Imagem ilustrativaRezas umbandistas
Oração a Santa Bárbara
À santa dos raios e das tempestades, sincretizada no Brasil com Mãe Iansã, procurada por quem precisa de coragem diante do que assusta e de proteção quando o tempo vira
- Tipo: oração autoral
- Origem da publicação: Axé Umbanda
- Gestos devocionais: opcionais
Oração a Santa Bárbara
Leia no seu ritmo, com tranquilidade.
Santa Bárbara, senhora do raio e do trovão,
vós que não vos curvastes quando vos mandaram calar,
e que preferistes perder tudo a negar aquilo em que acreditáveis,
olhai por mim neste tempo em que ando com medo.
Eu não venho pedir que a tempestade não venha,
porque tempestade vem na vida de todo mundo,
e eu já aprendi que ninguém escapa da sua.
Eu venho pedir para não perder a cabeça no meio dela.
Dai me a coragem que vós tivestes,
aquela que não grita e não se exibe,
mas que fica de pé quando é mais fácil se ajoelhar.
Dai me firmeza para dizer o que precisa ser dito,
e juízo para não dizer o que só serve para machucar.
Santa Bárbara, protetora de quem trabalha com fogo e com perigo,
guardai quem sustenta a casa arriscando o corpo:
quem sobe em telhado, quem lida com fio ligado,
quem trabalha com fogo, com máquina e com estrada,
quem entra onde os outros estão saindo.
Que eles voltem inteiros para quem os espera.
Guardai a minha casa quando o céu escurecer,
guardai o telhado, a janela e quem dorme dentro dela,
e guardai também quem não tem telhado nenhum,
porque a chuva que aqui é barulho, lá fora é desgraça.
Santa Bárbara, vós que fostes julgada pelo próprio pai,
amparai quem sofre dentro da própria família,
quem apanha de quem deveria proteger,
quem cala com medo do que vai acontecer se falar.
Dai a essas pessoas uma porta, um caminho e alguém que acredite nelas.
E a mim, dai a decência de não fingir que não vejo.
Que eu não me acostume com o que é injusto,
nem ache normal aquilo que só é comum.
Que eu tenha a coragem de mudar o que pode ser mudado,
a paciência de atravessar o que não pode,
e a honestidade de saber a diferença entre os dois.
E quando passar a tempestade, seja ela qual for,
que eu me lembre de agradecer,
e de estender a mão para quem ainda está no meio da sua.
Assim seja.
Oração autoral publicada pelo Axé Umbanda. https://www.axeumbanda.com.br/rezas/oracao-a-santa-barbara/
O significado desta oração
Santa Bárbara é uma das santas mais antigas da devoção popular, cultuada há séculos como protetora contra raios, tempestades, incêndios e morte súbita.
A história tradicional conta que ela foi mantida presa numa torre pelo próprio pai, que se converteu ao cristianismo contra a vontade dele e que foi por ele denunciada e morta. A tradição acrescenta que, logo depois, um raio caiu sobre o pai.
É desse episódio que nasce a associação dela com o raio, com o trovão e com a proteção de quem enfrenta perigo.
No Brasil, a devoção a Santa Bárbara encontrou a Iansã no processo de sincretismo, que foi antes de tudo uma estratégia de sobrevivência: os povos africanos escravizados, proibidos de cultuar abertamente os seus orixás, associaram as suas forças a santos católicos para poder continuar cultuando.
Iansã, senhora dos ventos, das tempestades e dos eguns, se encontrou com a santa do raio, e a data de 4 de dezembro virou, em boa parte do país, festa das duas ao mesmo tempo.
É importante dizer com clareza, porque a confusão é comum: sincretismo não quer dizer que a santa e a Orixá sejam a mesma pessoa. São figuras de tradições distintas, com histórias próprias, cultos próprios e fundamentos próprios, que se aproximaram por causa de uma perseguição histórica e de uma semelhança simbólica.
Há casas que rezam às duas com naturalidade, há casas que preferem separar com rigor e as duas posturas existem entre gente de fundamento.
