser este:
- Preparação. A casa é limpa e defumada, os pontos de firmeza são acesos e a corrente se concentra. Muitas casas fazem defumação forte antes de abrir.
- Abertura. Canta se a curimba de abertura, saúda se Olorum, os Orixás e as linhas, e só então se abre a esquerda. Nenhuma casa séria abre a esquerda sem antes saudar e firmar a direita.
- Firmeza da tronqueira. Acende se a firmeza na tronqueira, ponto onde os guardiões da casa estão assentados, quase sempre junto à entrada.
- Chegada dos guardiões. Os médiuns incorporam, e a chegada costuma ser marcada, com gargalhada, corpo curvado, gestos firmes. Isso assusta quem não conhece e é apenas a forma de manifestação daquela linha.
- Atendimento. Os guardiões atendem as pessoas em consulta, com os cambonos assistindo. Costuma haver passe, corte, limpeza e conversa direta.
- Encerramento. Canta se o ponto de subida, os guardiões vão embora, a corrente se firma de novo e a casa fecha os trabalhos.
O tom da conversa costuma ser o que mais impressiona. Guardião fala direto, sem rodeio, às vezes com ironia e com humor pesado. Não é falta de respeito: é o jeito daquela linha. Quem vai esperando acolhimento de preto velho leva um susto, e quem vai precisando de verdade costuma sair aliviado justamente pela franqueza.
O que se pede numa gira de esquerda
Os assuntos que chegam à esquerda são bastante reconhecíveis, e quase sempre são os que a pessoa demorou a contar para alguém.
- Corte de demanda e limpeza do que está agregado.
- Proteção pessoal, da casa, da família e do trabalho.
- Caminhos travados, emprego que não aparece, negócio que emperrou.
- Questões afetivas, sobretudo amarras, dependência emocional e relações que adoecem.
- Justiça e conflitos, na chave de cortar o que é injusto, e não de prejudicar alguém.
- Vícios e compulsões, campo em que os guardiões são muito chamados, sempre junto do tratamento profissional.
E há o que não se pede, e essa lista importa tanto quanto a outra. Não se pede mal para ninguém, não se pede amarração de pessoa, não se pede vingança e não se pede devolução de demanda. A Umbanda não devolve mal, porque se sustenta na caridade e na lei de causa e efeito, e o ensinamento repetido nos terreiros é que quem devolve entra na demanda. Guardião de casa séria recusa esse tipo de pedido, e muitas vezes recusa com bronca.
Gira de esquerda não é Quimbanda
A confusão é constante e vale separar com cuidado. Quimbanda é uma religião própria, com liturgia, hierarquia, panteão e fundamento independentes, na qual os Exus e as Pombagiras são as divindades centrais do culto. Ela tem casas próprias, ritos próprios e não é um apêndice da Umbanda.
A gira de esquerda, por outro lado, é uma sessão dentro da Umbanda, feita numa casa de Umbanda, dentro da doutrina da Umbanda, com os guardiões trabalhando sob a orientação dos Orixás e dentro da lei de caridade. O Exu que trabalha numa gira de esquerda de Umbanda é entendido como espírito que evolui prestando serviço, e não como divindade cultuada.
Existem casas que trabalham nas duas tradições, o que é legítimo e antigo, e existem pessoas que frequentam as duas. Isso não apaga a diferença. Chamar gira de esquerda de Quimbanda desrespeita as duas religiões, e é bom saber disso antes de repetir.
Se você vai assistir a uma gira de esquerda
Assistir é permitido na maioria das casas, e a orientação prática é quase toda igual à de qualquer gira, com alguns cuidados a mais.
- Pergunte antes. Ligue, mande mensagem ou vá numa gira de direita primeiro e pergunte se a casa recebe visitante na esquerda. Algumas recebem, outras não, e as duas posturas são legítimas.
- Vá de roupa discreta. Muitas casas pedem branco também na esquerda, outras liberam cor. Evite decote grande, short curto, chinelo de dedo e roupa de praia. Na dúvida, branco resolve.
