
Na mão do Preto Velho, o café chega numa cuia escura e leve. No Boiadeiro, o marafo também. Essa vasilha simples, feita de um fruto de árvore, tem nome próprio no terreiro: coité. Entenda de onde ela vem, para que serve e por que tantas casas preferem o coité ao copo.
Coité é a cuia feita do fruto seco da cuieira, também chamada coitezeiro, usada na Umbanda para servir bebidas às entidades, como café, vinho, garapa e marafo. É um utensílio de origem indígena que entrou no terreiro pela mão dos guias mais ligados à terra, como Pretos Velhos, Caboclos e Boiadeiros.
Resposta rápida
Coité é uma cuia. Ela é feita do fruto da cuieira, uma árvore de frutos redondos e casca dura, que depois de seco, cortado e limpo vira vasilha.
No terreiro, o coité substitui o copo na hora de servir a bebida da entidade. É comum ver Pretos Velhos tomando café no coité e Boiadeiros ou Caboclos com o seu marafo na cuia.
Muitas casas também chamam de coité a cuia feita de coco seco ou de cabaça cortada. O nome muda um pouco de região para região, mas a ideia é a mesma: um recipiente natural para a bebida sagrada.
De onde vem a palavra coité
Coité é um dos nomes populares da cuieira e do seu fruto. Também aparecem as formas cuité, cuietê e cuieté.
Dicionários como o Dicio ligam a palavra a cuia somada ao tupi eté, que quer dizer legítimo, verdadeiro. Seria, então, a cuia de verdade. É uma explicação de dicionário, não uma regra fechada, mas ela ajuda a lembrar que o coité nasce da tradição indígena.
Nos vocabulários de terreiro, coité aparece definido como o fruto do coitezeiro, seco ou partido ao meio e pintado por dentro e por fora. Os mesmos vocabulários registram que alguns usam coco e outros usam cabaça.
A cuieira e uma herança de milhares de anos
A cuieira tem o nome científico Crescentia cujete. Dá frutos verdes, redondos e de casca dura, que secam bem e duram muito.
A cuia é uma das peças mais antigas da vida indígena nas Américas. Pesquisas de arqueologia citadas pela imprensa paraense indicam o uso de cuias na Amazônia brasileira há cerca de 3 mil anos. No século XVIII, cuias pintadas e envernizadas por mulheres indígenas do Grão-Pará chegaram a ser vendidas na Europa como peças de luxo.
Em 2015, o Iphan registrou o modo de fazer cuias do Baixo Amazonas como patrimônio cultural imaterial do Brasil. Até hoje, são sobretudo mulheres ribeirinhas que mantêm esse saber.
Para que serve o coité no terreiro
O uso mais conhecido é servir a bebida da entidade durante a gira. Em vez do copo de vidro, a bebida vem no coité.
- Pretos Velhos: café, vinho tinto ou uma pinga leve, conforme a casa.
- Boiadeiros: marafo, vinho ou outra bebida da sua tradição.
- Caboclos: em muitas casas, também recebem a bebida na cuia, ligada à mata e aos povos indígenas.
Isso não é exclusivo dessas linhas. Há terreiros em que outras entidades também usam coité, e há casas que preferem copo, caneca de ágata ou quartinha. Quem decide é o fundamento da casa e o pedido do próprio guia.
O coité também pode ser usado em oferendas, para colocar água, bebida ou alimento junto da entrega, no lugar de um recipiente industrial.
Por que uma cuia e não um copo
As casas costumam dar algumas razões para preferir o coité:
- Ligação com a natureza. A cuia é fruto de árvore, sem tinta química nem plástico. Muitos umbandistas sentem que a bebida servida assim carrega mais força da mata.
- Memória dos antepassados. A cuia lembra a vida simples da roça, do sertão e das aldeias, que é a história de muitos guias.
- Respeito ao meio ambiente. Numa oferenda, o coité é biodegradável e volta para a terra sem deixar lixo.