Nos terreiros de Umbanda, essa oração costuma ser rezada por quem é filho de Iansã, por quem passa por fase de turbulência e por quem precisa de coragem para enfrentar alguma coisa.
Ela também aparece muito nas casas de família brasileiras, penduradas na parede junto à imagem da santa, rezada por gente que nunca pisou em terreiro nenhum.
O eixo da oração é a coragem, e não a ausência de problema. A tradição não promete que a tempestade não venha: promete amparo no meio dela. Essa é uma diferença que os mais velhos fazem questão de sublinhar, e ela vale para qualquer oração de proteção.
Há ainda um traço da devoção que merece registro: Santa Bárbara é padroeira de quem trabalha com fogo e com explosivos, e por isso é venerada por bombeiros, artilheiros, mineiros, eletricitários e trabalhadores de indústria pesada em vários países.
Essa proteção de quem arrisca o corpo para sustentar a casa é parte importante do que se pede a ela.
As formas de rezar variam entre pessoas e terreiros.
Como rezar com tranquilidade
Reze em qualquer lugar e em qualquer hora, porque oração não tem hora marcada. O costume mais repetido é rezar em casa, num canto tranquilo, com o celular longe.
Se quiser acender uma vela, use vela branca ou amarela, que são as cores mais citadas para ela e para Iansã. Firme num pires de louça ou de barro, longe de cortina e de papel, e nunca deixe fogo aceso sem alguém por perto.
Um copo de água limpa ao lado é costume antigo e simples, retirado no dia seguinte e descartado na pia ou na terra de um vaso.
Se você é de casa, pode saudar antes com um Eparrey Oyá, e quem prefere rezar só à santa reza sem saudação nenhuma. As duas formas são respeitosas.
Leia devagar e em voz baixa, sem pressa de terminar. Se alguma parte não combinar com o que você está vivendo, pule sem culpa e diga com as suas palavras.
Em dia de tempestade, reze depois de cuidar do prático: feche as janelas, tire o carro de baixo de árvore, desligue aparelho da tomada e afaste as crianças da porta. Fé e cuidado andam juntos.
Se a tempestade que assusta é a de dentro, com ansiedade, medo constante e noites mal dormidas, reze e procure ajuda também. Oração ampara, e profissional de saúde trata. Nenhuma casa séria diz o contrário.
Em 4 de dezembro, muita gente reza esta oração junto com uma vela e com uma flor amarela ou vermelha, e há quem leve flores para a igreja ou para a casa de santo. Nada disso é obrigatório.
Vela e flores são opcionais. Se acender uma vela, use suporte estável, longe de cortinas e papéis, e mantenha supervisão até apagar.
Quando rezar
Reza se em dia de tempestade e de vento forte, quando o medo aperta e a casa fica tensa; em 4 de dezembro, data em que se celebram Santa Bárbara e Iansã; antes de enfrentar situação que assusta, como audiência, confronto necessário, exame ou conversa difícil; por quem trabalha com fogo, com eletricidade, com estrada e com perigo; e por quem vive dentro de casa violenta e precisa de coragem para procurar ajuda.
Não é preciso comprar materiais para rezar.
Perguntas frequentes
Santa Bárbara é a mesma coisa que Iansã?
Não. São figuras de tradições diferentes, com histórias e cultos próprios, que se aproximaram no Brasil pelo sincretismo. Iansã é a Orixá dos ventos, das tempestades e dos eguns, cultuada nas religiões de matriz africana. Santa Bárbara é santa da devoção católica, protetora contra raios e tempestades.
O sincretismo foi estratégia de sobrevivência diante da proibição do culto africano, e não afirmação de que as duas sejam a mesma pessoa.
Qual é o dia de Santa Bárbara?
O dia 4 de dezembro, data em que a Igreja celebra a santa e em que boa parte dos terreiros e das casas de Candomblé festeja Iansã. Na Bahia, a data é uma das maiores festas populares do calendário, com procissão e caruru.
