Objetos que somem e reaparecem
A chave que não estava ali e no dia seguinte estava, no mesmo lugar onde você já procurou três vezes

A leitura tradicional é de brincadeira, e não de assombração. Na fé popular brasileira e em boa parte das casas de Umbanda, objeto que some e volta ao mesmo lugar é associado a espírito de criança, aos Erês e, em algumas raízes, ao Exu Mirim, entidades de jeito brincalhão que fazem esse tipo de traquinagem para chamar atenção. Antes de qualquer leitura espiritual, porém, vale a parte que resolve a maioria dos casos: a memória humana falha de um jeito muito específico quando a pessoa está com pressa, cansada ou fazendo duas coisas ao mesmo tempo, e o cérebro simplesmente não registra onde a mão largou o objeto.
O que a tradição diz
A associação mais repetida é com as entidades de criança. Erê é a entidade que se apresenta em forma de criança na gira, e o nome vem do iorubá com o sentido de brincadeira. A tradição entende que esconder objeto, trocar de lugar e devolver depois é exatamente o tipo de graça que agrada a essa linha, e o recado costuma ser lido como pedido de atenção, e não como ameaça.
Algumas casas leem a mesma coisa no campo do Exu Mirim, entidade da esquerda ligada ao desembaraço de situação complicada, que muitas raízes descrevem com jeito de criança levada. Vale a distinção que as casas de fundamento fazem questão de marcar: Exu Mirim não é espírito de criança falecida nem Erê mau, e confundir as duas coisas é erro comum de internet.
Existe uma leitura mais direta que os mais velhos usam bastante: objeto que some é convite a parar. A tradição entende o episódio como recado sobre pressa, sobre cabeça em dois lugares ao mesmo tempo e sobre pessoa que anda vivendo no automático. Quem procura a chave por vinte minutos é obrigado a parar de fazer tudo o que estava fazendo, e o recado está justamente nessa parada.
Há também a leitura de casa pedindo limpeza. Quando o fenômeno começa a acontecer muito, em vários cômodos e com várias pessoas da casa, parte das raízes entende como sinal de ambiente carregado, com clima pesado depois de briga, de visita difícil ou de doença, e a orientação costuma ser de limpeza simples, e não de trabalho complicado.
Vale registrar o que a tradição não diz. Objeto que some não é prova de trabalho feito contra você, não é sinal de morto na casa, não é castigo e não é motivo para procurar quem cobre caro para resolver. Esse é um dos fenômenos mais explorados por quem vende medo, e casa de fundamento trata o assunto com naturalidade, quase sempre com humor.
A leitura mais antiga e mais simples segue valendo: quando o objeto volta ao lugar onde você já procurou, a tradição diz que a brincadeira acabou e que o recado foi dado. Agradecer e seguir o dia é o gesto que a maioria das casas ensina.
O que fazer
- Pare de procurar por alguns minutos. Sente, respire e faça outra coisa. É o conselho mais repetido, é o mais espiritual e é também o mais eficiente do ponto de vista prático, porque a busca ansiosa faz a pessoa olhar sempre para os mesmos lugares.
- Refaça o caminho em voz alta, do último momento em que você tem certeza de ter tido o objeto na mão. Dizer em voz alta funciona melhor que pensar em silêncio, e isso não é mística: é o jeito como a memória recupera sequência.
- Peça com bom humor. O costume popular mais difundido é pedir em voz alta para a criança devolver, com leveza e sem bronca, prometendo um doce. Muita gente acha bobagem até acontecer. Se for do seu costume, prometa balas e cumpra depois, porque promessa feita se cumpre.
- Acenda uma vela branca com um copo de água limpa ao lado, em local seguro, e peça paz na casa. É o gesto mais simples da tradição e serve tanto para o pedido quanto para a gratidão depois que o objeto aparece.
- Se isso vem acontecendo com frequência, faça uma limpeza. Faxina comum primeiro, com janelas abertas, e depois, se for do seu costume, uma defumação de limpeza caminhando do fundo da casa em direção à porta da rua.
- Ofereça doces aos Erês se essa for a leitura que fez sentido para você e se for do costume da sua casa. Balas, cocada e guaraná em vasilha limpa, sem luxo, e o gesto mais bonito é dividir os doces com crianças de verdade depois.
- Organize o que dá para organizar. Um lugar fixo para chave, óculos, carteira e documento resolve a maior parte dos casos, e a tradição não vê contradição nenhuma nisso: cuidar da casa é parte do fundamento.
- Se o esquecimento vier acompanhado de confusão, de perda de nomes, de desorientação em lugar conhecido ou de dificuldade nova para fazer tarefas de rotina, principalmente em pessoa idosa, procure avaliação médica. Isso não é presságio e não é brincadeira de Erê. Nada aqui é orientação médica.
Atenção às causas naturais
Antes de tudo, observe o simples. Aqui a honestidade vale mais que o simbolismo, e a explicação comum dá conta de quase tudo. O cérebro só guarda onde você colocou um objeto se prestou atenção no momento de colocar, e quando a pessoa está no automático, conversando, olhando o telefone ou com pressa, esse registro simplesmente não acontece. Depois, na hora de procurar, entra outro fenômeno bem estudado: a busca ansiosa faz os olhos passarem várias vezes pelo mesmo ponto sem enxergar o que está ali, principalmente quando o objeto está fora do contexto esperado ou em cima de um fundo da mesma cor. É por isso que a chave aparece no lugar onde você já olhou três vezes, e não porque alguém a colocou de volta. Some se a isso a vida em casa compartilhada, onde outra pessoa pega e larga em outro canto sem avisar, e o bicho de estimação que derruba coisa pequena para baixo do móvel. Cansaço, noite mal dormida, estresse e excesso de tarefas simultâneas pioram muito esse tipo de falha, e isso é normal e não é doença. A leitura espiritual entra depois disso, e não no lugar disso. O que costuma acender o alerta de saúde é outra coisa: esquecimento que muda de padrão, com confusão, perda de nomes, desorientação em lugar conhecido ou dificuldade nova para tarefas simples, principalmente em pessoa idosa. Nesse caso o caminho é avaliação médica, e nenhuma casa de fundamento orienta diferente disso.
Perguntas frequentes
O que significa quando objetos somem e aparecem depois?
Objeto sumindo é sinal de espírito na casa?
É Erê que esconde as coisas?
Erê e Exu Mirim são a mesma coisa?
O que fazer quando um objeto some?
Funciona prometer doce para achar o que sumiu?
Objeto sumindo com frequência é sinal de casa carregada?
Preciso fazer algum trabalho para resolver?
Quando o esquecimento vira caso de médico?
Dá para evitar que isso aconteça?
Fonte: Erê, verbete da Wikipédia em português, Exu Mirim: quem é e como trabalha, Joia Mística Laroyê, Espíritos que escondem objetos, Umbanda Candomblé e Espiritismo