O blog Umbanda em Paz chega a dizer que, trocando os copos por cabaças, as bebidas servidas aos Pretos Velhos e Caboclos ganham um valor energético a mais. É uma leitura de fé, comum em muitas casas, e não uma regra única da Umbanda.
Coité, cabaça, cuia e cumbuca
Esses nomes se misturam no dia a dia do terreiro, e vale separar um pouco:
- Cabaça: em sentido estrito, é o fruto de uma planta rasteira, a cabaceira, e não da cuieira. Inteira, chama-se cabaça.
- Cuia ou coité: a cabaça ou o fruto da cuieira cortado ao meio, usado como vasilha.
- Cumbuca: nome dado às cuias maiores.
- Coité de coco: a casca do coco seco, esvaziada e lixada, muito vendida em lojas de artigos religiosos, às vezes com base para ficar de pé.
Os antigos vocabulários de Umbanda registram ainda a binga, que seria um coité feito de chifre. Na prática, cada casa chama do seu jeito; o importante é saber qual é o uso que o seu terreiro dá a cada peça.
A cabaça cortada também aparece no amaci em algumas casas, como recipiente para as ervas, e pode substituir o alguidar em certas oferendas.
Como se prepara um coité
O caminho é parecido com o das cuias amazônicas. O fruto é colhido, cortado, tem a polpa retirada e depois seca até a casca ficar dura e leve.
Em seguida, a peça é lixada e, se a casa quiser, tingida ou pintada por dentro e por fora. Nas cuias tradicionais do Pará, o preto brilhante vem de técnicas indígenas com casca de árvore e outros materiais naturais.
Antes de ir para o congá ou para a mão da entidade, muitos terreiros cruzam ou consagram o coité. Como isso é feito varia muito: defumação, ervas, ponto riscado ou um pedido do próprio guia. Pergunte ao dirigente da sua casa.
Cuidados com o coité
Algumas orientações aparecem em várias casas:
- Lave e seque bem depois de cada gira. Cuia úmida guardada fechada pode mofar.
- Evite água fervendo e sabão forte, que racham e ressecam a casca.
- Respeite o dono. Em muitos terreiros, o coité de uma entidade é só dela, e o médium ou o cambono não usa a peça para outra coisa.
- Coité rachado ou quebrado costuma ser despachado na natureza e substituído, conforme a orientação da casa.
Uma palavra sobre o marafo: a bebida servida à entidade é ritual. O médium continua responsável pelo próprio corpo, e quem tem restrição ao álcool deve conversar com o dirigente; essa orientação não substitui a do médico.
Em resumo
Coité é a cuia feita do fruto seco da cuieira, herança indígena que a Umbanda adotou para servir café, vinho, garapa e marafo às entidades. Pretos Velhos, Boiadeiros e Caboclos são os que mais aparecem com ele, mas cada casa tem o seu costume.
Simples, natural e cheio de história, o coité lembra que o sagrado da Umbanda também mora nas coisas pequenas da terra.
Fontes e referências
- A Umbanda e Eu, Vocabulário de Umbanda (verbetes coité, binga e marafo)
- Umbanda em Paz, Cabaça (cuia, coité, cumbuca e uso com Pretos Velhos e Caboclos)
- O Liberal, Da árvore à tradição: cuias carregam séculos de história (Crescentia cujete, arqueologia, Iphan 2015)
- Agência FAPESP, Cuias feitas por mulheres indígenas abasteciam o mercado de luxo europeu no século XVIII
Perguntas frequentes
O que é coité?
Coité e cuia são a mesma coisa?
Qual entidade usa coité?
Qual a diferença entre coité e cabaça?
Por que usar coité e não copo?
O que é marafo?
Onde comprar coité?
Como limpar o coité?
O que é binga?
Weverton Pansan e Maria Amélia Pansan são médiuns de um terreiro de Umbanda em São Paulo e mantêm o Axé Umbanda com fundamento, respeito à tradição e fontes confiáveis.
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