- Não vá bêbado nem chapado. Isso vale para toda gira e na esquerda é levado ainda mais a sério.
- Não fotografe e não filme. Nem o salão, nem os médiuns, nem a tronqueira. Pergunte se quiser registrar algo, e aceite o não.
- Não se assuste com a gargalhada. É a marca da linha e não é ameaça a você.
- Não toque em quem está incorporado e não se aproxime por conta própria. Quem conduz é o cambono.
- Se oferecerem bebida ou fumo, você pode recusar. Ninguém é obrigado a beber nada, e casa séria respeita isso na hora.
- Leve a sua pergunta pronta. A consulta de esquerda costuma ser curta e direta, e quem vai sem saber o que quer sai sem entender o que ouviu.
Se for a sua primeira vez num terreiro, vale ler antes o guia sobre a primeira vez no terreiro, que reúne o básico de postura, vestimenta e etiqueta.
Como reconhecer uma casa séria
A esquerda é o campo em que mais aparece gente sem compromisso, e é justamente quem está desesperado que bate nessa porta. Os sinais de alerta são reconhecíveis e vale decorá los.
Desconfie de casa que: cobra por consulta em gira; dá diagnóstico assustador no primeiro contato, sem conversa; fabrica urgência com o agora ou nunca; pede valor alto antes de qualquer explicação; promete resultado garantido e marca prazo; oferece amarração de pessoa; oferece devolver o mal a quem te feriu; recusa explicar o que vai fazer alegando segredo; manda parar remédio ou abandonar tratamento; ou pressiona você a voltar sempre e a gastar mais a cada visita.
Casa séria faz o contrário: ouve antes de concluir; manda procurar médico; explica o que vai fazer; não cobra por atendimento em gira; não promete desfecho; e recusa pedido de mal, mesmo que você insista. Se o medo é a principal ferramenta de quem está te atendendo, o problema não é a sua demanda.
Uma última coisa, dita sem rodeio: trabalho espiritual não substitui tratamento de saúde. Guia que manda interromper medicação, abandonar acompanhamento médico ou psicológico, ou que oferece cura em troca de dinheiro, é sinal claro de que aquele não é o lugar. Nada deste artigo é orientação médica.
Perguntas que todo mundo faz e ninguém tem coragem de fazer
Algumas dúvidas se repetem tanto que vale respondê las direto, sem cerimônia.
Bebida e fumo na gira. Muitos guardiões usam bebida e fumo no atendimento, e isso tem fundamento de trabalho, ligado à limpeza e à movimentação de energia, e não a diversão. Ninguém é obrigado a beber nada, e casa que empurra bebida em visitante não está trabalhando, está fazendo outra coisa.
Pode ir menstruada. Varia muito de casa para casa, e algumas pedem que a pessoa não trabalhe na corrente nesse período, o que é fundamento antigo e não é ofensa. Pergunte na casa, sem constrangimento.
Criança pode assistir. Na maioria das casas, gira de esquerda não é lugar de criança, e isso é dito com naturalidade. Pergunte antes de levar.
Gira de esquerda é à noite. Costuma ser, e muitas casas trabalham a esquerda na segunda ou na sexta, mas isso varia bastante.
Vou ficar preso a alguma coisa se eu for. Não. Assistir a uma gira não firma nada, não cria compromisso e não prende ninguém. Quem disser o contrário está te manipulando.
Fontes e referências
Perguntas frequentes
O que é gira de esquerda na Umbanda?
Gira de esquerda é coisa ruim ou macumba do mal?
Qual a diferença entre gira de esquerda e Quimbanda?
O que se pede numa gira de esquerda?
Qualquer pessoa pode assistir a uma gira de esquerda?
Por que os Exus gargalham na gira?
Por que se usa bebida e fumo na gira de esquerda?
Gira de esquerda faz amarração amorosa?
Preciso pagar para ser atendido numa gira de esquerda?
Assistir a uma gira de esquerda me prende a alguma coisa?
Qual o dia da gira de esquerda?
Criança pode ir na gira de esquerda?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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