Fora do dia, a oração pode ser rezada em qualquer data, e em muitas casas ela é rezada justamente quando o tempo vira e a chuva forte assusta.
Para que serve a oração a Santa Bárbara?
Serve para pedir coragem diante do que assusta, proteção em tempestade e firmeza para não se calar diante do que é injusto. Ela é muito rezada por quem trabalha com fogo, com eletricidade, com estrada e com perigo, por quem enfrenta situação difícil que não dá para adiar e por quem vive medo dentro de casa.
O que a tradição oferece é amparo no meio da tempestade, e não a promessa de que ela não venha.
Preciso ser de Umbanda para rezar a Santa Bárbara?
Não. A devoção a Santa Bárbara é católica e popular, atravessa o país inteiro e é rezada por muita gente que nunca pisou em terreiro. Quem é de Umbanda costuma rezá la junto da saudação a Iansã, e quem é católico reza só à santa.
Oração não pede carteirinha, e qualquer pessoa pode rezar com respeito e com a fé que tiver.
Qual vela acender para Santa Bárbara?
As cores mais citadas são o branco e o amarelo, e há casas que usam o vermelho pela ligação com Iansã. Acenda em pires de louça ou de barro, em superfície firme, longe de cortina, de papel e de álcool, e nunca deixe a vela acesa sem alguém por perto.
Vela não se apaga com sopro segundo o costume mais difundido, e sim naturalmente ou com abafador.
Por que Santa Bárbara é ligada ao raio?
Pela história tradicional da santa, que conta que ela foi presa numa torre pelo próprio pai, denunciada por ele por ter se convertido ao cristianismo e por ele morta, e que logo depois um raio caiu sobre ele.
Dessa narrativa nasceu a fama de protetora contra raios, tempestades, incêndios e morte súbita, e é por isso que ela é padroeira de bombeiros, artilheiros e de quem trabalha com explosivos.
Posso rezar essa oração durante a tempestade?
Pode, e é um dos costumes mais antigos da devoção. O que vale acrescentar é a parte prática: feche as janelas, tire o carro de baixo de árvore, desligue os aparelhos da tomada, fique longe de janela e de objeto metálico e não saia com o temporal em cima.
Se você reza com vela, tenha ainda mais cuidado em casa com vento e correnteza de ar. Fé e precaução caminham juntas.
Essa oração serve para pedir coragem em audiência ou em conflito?
É um dos pedidos mais feitos a ela, justamente pela história de uma mulher que não se curvou quando mandaram que ela se calasse. A tradição pede firmeza para dizer o que precisa ser dito e juízo para não dizer o que só machuca, e essa é a medida da oração.
Ela não substitui advogado, preparo e prova, e nenhuma casa séria diz que substitui.
Posso rezar por outra pessoa?
Pode, e é um dos usos mais comuns desta oração. Muita gente reza por quem trabalha em serviço perigoso, por quem está numa situação difícil e por quem vive dentro de casa violenta. Rezar por alguém não interfere no livre arbítrio dessa pessoa e não exige que ela saiba.
O que a tradição desaconselha é rezar pedindo mal a alguém, o que não é oração e não é fundamento.
O que fazer se o medo não passa?
Reze e cuide também no plano da terra, que é o que os mais velhos ensinam sem constrangimento. Medo constante, aperto no peito, insônia longa e pensamento que não desliga são queixas que pedem ajuda profissional, e procurar psicólogo ou médico não é falta de fé.
Se o medo tem causa real, como violência dentro de casa, existe caminho e existe rede de apoio, e buscar isso é parte do cuidado, não o contrário dele.
Origem e versão
A publicação identifica esta oração como autoral do Axé Umbanda. Ela não é apresentada como texto universal da Umbanda.
Referências consultadas para o contexto:
- Sincretismo entre Iansã e Santa Bárbara, Raizes Espirituais
- Dia de Santa Bárbara e o sincretismo com Iansã, Diário do Nordeste
- 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara e Iansã na Umbanda, DOL
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